sábado, diciembre 13, 2008

silencioso

Silencioso, mijava no mictório da empresa. A cabeça encostada na parede, o cuspe amarelado e com nojo do café gelado. A dor de cabeça que lhe apertava as têmporas, a vontade de rasgar a pele com as próprias mãos e tirar lá de dentro o que incomodava. A tontura do almoço nenhum.

martes, octubre 21, 2008

poema sobre impulsos e paixões urbanas

ele caminhava pela rua, rua cinza, dia de inverno, inverno porto-alegrense, soltando fumaça pela boca, mão no bolso.
se escorou em um poste, na frente de um apartamento térreo, acendeu um cigarro, olhou pra dentro da janela.
ela dançava, de calcinha, na janela.
ela e a irmã, e a mãe, mas só ela de calcinha.
ele fumava e olhava, e quando alguma delas olhava pra ele, desviava o rosto.
mas elas sabiam que ele a observava e ele sabia que elas sabiam, mas ficavam nesse jogo, por questão de educação.
até que ele entrou pela janela, não falou nada e a beijou.
a partir desse dia começaram a namorar, mas tudo durou um dia só, porque ela já tinha um namorado e esse namorado não podia saber que ela tinha arranjado outro, que ela havia gostado muito dele muito dele mesmo, mas que ele tinha que convir que era meio estranho assim entrar janela adentro sem dizer nada ela precisava pelo menos de uns dias pra pensar.
ele não tinha tempo, não tinha uns dias pra dar pra ela pensar, gritou, a acusou de ter estragado a vida dele, disse que nunca tinha amado ninguém assim.
e ela sem entender nada começou a chorar e então ele começou a chorar também.
daí a mãe e a irmã da menina pediram pra ele ir saindo, fora uma tarde muito agradável, elas tinham que admitir, mas agora acabou acabou acabou ta ficando tarde daqui a pouco chega o outro e aí ninguém sabe o que vai acontecer.
que ele volte a caminhar.
pelas ruas.
sozinho.

lunes, septiembre 08, 2008

desespero

fumava desesperado entre as paredes de seu quarto em um gesto violento abriu as janelas e arrancou os primeiros botões da camisa. entre as ruínas de sua vida sentia-se acuado, como um prisioneiro. sem saída do seu cárcere particular de imaginação, de projeção, de sentimentos dotados de uma impossível realização futura, mas que ao mesmo tempo, eram dotados de um prazer atemporal enquanto condição de apenas-sentimentos. deitado em sua cama dava a última tragada no cigarro.

jueves, agosto 21, 2008

passará

acendo um cigarro atípico
apático
a vida que em volta passa.
passo junto ela
e logo tudo passará.

viernes, agosto 15, 2008

paixões antigas

pega silenciosamente com as mãos e põe na boca
sente o gosto.
cheira.
analisa com os olhos.
fecha os olhos.
esquece os olhos.
só sente.
sente com as mãos, com a boca
essencialmente com as mãos
com a ponta da língua
com o tato mais apurado que puder
porque vida é tato.


são paixões antigas
cigarros molhados
cafés sem gosto.
tudo que de alguma forma for ridículo
tudo que de alguma forma não se queira ter
tudo que de alguma forma
penetre incessantemente no inconsciente
e lá cresça
como planta carnívora,
parasita, erva daninha,
não como flor.

jueves, julio 31, 2008

De cá pra lá.

Se vais embora, por favor, não te detenhas/ Sigas em frente e não olhes para trás/ Que assim não vais ver a lágrima insistente/ Que molha o rosto do teu velho, meu rapaz.

Era dezembro quando seu pai os puxou pela mão e os levou para verem o que chegara à cidade. Vestidos em bermuda e camisa curta de algodão, se espantaram ao ver na grande tela do cinema o primeiro ator que apareceu, achando que devia ser um homem de muita importância, pois saíam por aí mostrando a todos a sua história.
Escondido saía do colégio quase todas as tardes para ver o mesmo filme, até que no mês seguinte o trocaram e só então compreendeu que existiam vários homens importantes como aquele primeiro e muitas histórias para serem contadas. Contou a novidade ao irmão menor e o puxou pela mão como fez o pai na primeira vez para levá-lo até o segundo filme. E assim fez consecutivamente todos os meses que se seguiram antes de sua partida, primeiro via o filme sozinho e depois levava o irmão. Trancafiados dentro de seu quartinho, os irmãos imaginavam que também apareceriam em uma história contada no cinema, para que todos vissem, já sabiam o que significava ser um ator, pois notavam que o homem do primeiro filme aparecia em vários outros, com nomes e histórias diferentes, então perceberam que na verdade ele só fingia. Trancafiados dentro de seu quartinho, os irmãos também fingiam e passavam noites inteiras em claro fingindo baixinho, para que os pais não ouvissem.
Cinco anos depois, quando havia acabado seus estudos, ele deu a notícia:
- Vou para a capital. Ser ator.
O pai lhe deu um tapa. A mãe chorou, só entendendo mais tarde o porquê. O irmão sorria ao mesmo tempo um sorriso de satisfação e orgulho pelo irmão mais velho e um sorriso de decepção, pois queria ir junto. Ele abraçou o irmão e disse em seu ouvido: quando completares teus estudos, volto pra te buscar.
A mãe enxugou as lágrimas e o pai sentenciou: Não se fala nessa casa, o nome de quem partiu.

Chegando à capital encontrou a solidão de concreto onde tudo é cinza, inclusive a felicidade. Não voltou pra buscar o irmão, certo de que este estaria melhor na cidadezinha onde nasceram, longe da confusão e da desilusão que assola a cidade grande. Não encontrou emprego como ator e depois de inúmeras tentativas frustradas desistiu. Arrumou um emprego como caixa em um banco e disso vivia. Alugou um apartamento e lá ficou, entre lágrimas, remoendo a saudade durante quarenta anos.

Era dezembro quando voltou a sua cidade natal, foi direto a casa de sua infância, certo de que lá encontraria sua família. Encontrou a mesma casa de sempre, mas mais velha, mais triste, como se faltasse um pedaço. Encontrou a mãe sentada em uma cadeirinha de balanço na varanda, com os olhos cegos pela catarata e lhe abraçou. Ela reconheceu pelos sentidos que ainda tinha o filho que nunca mandara notícias, o filho já tido como falecido e falou: Seu pai morreu. Sem nunca pronunciar de novo o seu nome. E depois calou um silêncio mortal.
A notícia de que ele havia chego à cidade espalhou-se, então o irmão mais novo sabendo que ele estava na casa da família foi buscá-lo. O levou até sua casa, lhe apresentou sua esposa e seus dois filhos, sentaram-se na mesa da cozinha e almoçaram sem dizer uma palavra. Os sobrinhos perguntaram se o tio era famoso, ele disse que havia feito alguns filmes na capital, mas nada tão sério assim. Mentiu para impressionar o que ainda sobrava da família.

- Tu nunca veio me buscar.
- Tu não sabe o quanto padeci com a saudade naquela cidade.
- Tu tinha a saudade, eu só tinha o sonho.
- Quando o pai morreu?
- Poucos anos depois que tu te foi. A mãe passava as tardes chamando pelo teu nome pelos cantos, ainda que sob protestos do pai. Depois que ele se foi ela nunca mais falou mais nada, padecia em silêncio sua solidão.

Foi só o que se falou enquanto a esposa do irmão mais novo foi buscar o café. Depois acenderam cigarros respeitos e tragaram silenciosamente rancor e arrependimento.

lunes, julio 21, 2008

ao som de Ramilonga

Chove na tarde fria de Porto Alegre
Trago sozinho o verde do chimarrão
Olho o cotidiano, sei que vou embora
Nunca mais, nunca
mais
Ramilonga - Vitor Ramil

Começou a chover um pouco lá fora. Acho, na verdade que já faz tempo, pois as roupas no varal já estão bastante molhadas. Talvez a chuva tenha diminuído agora, e eu só notei porque fui à janela fumar. Acho que não notei antes porque estou sentado desde que acordei na mesma posição tentando compor alguma coisa, mas não consigo, não passa nada pela minha cabeça a não ser a imagem das folhas verdes murchando, ficando amareladas e os gravetos cada vez mais finos e quebradiços, o verde se misturando com o amarelo, um tom arroxeado também, meio sépia, e embaixo, perto da água morta e amarela, as folhas já meio cinzas, como a chuva ou aquele tchau mudo, aquele olhar calmo.

Já reparou como a grama fica bonita quando chove? Aquelas pequenas gotas, em cima das pequenas folhas, sabe?

- entre nós há uma distância tão grande. é esse seu afastamento, essa sua mania de não demonstrar sentimentos, essa carcaça dura que eu sei que é só fantasia porque aí dentro tem tanta coisa.

- nós dois sabemos que não. olha aquela criança correndo com o cachorro, com as roupas sujas de lama, os dois rolando pelo chão molhado, escorregando, caindo, sujando e mesmo assim sorrindo. é isso, escorregar, cair, sujar, ser frágil, não é ruim. o que importa é o sorriso.

- isso, as pequenas coisas. o carinho leve, o sorriso discreto.

- é porque você tem medo do que é extremo. é porque você tem medo de se expor. é porque você tem medo de lembrar de algo que ta aí guardado, há tanto tempo que nem você lembra mais.

Vou abrir um pouco mais a janela, desligar a televisão e ficar ouvindo os pingos baterem na vidraça. Tu destrói meu corpo pouco a pouco com compulsivas carteiras de cigarro, copos de hi-fi com suco industrial e sobra de vodka barata que tu deixou aqui do tempo em que morava comigo. Tu destrói meu cérebro com essas lembranças compulsivas que não me deixam dormir, nem ler, nem mesmo me afundar em bebida e ficar chorando, lamentando, relembrando de um tempo futuro que só existiu na minha mente. E talvez na tua. Porque o que mais tínhamos eram planos. Agora eu só tenho um plano: dormir pra não pensar. E é só o que faço também. Durmo.

E mesmo quando deito, o pensamento me consome e não passa nada pela minha cabeça a não ser a imagem das folhas verdes murchando, ficando amareladas e os gravetos cada vez mais finos e quebradiços, o verde se misturando com o amarelo, um tom arroxeado também, meio sépia, e embaixo, perto da água morta e amarela, as folhas já meio cinzas, como a chuva ou aquele tchau mudo, aquele olhar calmo.

Aquele tchau mudo. Aquele olhar calmo.

miércoles, junio 25, 2008

Qualquer Um

A pior parte é das 3h em diante. Um cigarro por hora, só um cigarro por hora. Essa carteira tem que durar até quinta, quando recebo. Mais ou menos as 04h30min eu tomo um banho, bem quente e faço um chá com torradas pra comer sozinha sentada na cozinha olhando amanhecer pela janela. Meus pés tão gelados, porra. Eu não paro de espirrar. Tem um filho da puta na rua gritando não me bate, caralho, não me bate, leva tudo, mas não me bate. Foda-se. Eu preferia que tivessem me batendo agora. Bem na cara, me chamando de vadia. Me mandando ficar de quatro e implorar que nem cadela no cio. Bem assim. Que nem cadela no cio. Que nem ele mandava. Foda-se. Pelo menos eu não tava sozinha agora. Tentando esquentar a porra dos meus pés com uma merda de garrafa esquentada no microondas.
Eu queria dançar um tango. De vestido longo, rosa na boca. Que nem nos filmes. Queria um jantar à luz de velas, vinho e fondue. Queria que ele me chamasse de meu amor e me fizesse carinho na nuca e fosse me beijando calmamente e me despindo com classe, que nem ele fazia nos primeiros meses. Antes de ele começar a bater na minha cara e me chamar de cadela no cio. Mas como eu gostava. De tudo eu gostava. Eu só não gosto é de ficar sozinha. Esperando o dia amanhecer.
Tem algum puto chorando no prédio. Eu só ouço os soluços. Algumas vozes, uma discussão. Um fim de namoro. Uma briga qualquer. Foda-se. Pelo menos tem alguém pra brigar, porque até quando ele me batia com força, com raiva no lugar de tesão, eu gostava. Me deixando roxa, com a cara inchada, tendo que mentir no trabalho que caí da escada. Enquanto ele me batia pelo menos eu sabia que ele sentia algo. Mesmo que fosse raiva.

Mas ele foi embora. Foi embora com uma vadia vinte anos mais nova. Mais magra. Mais independente. Com uma vadia muito mais vadia do que eu. E agora só o que eu sinto é saudade. Solidão. Uma espécie qualquer de vazio. Foda-se. Amanhã eu não vou trabalhar. Eu vou deitar na porra da minha cama e de lá só vou levantar quando tiver setenta anos. Solteira, mas com ar de viúva. Vou deitar na minha cama e procurar por alguma lembrança dele. Qualquer mancha. Ou qualquer cheiro. Qualquer lembrança. Dele.
Ou de qualquer outro.

jueves, junio 12, 2008

nó na garganta


nada tenho

nada dói e nada pulsa

nada mais ou além

do que esse único e eterno nó na garganta

que é só o que existe.

miércoles, mayo 14, 2008

Quem me ensinou a chorar.

- Eu só fui feliz na infância.
Ela disse e eu comecei a chorar. Não um choro grande nem de muitas lágrimas. Mas um choro contido, quieto e sincero, quase escondido, como nunca havia sido antes.
A cidade tá cheia de gente pelos bares, pelas ruas, gritando e bebendo e olhando o futebol. E a gente aqui dentro, como se não existisse mais nada, ou pelo menos nada que importasse. Ela tá lá, deitada no quarto, praticamente dormindo, e só a levanta a cabeça pra dizer uma outra coisa com sentido duvidoso. Eu tô olhando ela dormir, e sorrindo. Tá muito frio e eu fui buscar um cobertor. Meus pés e minhas mãos tão congelando, meus lábios tão roxos e eu tô tremendo, mas não quero deitar embaixo do cobertor, do lado dela, porque sei o que vai acontecer, e hoje, só hoje, eu não quero: O corpo quente chegando perto do meu gelado, o carinho na nuca, a mão procurando como se procurasse por um tesouro escondido há séculos. Não, não hoje. Hoje não quero me expôr a extremos, embora não me expôr a nada também seja um extremo. E essa extremidade ela odeia, mesmo gostando de todas as outras.
- Eu gosto de te ver dormir.
Eu disse, mas ela nem ouviu direito.
Deixa eu te contar uma história:
uma vez a gente brigou, e depois de um tempo foi se ver. e tu tava tão linda, deus, tão linda sem mim, que eu sorri ao te ver. mesmo tu tendo passado a última noite no hospital, teu rosto trazia um ar de felicidade tão teu. que hoje eu já não vejo mais. e isso me dói tanto.
FIM
E agora com a garganta arranhada de quase dois maços de cigarros, que tu não saiba disso, e aquela vodka de ontem, que tenho certeza que nos deixou doentes, agora eu tenho certeza de que te amo, e isso é tão forte, mas eu tenho tanta certeza e não sei mais como é essa certeza ou: como vamos nos ver daqui pra frente?
Eu só sei que quero ver teu rosto estampado de felicidade, como naquela vez. Mesmo que isso doa.
E dói. E tu sabe disso tão bem quanto eu.

jueves, abril 24, 2008

Como atravessar uma manhã de sábado.

As manhãs de sábado são sempre frias, embora muitas vezes, sem vento. Fico sempre esperando por uma ligação ou uma batida na porta ou um toque na campainha. Um sinal qualquer. Tenho sempre a opção de: botar músicas antigas, ligar a televisão, o computador, abrir um livro e esperar passar. Ou deitar embaixo do cobertor procurar por cheiros gostos toques sensações que me lembrem outros cheiros gostos toques sensações escondidos na memória ou no corpo, ou quem sabe na memória do corpo. Ou fazer um bule de café bem quente e tomar olhando a rua.

Foi quando lembrei que há mais ou menos uns dez anos atrás adquiri a mania de no final de cada namoro mandar lavar e desinfetar as roupas de cama pra não ter, não ter de jeito nenhum, como alguma memória, olfativa, despertar. E as outras memórias não tem taanta graça assim sem o cheiro, então era melhor desistir de deitar embaixo do cobertor. E isso me deu uma tristeza, porque aquela manhã de sábado, mais do que as outras, aquela, especialmente aquela, me sentia tão nostálgico. Então me lembrei das roupas no armário, mas daí lembrei também que aquele último me veio com roupas tão bonitas e foi isso que despertou em mim aquele sentimento e peguei tanto nojo das roupas, mesmo as minhas, que pra não as por no fogo, as mandei junto com as roupas de cama pra lavar e desinfetar. Então desisti. A primeira opção era melhor. Decidi. Olhei a pilha de discos, mas ninguém ouve mais discos, agora é CD, agora é mp3, é USB. Nem eu ouço, eles tão ali só pra decoração, mas hoje eu tava tão nostálgico mesmo. Só que eu lembrei que eu tinha vendido a minha vitrola mês passado, porque eu tava desempregado e duro e não tinha nem café em casa. E isso me deu uma tristeza, porque aquela manhã tudo o que eu queria era ser nostálgico.

Restou a última opção: fazer um bule de café bem quente e tomar olhando a rua. Tão sem graça, mas tão sem graça. Só que era só o que sobrava, então tudo bem, quem sabe o café, ou a rua, me trouxesse recordações, afinal, o café, ou a rua, os dois, tem cheiro e cheiro leva a outras coisas e embora no fim seja tudo tato, pra mim, ou pelo menos, naquele dia pra mim, tudo dependia do cheiro. Então fui fazer meu café, contente, por pelo menos ter solucionado o que fazer na minha manhã de sábado. E só quando abri o armário que lembrei que tinha acabado todo o pó de café que havia conseguido comprar com o dinheiro da venda da vitrola.

Foi a partir daí que comecei a chorar. Chorei porque havia visto minha manhã de sábado, fria como qualquer manhã de sábado, desabar bem na minha cara, como uma bofetada. Só o que me sobrou foi a solidão, foi a espera de uma ligação ou uma batida na porta ou um toque na campainha. Um sinal qualquer. Foi a companhia do que eu queria fugir.

E enquanto eu chorava, e a manhã já se tornava tarde, o telefone tocou. Alguém bateu na porta. A campainha tocou. E tocou. E tocou.

jueves, abril 17, 2008

Por Favor

Acho que gosto de me sentir sujo quando me sinto triste. De deixar jorrar de dentro de mim toda essa sujeira. Como se a sujeira fosse o que me faz assim. Depois de tudo só o que sinto é vontade de fumar.

Queria que tu tivesse aqui pra eu te mostrar como meu quarto novo ta bonito. Tem um monte de coisa bonita colada. Bem do jeito que tu me ensinou. Tem um monte de quadros e fitas e um chapéu. Tudo que eu olho tem tua alma colada. Tenho medo que tu nuca mais esteja aqui. Então vou ter que descolar tudo.

E vou dormir. Vou dormir trinta e oito horas seguidas. Por que é isso que eu faço pra fugir dos problemas. Espero que tu passe aqui um dia. Passa aqui. Um dia.

lunes, abril 07, 2008

QUATRO

O LUGAR

Não lembro como nem quando viemos parar aqui, mas talvez a pergunta certa fosse por que. São quatro casas, cada uma com quatro peças, cada peça com quatro paredes. Um banheiro, uma cozinha e duas peças vazias, espécies de sala-quarto, quarto-sala. Em cada casa habitam quatro pessoas e a única ligação que as quatro pessoas de uma casa têm com as quatro de outra, são as sombras. Grandes sombras longas que se projetam nas grandes paredes de vidro que forram uma das quatro paredes das salas-quarto.
Como ninguém havia se visto antes, no princípio, era confuso: foram quatro dias sem ninguém falar uma palavra. Quatro dias de silêncio cortado apenas por um ruído aqui e outro ali, de galhos balançando no quintal que nenhuma das dezesseis pessoas conhecia ou sabia que existia. No começo os ruídos assustavam, mas ninguém falava nada, todos se contorciam dentro de si e evitavam ao máximo qualquer contato com os outros. Todos fechavam os olhos, mesmo sem saber se os outros fechavam também, porque pode ser perigoso o que se transmite através do olhar, e ninguém queria transmitir medo, nem nada.
E então o silêncio foi rompido com uma pessoa se lançando contra a janela de vidro, uma de cada casa. Quatro estrondos simultâneos que formavam um só estrondo. Uma massa sonora rompendo o silêncio quase eterno de quatro dias.
Nenhuma parede se quebrou, mas dali em diante as pessoas levantaram, foram ao banheiro, à cozinha, aos quartos. Caminharam, comeram, beberam, fumaram, normalmente, ainda que em silêncio.

CONTATO

Ele perguntou o nome da outra pessoa, mas ela não respondeu. No momento o que importava era manter certo contato, qualquer. O que importava, e era o que ele pensava, era armar uma estratégia pra eles poderem escapar daquela prisão, se é que era uma prisão. Porque não me respondem? Gritou.
Estamos com medo. Ela respondeu
Olhando mais atentamente, agora ele percebeu: eram dois homens, ele e mais um, e duas mulheres. Uma das mulheres tinha um rosto conhecido, mas ele não reconheceu. Reconheceu nela um sentimento, e é provável que ela também tenha reconhecido, pois se abraçaram e permaneceram abraçados em silêncio, se protegendo.

DIÁLOGO

Tem comida o suficiente.

Não, nós precisamos economizar.

Não sabemos quanto tempo, não temos nenhuma pista.

Cigarros têm pouco.

Tem pouca bebida também. Eu preciso beber.

Pelo menos vocês estão falando.

Tínhamos medo de vocês não nos aceitarem.

Estamos na mesma condição. Precisamos nos aceitar.

Os vínculos. As duplas. Já existiam antes. Eu acho. Eu senti a ligação. Precisamos nos ligar os quatro. Só assim sairemos vivos. Só assim sairemos.

Os outros podem nos ouvir. Deles ainda tenho medo.

Vem cá. Me abraça. Abraça ele também. E ela.

Me dá mais um cigarro.

Eles são inimigos.

Eles são inimigos?

CONFORTO

Não lembro como nem quando viemos parar aqui, mas talvez a pergunta certa fosse por que. Porque era preciso. Uma delas disse. Por que era preciso.
Talvez nem existam outras três casas. Lembram das sombras? Talvez tudo seja reflexo. Talvez eles também sejam nós. Ou talvez eles não sejam eles – sejam simplesmente, nós.
Mas precisavam tirar as dúvidas, precisavam descobrir o que havia além da parede vidro, então:

os quatro foram até a parede
e com pouquíssima força a levantaram
encontraram o quintal
e sem dizer uma palavra novamente
se separaram.


Agora nada é mais é confuso. Tudo é claro.
Agora eram livres, mas a ligação vai sempre permanecer, e além da ligação vai permanecer a dúvida: de que serve ser livre? Talvez fosse melhor ficar lá dentro, afinal, já tinham se
acostumado.

martes, marzo 11, 2008

Sobre a noite e a mistura

A noite
Quente
Queima
Sempre
-
Respiração ofegante
...olhar calmo, longe
Suores misturados.

domingo, marzo 02, 2008

Luz


Daqui de onde eu tô só dá pra ver uma luz, branca, no meio da escuridão total, talvez seja luz de outro apartamento, talvez não. Em cima se acendeu outra luz, dessa vez com certeza, de um apartamento. Não dá pra ver nada, mas o que não vejo imagino:
Ela tá de calcinha sentada no sofá da sala, com apenas essa luz acesa, tomando um cálice de vinho e pensando. Por mais que imagine não consigo nem imaginar no que ela possa estar pensando. O sofá‚ verde, com uma capa branca, já amarelada. As paredes são todas brancas, uma televisão que vive desligada, um rádio no chão, discos espalhados, e só, isso é a sala. E claro, cortinas, cortinas azuladas, que não sei se são assim ou ficam assim pela luz, da casa, ou da rua. Agora se acende outra luz, do banheiro, aquelas janelinhas pequenas. E se apaga. Deve ter ido lavar as mãos, ou algo assim, sem importância. A primeira luz se apaga, se acende uma segunda, em uma peça do lado do banheiro, deve ser um quarto, imagino, as mesmas cortinas azuladas. Será que ela foi dormir? Parei de observar por um tempo, busquei água, acendi um cigarro, pensei em dormir, voltei pra onde estava, a luz do banheiro se acendeu: uma esperança.
Tento raciocinar:
Ela foi até‚ o quarto, botou uma camisola, afinal, tem um ventinho soprando, foi ao banheiro escovar os dentes, agora apaga a luz do quarto e vai dormir, simples.
A luz do banheiro se apagou, o que prova que meu raciocínio foi pelo caminho certo, a primeira luz se acendeu, o que prova que foi pelo errado, mas talvez tenha esquecido algo na sala. Dou uma tragada funda, apago o cigarro, vou ao banheiro, sento, e olho. A luz do quarto apagou, realmente, ela tem insônia, brigou com o namorado, tá pensando em ligar pra ele, mas já é tarde, tá se sentindo sozinha e não consegue dormir sozinha, tá com muito frio, mas cobertor nenhum ajuda. Acende uma quarta luz, do outro lado da luz da sala, deve ser cozinha. Ela se levantou e foi fazer chá , chá bem quente pra espantar os pensamentos. Ele não te merece, querida, não te merece. Se ele soubesse como é lindo te imaginar assim, de camisola fazendo chá na madrugada, não te deixaria sozinha.

De repente alguém grita, um homem apanha de outro três homens, ou mais, ele grita: Por favor. Mas ninguém tem misericórdia. Dois tiros surdos, um grito ecoa na madrugada. Apenas nós dois ouvimos, eu e ela. Nos unimos por uma tragédia anônima, algo que acontece todos os dias e que ninguém nota porque todos dormem.
Agora as luzes da casa dela apagaram, sobrou apenas uma luz branca, uma luz anônima, no meio da escuridão total. Então apago minha luz também. E me preparo pra dormir.

jueves, febrero 21, 2008

Anotações

por gustavo e natália


Amo e odeio todos os homens que passaram pela minha vida, uns mais outros menos, sem exceções.
Escrevo no meu caderninho de anotações.
Noto isso as duas da tarde, deitado no sofá, dois cigarros e nenhum isqueiro, sem vontade de sair. Sem inspiração nenhuma pra pintar e sem um puto pila no bolso. Dor nas costas do caralho.
Anoto isso também, em letras grandes: DOR NAS COSTAS DO CARALHO
Preciso de massagem de dedos leves de mãos pesadas. Preciso de toque forte de gente frágil. De gente grande que por dentro é pequena, é mesquinha, é frágil frágil frágil e deveria vir com uma faixa de cuidado. Como todos que passaram por mim. Lindas muralhas gigantes feitas de torrões de açúcar no lugar de pedras.
Anoto: Preciso de alguém que grite comigo.
Preciso de um isqueiro.
Preciso pintar mais.
Preciso vender o que pinto.
Preciso de um corpo em cima do meu.
Ou embaixo, tanto faz.
Preciso.
Preciso.
Preciso.


Então acordo em um banheiro forrado de post-it's amarelos com anotações que não entendo.

sábado, febrero 16, 2008

aposta

aposta e perde tudo,
o que tinha pra perder
perde nada,
pede:
um cigarro,
por favor.

miércoles, enero 16, 2008

Velho Gaspar

O velho Gaspar sentado na cadeirinha de balanço mascando tabaco e cuspindo amarelo. As moscas varejeiras ali em cima, espreitando-o, esperando que vire carcaça.

miércoles, enero 02, 2008

Barulhos

A madrugada tem barulhos tão esquisitos que se ouvisse um tiro poderia pensar que é um pássaro ainda desconhecido, um alarme de carro, uma criança berrando, um copo quebrando, aqui dentro. Pois nada é nada e tudo, desprezo.

Foi quando de repente olhei pela vidraça e vi que o dia amanhecia, pingos escorriam e molhavam minhas mãos, se olhasse mais atentamente poderia ter visto o que só fui ver mais tarde: cada um desses pingos era um ser, um pequenino ser gigante em sua pequeneza. E foi um deles que mais tarde, muito mais tarde, me contou tudo. E sem que eu pudesse gritar, arremessou minha mão em direção à vidraça com sua incrível força de pequena-gigante-gota.

Foi o que eu disse à enfermeira antes de gritar de fato. Depois gritei. Aí fez um barulho tão esquisito, tão esquisito, que não sei se era barulho de choque tiro trovão alarme pela madrugada afora, ou se era um copo quebrando. Ou só a chuva caindo, aqui dentro. E então, adormeci.