martes, marzo 21, 2006

Poderia...

- Qual o seu nome?
- Maria.
- Combina com você, nomes carregam personalidades sabia?
- Ahnn e qual é o seu?
- Ausdraalegézio. Com dois a's.


Ele morreu sete vezes neste final de semana, suicidou-se em três delas, até tentou uma quarta
...mas sua irmã entrou no quarto, na hora exata em que carregava a arma com desespero e experiência.


Finalmente, chegou o Outono. O vento sopra e derruba as folhas, varre as calçadas com folhas.
Varre a solidão, e varre a alma, aglomerada e solitária da cidade.


Eles não se vêem a mais ou menos seis anos e meio, se conheceram no colégio, no segundo grau.
Se encontraram um dia, por acaso, em um parque, trocaram olhares, trocaram afagos imaginários em um segundo de olhar mágico e instantâneo. É como se dissessem: Que saudade do que nunca existiu.


Uma vela acesa perfumava o quarto com um suave aroma de lavanda. A chama o lembrava de como era bom o tempo em que se sentia infinito e imutável. Como é estranha a juventude, ele pensava suspirando. Como é estranha.
Uma vela acesa iluminava o quarto com uma suave chama. O aroma de lavanda o lembrava de calçar os chinelos, afinal, a temperatura está mudando.


Isso não está acontecendo, mas poderia.
(Disse ele com febre alta)
Você está delirando!
(Disse ela com aquele sorriso meigo)

Posso até estar, mas em cinco segundos corro até aí e lhe dou o melhor beijo de sua vida. Aí de possibilidade passa a fato concreto.
(Disse ele com febre mais alta ainda)


viernes, marzo 17, 2006

Desejo

Em uma obra desfigura de Miró
Da figura ex-figurativa atrativa
Compelida atraída pela ida
Com o olhar atrativo expelido
Como tudo parado, polido.
Trancado desfeito refeito em duo
Cansado estupefato repleto de atos
Calado olhando, a obra total
Desejo.


Chanteur (Miró)

martes, marzo 07, 2006

Elefantes



Lembra daquele tempo em que você queria ser um escritor?
Lembro.
Seus textos são horríveis, mas nossa filha adora, ela diz que são engraçados, e coloridos.
Diz que eu tô com saudade dela.
Nós moramos aqui do lado, tu nunca vai lá, porque não quer.
(Eu já não te amava faz uns dois anos, desde que você comprou aquele vestido horrível)
Não tô indo por vergonha, tu sabe que ainda tenho sentimentos por ti.
Não tem não.
Pois é, não.

Ele realmente sentia saudade de sua filha.
Não ia lá por vergonha. Vergonha dele mesmo, de suas roupas feias e velhas, de suas gravatas sem estampas, seus ternos pequenos, sua barba rala. Sua falta de dignidade. Ele estava traindo a sua ex-mulher desde que ela comprou aquele vestido horrível, a traia com a mulher de sua vida, a mulher que sempre amou, aliás, sempre foi apaixonado.
Ainda mantém o romance em segredo, e nem sabe porque, sente pena de si mesmo e de sua ironia, estava feliz com sua amante, de verdade.
Mas a verdade mesmo é que agora ela estava inventando de casar. Pra que?
Estava cansado de cêrimonias, rótulos e todas essas coisas, vinha tentando aprender xadrez, mas a burocracia, os horários e seu emprego não estavam deixando.Tentava se concentrar no xadrez! APENAS no xadrez! Mas sua amante não deixava, vai acabar perdendo o emprego, é tudo culpa dela.
Mas seus vestidos ainda são bonitos.
Vale a pena segurar o romance, e quem sabe fazer ela desistir dessa idéia ridícula de casamento.

-Por que ao invés de nos casarmos não fugimos pra África e criamos elefantes? Afinal, seus vestidos ainda são bonitos.


viernes, marzo 03, 2006

melodia

a chuva faz melodia na janela
e eu esquento o café sozinho.
as roupas vão ficar molhadas
penso, e sorrindo:
tomo o café já gelado
com um pouco de nojo.
o cheiro da chuva invade o quarto
mesmo com as janelas fechadas
e a luz do amanhecer é tão linda
e calma.
parece um filme antigo passando na janela
a luz brotando sorrindo,
o sorriso da mulher amada.