lunes, julio 30, 2007

Terno de Linho

Botei meu terno de linho, minha calça listrada, meu chapéu novo, meu sapato lustrado e saí para passear, mas não adianta, não é mais como era no meu tempo. As pessoas não agem como agiam no meu tempo, os lugares não são como eram no meu tempo, eu não consigo agir como agia no meu tempo. Nunca existiu um ‘meu tempo’ eu sempre fui um merda. Um merda em todos os tempos. Vinte anos atrás, era diferente...
Era diferente não, nunca foi diferente, o mundo gira na minha volta e eu esqueço de girar com ele, o mundo gira e eu faço força para ficar parado, meu terno sempre foi o mesmo terno.
Sabe, trinta anos atrás era realmente diferente, eu fiquei assim depois dos quarenta, eu convencia os outros sem nem me convencer, antes dos quarenta era o mesmo de sempre, uma força incrível para me afastar de todos, faço uma força incrível para lembrar-me de um tempo onde fui feliz, carrinhos, bonecos, camisinha, cerveja, não é isso que é para lembrar (Cláudia, malditas pernas...) perdia-me em meus pensamentos, sempre fui assim, sempre, sempre o mesmo perdido.
Quando você era jovem você era terrível! Dizia o Peixoto enquanto coçava as sobrancelhas, ele nem lembra do tempo em que éramos jovens, duvido que lembre de como ele falava ou sobre o que falava, ele vive, e apenas vive. Todos vivem e apenas vivem, mas eu não, eu me perco em pensamentos absurdos, me perco em músicas e cheiros, me perco nas malditas pernas da Cláudia...
Mas não é isso que é para lembrar, do que é para lembrar? Eu tomei os remédios antes de sair? Eu nem sequer saí ainda, eu acho, eu nunca tenho certeza, basta olhar para o lado e ver onde estou, mas minha casa não é mais como era antigamente, embora eu nem lembre de como ela era antigamente. Meu cunhado gordo e presunçoso coça sua barriga enquanto derruba cerveja no meu sofá, retardado, não controla as próprias mãos. Minha mulher oferece-nos um cafezinho, eu quero um café, acho que quero, gosto de café, sempre gostei, é uma das poucas coisas claras em meu pensamento, lembro-me de um tempo onde fui feliz, mamadeira, fantasias, poesia, poesia, minha mulher, (as malditas pernas da Cláudia) e os filhos. Odiava viver nesse tempo, mas tinha certeza que tinha sido feliz no passado.
Finalmente, em um momento de lucidez, decidi: Saí para rua com meu terno novo, mas antes lembrei de me despedir.
E olhando para os lados constatei que não havia mais ninguém além de mim em casa, lembrei de esquecer, de só um dia, esquecer de tomar meus remédios. Sempre se é mais feliz no passado.

jueves, julio 12, 2007

Pólen

Feito de pó e pólen
Só e somente o pó
Das flores do teu jardim
Quero as sementes
Pra te plantar somente em mim
O vento que desfolha as folhas
Quando desperta a pétala
Ao despertara despetalará