lunes, febrero 28, 2011

no amplo universo
onde se encontram os gestos
pequenos gestos são grandes
de fato
restos são restos.

lunes, febrero 07, 2011

Nunca

O último copo é o que dói mais. Esperar por uma noite que não chega, por alguém que nunca disse que viria. Ela se faz precisa toda enrolada em um edredom de abraços imaginários.

Não aguentava mais cigarros. Não aguentava mais. Os olhos vermelhos e cansados da noite que nunca chegava. E nunca acabaria, aquilo. As pessoas que não iam embora, aquilo. Pouco a pouco as pessoas indo embora e o momento chegando, aquilo. Isso: a esperança que sempre restava e o fazia acender mais um cigarro.


O cinzeiro verde musgo do lado da cama. A colcha verde a parede verde o pensamento verde os olhos pretos e a fumaça azul. Talvez cinza. Talvez verde. Talvez nunca. Nunca a barriga pra cima o corpo esticado reto sobre a cama, o corpo nu e esticado reto sobre a cama. Nunca o sono. Levantava pra ir até o banheiro, o chão gelado, o corpo quente. Quente nu e ereto. Sobre o chão, o chão de toda a casa: o mundo.

Ela se faz precisa toda enrolada em um edredom de abraços imaginários.

Um copo de água e um cigarro na sala. Talvez ligasse a tv, talvez abrisse a janela, talvez alguém tocasse a campainha, talvez alguém ligasse, talvez algum recado. Seria melhor não checar. Mas checava. Seria melhor não esperar, mas esperava. A noite que nunca chega. Os cigarros que nunca acabam e o sono que nunca vem.


Uma pilha de revistas. Várias pilhas de discos. Vários cadernos empilhados anotações espalhadas desenhos espalhados tintas espalhadas canetas espalhadas enormes instrumentos bloqueando a passagem de sonhos espalhados. Distração noturna era organizar tudo. Juntar o lixo, esvaziar os cinzeiros.

Voltar a cama seria perder tempo tão não precioso. Poderia tentar se distrair sozinho, se fazer sono, repetindo palavras incessantemente até a realidade se misturar com o sonho, até não entender. Não poder mais.

Mas seria perder tempo.


O corpo esticado reto sobre a cama, o corpo nu esticado reto sobre a cama. Não teria sono. Nunca. Poderia sonhar e seria atormentador. Como foi na noite passada, como tinha sido em todas as últimas noites. A única coisa que o fazia se sentir acompanhado, mesmo distante. SOZINHO. É uma palavra que de repente dói. E de repente conforta. E de repente amedronta. E de repente conforta.

Sozinho.

O corpo esticado reto sobre a cama. O corpo nu esticado reto sobre a cama.

O sono que não vem. A noite que não chega. Alguém que nunca virá.

O sono que não vem. A campainha que não toca. O telefone que não toca. O recado que não chega.

O cigarro que acaba.

O sonho que não quer que venha. Nunca.

Ela se faz precisa toda enrolada em um cobertor de abraços imaginários.

O abraço que não vai deixar de ser imaginário.

Nunca.

martes, febrero 01, 2011

como sempre

Fumava, como sempre, silencioso, na janela, como sempre. Como é mesmo o nome daquela música? Aquela que fica linda na voz da Céu? Tentava lembrar a letra.

(pois o teu samba tem mistério e é gostoso de sambar...)

Levantou e sentou na cama, do lado dela, ela sorriu. Ele também. Um sorriso contido, de canto de boca. Depois desviou o olhar, procurou algo pra fazer com as mãos, procurou algo pra fazer com as pernas, procurou algo pra fazer com o corpo todo. Pensou em deitar e puxar ela pra cima de si, ou pra baixo, ou pelo menos pro lado. Levantou e buscou um copo de água.

A noite tá bonita hoje. Dá vontade de sair e tomar cerveja, dançar samba.

Dá vontade de tomar vinho, dançar tango. Noite romântica. Noite argentina.

Tá quente demais pra vinho.

Tá quente demais pra qualquer coisa.

Tira a camisa.

Ele tirou. Sorriu e acendeu outro cigarro. Ela também, embora não quisesse fumar.

Põe uma música...

Ponho.

Botou a que ele queria escutar. Levantaram e dançaram. Rosto colado. Corpo colado. Suor. Perfumes misturados. Noite romântica. Noite argentina.

Embora não fosse tango.

Sentaram na cama, ele sorriu. Ela também. Sorriso contido. Corpo contido. Noite contida. Depois desviou o olhar.

Me alcança um cigarro?

Ela esperou que ele fizesse algo. Ele não fez.

Ela continuaria esperando, como sempre.