lunes, agosto 28, 2006

Harmonia

Foi a pouco custo e muito gosto, que comprara um sítiozinho pros lados da Serra, lá, bem afastado e gelado, com mata nativa de metros e metros de pinheiros, com um lugarzinho para plantar o que comia, e um laguinho. Rodeava isso tudo, o casebre que ficava bem no início, para sobrar bastante pátio. Casa modesta, porém aconchegante, com fogão-à-lenha para esquentar nos dias de frio mais rigorosos, com rede para deitar-se à pensar.
E deitado no pelego que servia de tapete à sala, rodeava os pensamentos a noite toda, e agora, ao amanhecer, ainda não havia conseguido pregar os olhos. Um candeeiro alumiava a sala larga e comprida, com biblioteca modesta, porém sincera. Cascas de pinhão pelo chão. E enrolava-se no pelego que servia ao mesmo tempo de tapete-cama-coberta, pois usava pouca roupa, e sempre usava pouca roupa. Quando usava. Escolhera aquela vida, aquela sala, por sim, deixando de lado o conforto da cidade para encontrar-se, mas por certo já havia, e por isso havia decidido deixar de lado o conforto da cidade. Dedicar-se apenas ao que lhe satisfazia. Dedicar-se a Harmonia que vinha de dentro para fora, e não de fora para dentro. Sem artifícios. Sem dores/prazeres/necessidades. E vivia feliz, a fabricar com barro a plantar a comer o essencial a escrever sob a luz do candeeiro, deitado na rede. Mas vinha a noite atormentá-lo. Não que tivesse medo do escuro ou do silêncio, talvez do silêncio... é que quando a crise criativa o assolava, sentia medo, medo como estava sentindo agora, rodeando os pensamentos, agora ao amanhecer, se é que já não havia amanhecido.
Era medo de sentir-se só, não fisicamente, pois isso já o era, e isso escolhera, mas de sentir que ninguém o compreendia, nem ele próprio compreendia-se, olhava-se no espelho e o espelho lhe refletia a própria alma: sozinha e vazia.
Pois então saiu a caminhar pelo pátio, desviando de árvores e animais que passavam por ali, deitando-se de vez em quando para ver se parava de doer-lhe as costas, levantando-se de novo, as vezes correndo as vezes caminhando as vezes gritando as vezes sussurrando. Foi-se até onde podia, e quando não agüentava mais, agüentou mais um pouco o caminho da volta. A cabeça doía e o corpo cansava. Rodeavam-lhe árvores falantes e cavalos voadores. A cabeça cansava e o corpo doía.
Já havia amanhecido há algumas boas horas, já fazia-lhe falta o café quente e amargo de costume, quem sabe a crise havia passado? – Ou não. Ou não havia crise?
Mas agora não sentia mais medo, acabou-se o silêncio, apagara o candeeiro. Apagara a solidão.
Não precisa de nada. Já não tinha mais frio, já não tinha mais fome, nem o café queria agora. Já não tinha mais nada. Não tinha. Não.

E encontrando enfim a Harmonia, a de dentro para fora, subiu ao penhasco mais alto que havia por ali, e atirou-se.

jueves, agosto 10, 2006

Volúpia

“Teu seio é vaga dourada/Ao tíbio clarão da lua/Que ao murmúrio das volúpias/Arqueja, palpita nua/Como é doce, em pensamento/Do teu colo no languor/Vogar, naufragar, perder-se/O Gondoleiro do amor!?”
Castro Alves


Queria eu, e queria com intensa e pulsante vontade, apalpar e acariciar e beijar e morder os seus seios. Queria vê-la, com os lindos redondos atraentes seios à mostra.
Sei que falo assim, com conotação erótica, e até um tanto vulgar, mas acredite, é por pura paixão, pura - puríssima - vontade. Vontade de rasgar, abrir, morder. A camisa, o sutiã, o seio.
Queria eu, e queria com intensa e pulsante vontade, derramar-me sobre o seu corpo, e não derramar-me sobre a sua vida - pois sobre sua vida já havia derramado-me - queria derramar-me ali, em cima dela. A devoraria com a mesma devoção com que a devorei antes, apenas com os olhos. Com mais devoção.
Aproveitaria com intensa paixão - e talvez um intenso egoísmo - o fato consumado. Rasgaria, abriria, morderia.
E gozaria o instante, antecessor ao gozo.