domingo, marzo 02, 2008

Luz


Daqui de onde eu tô só dá pra ver uma luz, branca, no meio da escuridão total, talvez seja luz de outro apartamento, talvez não. Em cima se acendeu outra luz, dessa vez com certeza, de um apartamento. Não dá pra ver nada, mas o que não vejo imagino:
Ela tá de calcinha sentada no sofá da sala, com apenas essa luz acesa, tomando um cálice de vinho e pensando. Por mais que imagine não consigo nem imaginar no que ela possa estar pensando. O sofá‚ verde, com uma capa branca, já amarelada. As paredes são todas brancas, uma televisão que vive desligada, um rádio no chão, discos espalhados, e só, isso é a sala. E claro, cortinas, cortinas azuladas, que não sei se são assim ou ficam assim pela luz, da casa, ou da rua. Agora se acende outra luz, do banheiro, aquelas janelinhas pequenas. E se apaga. Deve ter ido lavar as mãos, ou algo assim, sem importância. A primeira luz se apaga, se acende uma segunda, em uma peça do lado do banheiro, deve ser um quarto, imagino, as mesmas cortinas azuladas. Será que ela foi dormir? Parei de observar por um tempo, busquei água, acendi um cigarro, pensei em dormir, voltei pra onde estava, a luz do banheiro se acendeu: uma esperança.
Tento raciocinar:
Ela foi até‚ o quarto, botou uma camisola, afinal, tem um ventinho soprando, foi ao banheiro escovar os dentes, agora apaga a luz do quarto e vai dormir, simples.
A luz do banheiro se apagou, o que prova que meu raciocínio foi pelo caminho certo, a primeira luz se acendeu, o que prova que foi pelo errado, mas talvez tenha esquecido algo na sala. Dou uma tragada funda, apago o cigarro, vou ao banheiro, sento, e olho. A luz do quarto apagou, realmente, ela tem insônia, brigou com o namorado, tá pensando em ligar pra ele, mas já é tarde, tá se sentindo sozinha e não consegue dormir sozinha, tá com muito frio, mas cobertor nenhum ajuda. Acende uma quarta luz, do outro lado da luz da sala, deve ser cozinha. Ela se levantou e foi fazer chá , chá bem quente pra espantar os pensamentos. Ele não te merece, querida, não te merece. Se ele soubesse como é lindo te imaginar assim, de camisola fazendo chá na madrugada, não te deixaria sozinha.

De repente alguém grita, um homem apanha de outro três homens, ou mais, ele grita: Por favor. Mas ninguém tem misericórdia. Dois tiros surdos, um grito ecoa na madrugada. Apenas nós dois ouvimos, eu e ela. Nos unimos por uma tragédia anônima, algo que acontece todos os dias e que ninguém nota porque todos dormem.
Agora as luzes da casa dela apagaram, sobrou apenas uma luz branca, uma luz anônima, no meio da escuridão total. Então apago minha luz também. E me preparo pra dormir.

1 comentario:

Jo k dijo...

fantástico!
essa é a palavra.


e alguém pode transformar essas tragédias da vida?


(eu sou um vendido, voltei pra essa joça.. ehehehe)

abração!