sábado, junio 23, 2007

Desejar

Procuras no meio de tuas pernas de santa o teu desejo de puta. São quatro da manhã e tu aí, procurando na TV, e entrando cada vez mais fundo, enquanto o pastor exorciza e a moça rebola, acaricia com movimentos circulares todo o teu stress diário, pois ele é teu, e dás a ele o nome que quiseres.
Uma vida inteira dedicada a ele, e ai, o que ganhaste em troca? Dizem aqui que com a vizinha, dizem ali que com a colega de serviço, e tu? Que nem chegaste a ter um serviço, para que cuidasse com que ele sempre tivesse o que comer quando chegasse cansado da firma, e tu? Que mesmo sem a mínima vontade, e às vezes até com nojo, abria tuas pernas para ele deitar o corpo de macho suado com cheiro de cerveja-escritório-tabaco-trânsito, e tu? Que ficaste em casa criando três filhos sem nunca abrir a boca para reclamar de nada, pros filhos-da-puta-ingratos virem a tua casa uma vez a cada três meses, mas pergunta-te em silêncio, e daí? Pois nunca gostaste mesmo dessas crianças com a cara do pai, todos retardados como ele, mas tu, sempre tu, benévola e amorosa por trinta anos, sorriu e disse que amava.
E tu? O que ganhaste em troca? Agora velha, esquecida e com cheiro de mofo, três meses depois de pedir o divórcio, trabalhando como secretária para um qualquer.
Madrugada de Domingo, quase na hora de acordar, e tu aí, o dedo cada vez mais fundo, e então decidiste:
Amanhã não vai ser no meio de tuas pernas e sim nas do encanador, quem sabe, jardineiro, quem sabe, dentista, que procurarás teu desejo de puta, pois é só isso que te sobrou velha, esquecida, com cheiro de mofo:

lunes, junio 11, 2007

Sobre uma tarde chuvosa.

“amoras silvestres no passeio público
amores secretos debaixo dos guarda-chuvas”
Minha Casa: Zeca Baleiro


Dentro da loja de conveniências, fumando, distraidamente, ele lia Maiakóviski. A chuva caía fininha lá fora, cortante. Pessoas passavam apressadas, umas completamente molhadas, umas com seus guarda-chuvas imensos. O vendedor de jornal na sua capa amarela congelava. Lá dentro ele se sentia confortável, e como a chuva aumentava gradativamente, gradativamente se sentia mais confortável. E não via o porque sair lá de dentro.
O ônibus freiou molhando todos os que estavam na parada. Ela desceu do ônibus e uma gota caiu em seu cabelo, ela secou com a mão, mas sabia que logo que saísse da parada ficaria totalmente molhada. Botou o capuz do seu casaco, dobrou a calça jeans, suspirou três vezes e atravessou a rua.
Deu a última tragada em seu cigarro e olhou para fora, a viu tentando atravessar a rua, mas tinham muitos carros, e muitas poças.
Ela cruzou os braços na altura do peito, depois tirou o capuz, balançou o cabelo molhado e botou novamente o capuz, cruzou os braços o mais rápido que pode. E então atravessou.
Ele saiu da loja de conveniência e abriu o guarda-chuva. Ela passou do lado dele e sorriu. Cabelos molhados são bonitos, ele disse. Ela fingiu que não ouviu. Quer uma carona? Ele perguntou. E porque não? Ela pensou, e disse também.

- Não tá com frio?
- Eu tô indo na casa do meu namorado, é naquele prédio azul.
- Meu vizinho.

...

- Não nos conhecemos ainda, é estranho, porque, praticamente moro aqui, então, teoricamente somos vizinhos...
- Prazer, Vitor
- Prazer Vitor.

...

- Tem um terreno baldio ali, vamos desviar. Tem lama.
- E uma amoreira. Não quer?
- Amoras não combinam com chuva.
- As silvestres combinam.

...

- Me beija.
- Não é preciso.


Eles não se viam mais. Não em realidade. Encontravam-se às vezes em sonhos. Quando se viam por aí, passeando com o namorado ou o cachorro, cumprimentavam-se de longe, só por educação.
O que será que ele está pensando sobre...? Pensavam os dois.

viernes, junio 01, 2007

Então tá.

- Alô? Oi, eu tô pintando, e lendo aquele livro de poesias, aquele que eu fui buscar, e lembrei de ti. Eu queria fumar, mas não posso. Posso, mas não necessariamente quero. É que eu tô no meu quarto, sabe, tá uma bagunça imensa isso aqui, é, não dá pra viver num lugar assim, sabe, tem tinta e tela e pincel e folha. Tudo espalhado pelo chão. Aquele verde bonito que tu me deu? Tá, tá aqui sim. Vou acender um cigarro e fazer um chá. Eu nem sei o que quero? É, só vou fazer um chá. Gosto dos cheiros doces e dos gostos amargos. Pode, pode morder minha boca até sangrar. Gosto de tudo que é Acre. Talvez só tenha vergonha. Botei essência de lavanda pelo meu quarto, porque eu sei que disse que não, mas eu acendi um cigarro, mas já apaguei. Joguei pela janela. No canteiro do vizinho. As plantas precisam de cinza, sabia? Não só as plantas, “A cinza é mais digna...” aquela história toda. Gosto do gosto do espesso, da sensação do amargo. É, eu sei eu inverti, sempre faço isso. Tá frio né? Quer vir aqui, quem sabe? O chá? Não, não é de Jasmim, gostos amargos, lembra? É chá preto, eu sei, nem é tão amargo assim. Mas eu gosto. Me engana. Deixa eu te ler um pedaço, olha é curtinho: “Tantos poemas que perdi. Tantos que ouvi, de graça, pelo telefone – taí, eu fiz tudo pra você gostar...” Começa assim, depois tem mais um monte de coisas, é lindo, tu ia gostar. É daquela poeta que te falei. Acho que a água do chá ferveu...se isso foi um tchau? Não era.
Mas então tá,
Tchau.