martes, diciembre 25, 2007

artificial


a
noite
vem
montada
de
branco
na
luz
artificial
do
estacionamento
ao
lado
queria nela contigo:
um pouco de tinta
na tela, e um pouco
em ti.

domingo, diciembre 09, 2007

Paredes Amarelas

Incrível como a vida pode ser vazia. Tá tudo tão branco aqui em volta. Nem azul claro nem nada. Sentada na frente do computador, nem um recado, nem um sorriso, nada pisca, nada de novo. Eu queria ler aquele livro que eu tanto gosto, mas a verdade é que eu nem gosto mais de ler. Aí me dá vontade de escrever um poeminha, daqueles que nem eu entendo direito, que é meio que uma história, mas sem seqüência lógica inicial maiúscula ou ponto final. Mas a verdade é que não tenho vontade de escrever. Então acendo outro cigarro, e ai, querida, isso é tão, mas tão clichê. A porra do meu chá já tá gelado e não faz mal porque eu acho o gosto horrível de qualquer jeito, mas dizem que emagrece então eu tomo porque é melhor tomar essa coisa horrível do que fazer mais uma daquelas dietas malucas e morrer de inanição. Pelo menos esse mês, mês que vem penso de novo. Então eu pego o celular e fico olhando nome por nome numa saudade imensa de todo mundo e numa vontade quase incontrolável, que a timidez sempre controla, de ligar pra alguém e dizer:
Oi, é madrugada de quinta, tô aqui sozinha, pode vir aqui com novidades ou uma lata de tinta amarela? Obrigada, venha de táxi.

lunes, octubre 29, 2007

marinheiro só

enraizado sentado há três meses no mesmo sofá pernas de iroko apaoka akoko sem sexo empoeirado olhando pro nada.
saudade o tempo todo só sente saudade como se mais nada no mundo fosse além de saudade.
desespero também porque não porque se entre um gole e outro de café ou de bebida quem sabe até água um trago no cigarro lembra lembra lembra e chora.
choro que desce calmo arrastado quente como o último gole do último copo de uísque.
salgado como o mar as rosas que ele joga e pede pede yèyé omo ejá também sou peixe aceite por favor aceite.
sem vírgula sem tempo rápido rápido como o galope no cavalo de são jorge santo guerreiro. que vai além mar pra onde ela foi.
e de lá não volta mais.

miércoles, octubre 10, 2007


...e cada vez suando mais, encharcada no seu próprio líquido, um líquido tão seu, que ela já sabia de cor, o gosto, o cheiro, a sensação, um líquido tão seu que por um segundo a fez pensar que era a única coisa que tinha e conhecia perfeitamente: e mesmo conhecendo perfeitamente queria conhecer cada vez mais: tudo agora é líquido e inunda: a mão molhada descendo e apertando cada vez mais as coxas e encontrando o sexo: o suspiro. A sensação de se conhecer cada vez mais era tão grande, meio canibal até, que ela queria tanto, se pudesse, morder a sua boca e arrancar um pedaço e fazer doer e fazer sangrar e fazer jorrar sangue vermelho como o batom e beijar beijar beijar até borrar o seu batom e borrar o seu pescoço e inundar tudo em sangue tão vermelho, tão vermelho que mancharia rosas brancas.

jueves, julio 12, 2007

Pólen

Feito de pó e pólen
Só e somente o pó
Das flores do teu jardim
Quero as sementes
Pra te plantar somente em mim
O vento que desfolha as folhas
Quando desperta a pétala
Ao despertara despetalará

viernes, junio 01, 2007

Então tá.

- Alô? Oi, eu tô pintando, e lendo aquele livro de poesias, aquele que eu fui buscar, e lembrei de ti. Eu queria fumar, mas não posso. Posso, mas não necessariamente quero. É que eu tô no meu quarto, sabe, tá uma bagunça imensa isso aqui, é, não dá pra viver num lugar assim, sabe, tem tinta e tela e pincel e folha. Tudo espalhado pelo chão. Aquele verde bonito que tu me deu? Tá, tá aqui sim. Vou acender um cigarro e fazer um chá. Eu nem sei o que quero? É, só vou fazer um chá. Gosto dos cheiros doces e dos gostos amargos. Pode, pode morder minha boca até sangrar. Gosto de tudo que é Acre. Talvez só tenha vergonha. Botei essência de lavanda pelo meu quarto, porque eu sei que disse que não, mas eu acendi um cigarro, mas já apaguei. Joguei pela janela. No canteiro do vizinho. As plantas precisam de cinza, sabia? Não só as plantas, “A cinza é mais digna...” aquela história toda. Gosto do gosto do espesso, da sensação do amargo. É, eu sei eu inverti, sempre faço isso. Tá frio né? Quer vir aqui, quem sabe? O chá? Não, não é de Jasmim, gostos amargos, lembra? É chá preto, eu sei, nem é tão amargo assim. Mas eu gosto. Me engana. Deixa eu te ler um pedaço, olha é curtinho: “Tantos poemas que perdi. Tantos que ouvi, de graça, pelo telefone – taí, eu fiz tudo pra você gostar...” Começa assim, depois tem mais um monte de coisas, é lindo, tu ia gostar. É daquela poeta que te falei. Acho que a água do chá ferveu...se isso foi um tchau? Não era.
Mas então tá,
Tchau.

martes, mayo 01, 2007

Água

Acordo sobressaltado, olho o relógio: início de madrugada. Vou até a cozinha, abro a geladeira, um copo de água gelada. O clima está agradável e vou até a janela. De repente o grito. O estrondo. O sangue espalhado.
Eu bebia água na janela da cozinha no mesmo instante em que o meu vizinho do quinto andar suicidava-se. Suicidava-se? Tudo indica. Mas o mais correto seria: bebo água na janela da cozinha no mesmo instante em que o meu vizinho do quinto andar caía pela sua janela. Fração de segundos.
Os vizinhos acordados assustaram-se com o barulho - eu estava sentindo nojo daquele corpo estendido, mas não podia parar de olhar – os vizinhos acordados vieram ver o que aconteceu – da minha janela eu enxergava a cabeça que foi esmagada pela laje, enxergava a cabeça aberta e resíduos espalhados e sentia nojo – os vizinhos acordados chamaram uma ambulância. Não conseguia mais beber água, a náusea era absurda. Minha cabeça doía, meu estômago se contorcia. Não sentia mais meus músculos abdominais, mas não podia parar de olhar. Sentia dor e sentia nojo. Mas não podia parar de olhar.
Alguns minutos depois a ambulância chegou. Recolheu o corpo e levou embora. Alguém jogou água pela laje do pátio do condomínio.
Então eu voltei a dormir.

martes, marzo 20, 2007

Então ele disse mais ou menos isso:

Gosto de ti assim mesmo. Desse jeito. E então eu quis dizer que não. Que ele não gosta. Que assim como eu ele queria que fosse diferente. Mas por educação e gentileza, ele insistia em dizer que gostava de mim assim mesmo. Desse jeito.
Mas não disse nada. Me limitei a olhar bem nos olhos dele – verde/mato/esmeralda – e sorrir. Vinho? Me alcança um cigarro? Obrigado. Pega, pega o cálice. Pode largar as cinzas aí mesmo. Nessa fotografia. – moço de cabelos encaracolados sorrindo bermuda chinelo e sem camisa – Quer ligar a TV? Pôr uma música, quem sabe? Caetano, Janis Joplin, Belle and Sebastian, Cartola.
-
Qual camisa? Branca, Verde, Preta – atrai energias demais – Azul? Azul e branco, dia de Iemanjá. Calça Jeans desbotada. Tênis branco. Perfume. Dentes escovados. Essência de Lavanda pela casa. Vela azul na cabeceira do quarto. Plantas regadas.
-
Ele me disse pra que esperasse. Ia tomar um banho, daqui a pouco as pessoas estariam batendo na campainha. Que já que eu tinha vindo mais cedo que tirasse logo esses tênis e ficasse a vontade. – a casa é sua – E eu disse que ia lhe dar uma Esmeralda de presente. Pra afastar os maus espíritos. Ele riu e tirou a camisa. Desabotoou o botão da bermuda. Pegou uma toalha e botou no ombro suado. Afastou os cabelos ruivos encaracolados dos olhos – seria ele na foto? Quis ir junto com ele pro banho. Mas acendi outro cigarro.
-
Uma cerveja. Um computador. Recados. Pessoas. Sorrisos. Cheiros. Sem cheiros. Por isso não tem tanta graça. Saudade. Cinza caindo no chão, cheiro de cigarro no quarto, coração apertado. Cadê a empolgação? Vamos te anima! Cara importante. Casa bonita. Mais uma cerveja. As chaves de casa. Mais uma vela.
Que não me falte a coragem.

O imaginava no banho. O corpo molhado. Os cabelos cheios de espuma. A água quente enchendo o banheiro de fumaça, meu cigarro enchendo a sala de fumaça. Me levanto e vou até a mesinha de centro largar as cinzas na foto e pegar mais um pouco de vinho. Girando o corpo pela sala me sinto tonto. E tomo um gole de vinho. Girando na ponta dos pés pela sala dele me sinto tranqüilo. Calor. Abro os vidros da janela, tiro a camisa. Caio no tapete de costas. Deitado de costas no tapete e sem camisa sinto mais calor ainda. Desejo. Medo. E então, de repente, a vergonha.

Alterius;festum solum invitatus adibis

Ele sai do banho e a campainha toca. Pede pra que eu atenda. Eu atendo. Oi, entra, Ah sim, ele tá no banho, senta no sofá, querida. Oi? Ah sim, pode pegar ali no maço, tá em cima da mesa, eu acho, pega um pouquinho de vinho. – loira vinte anos no máximo calça coladíssima. – Mais campainha. A loira sorri. Eu levanto e atendo a porta novamente. Ele tá se arrumando, saiu do banho agora, claro, pode beber do meu cálice sim. A música? É Cartola. Deprê? Mas é tão lindo. A loira sorri. Sentam-se um do lado do outro. Eu sento no chão e com as cinzas do meu cigarro escrevo o nome dele. Na verdade apenas tento escrever o nome dele, porque obviamente, nunca conseguiria. Mas eu me distraio enquanto espero ele se arrumar. E ele demora. Quando sai, sai secando os cabelos ruivos, barba feita, cheiro de colônia. Pinho. Só de bermuda e chinelos. Eu me levanto, acho que por impulso. Começo a dançar sozinho, ele me puxa. O vinho talvez esteja fazendo efeito. O rapaz senta onde eu estava. A sala se enche de fumaça. O rapaz tira a bermuda. A loira tira a blusa. Ele me derruba no carpete e me beija - vinho maconha pasta-de-dente - A loira sorri. A loira só sorri. O rapaz chega perto põe a mão embaixo da minha camiseta desabotoa a minha bermuda. Desabotoa a dele. Desabotoa a calça da loira. Lindíssima cena. Seria muito pornográfico se não tivesse Cartola ao fundo. Então é tudo tão romântico. Me sinto mais um no harém dele. Quando falou em convidados não imaginei que fosse assim...não que seja ruim, só que. Eu esperava outro tipo de. Pessoa. Festa. Coisa. Toque. Cheiro. Esperava.
E então de repente eu levanto. Desligo o som. Puxo ele e levo pro banheiro. E choro. E entre o choro eu digo que só queria que ele soubesse que não era sempre assim, que tinha gostado mesmo dele, e que não estava me sentindo muito bem, eu iria embora nesse momento e deixava os três a sós, e que pediria desculpas formais com um buquê de flores outro dia, ou que, o mais provável, nunca mais o procurasse.

Um banho de mar. Um banho de cachoeira.

Então ele disse mais ou menos isso: Gosto de ti assim mesmo. E me abraçou. E eu sorri. E deitei a cabeça no ombro dele. E me beijou com suavidade. E ligou o chuveiro. Abraçados dentro da água éramos um só. Éramos um corpo onde caía água quente e espuma.
Levanto a cabeça e o olho nos olhos. Conscientemente, me perco nas matas de Oxóssi.

miércoles, marzo 14, 2007

Vinte e Quatro

Uma poltrona bege. Uma almofada verde musgo. Um cigarro na ponta dos dedos e um copo de Uísque quase sem gelo. Um gato cinza.
E era assim que ela passava a maioria das noites. Sentada na poltrona fumando e observando o mundo pela janela do seu apartamento. Samambaias e Orquídeas espalhadas. Uma televisão que não funcionava mais. Um aparelho de som e alguns poucos discos.
E se levantava, ela levantava apenas para ir até a cozinha pegar mais alguma coisa e voltar. Ou para ir até o banheiro lavar o rosto ou molhar os pés na banheira azul. Se olhar no espelho ou lavar os óculos. Compulsivamente.
E pensava na vida, pensando no que poderia fazer, o que fez e o que está fazendo. Não sentia saudade do passado, não tinha pressa do futuro e sentia um tédio mortal do presente. Mortal e Enjoativo. Como café requentado em um dia cinza claro.

lunes, marzo 05, 2007

Jasmim

São seis da manhã e eu não consigo descansar. Preciso tomar um banho. Estou suado e não consigo descansar. Minha mente gira. Gira por lembranças e projeções. Então eu deito e não consigo. Então eu desisto de deitar. Daqui a pouco vou tentar de novo. Mas antes eu preciso de um banho para limpar o suor. Um banho quente. Por mais que faça muito calor na rua, eu preciso de um banho quente. Preciso deixar a água quente bater no meu corpo por minutos que parecem horas. Preciso deixar a água me relaxar. Eu sinto saudade. Sinto falta da tua presença. Por mais que nunca tenha tido tua presença, sinto falta. Sinto falta de conversar contigo. Porque eu gosto de conversar contigo. Não importo o assunto. Não é o que a gente conversa que me atrai, e sim como a gente conversa. Gosto de como a gente conversa. E sinto falta disso. São seis horas da manhã e eu não consigo dormir porque estou sentindo falta de como a gente conversa. E porque estou com calor. Por mais que a janela esteja aberta e a temperatura na rua esteja muito agradável. Aqui dentro tá calor. Aqui dentro É calor. Dentro do quarto. E de mim. Na verdade aqui dentro é desagradável. É frio quando se falta coberta. E quente quando faltam ventiladores. É desagradável. É um pontinho preto, que sobe, da boca do estômago até o peito. E ali ele dói, é quente e é frio.
Agora eu queria ir pro meio do mato. Ir pra serra. Agora eu queria o cheiro de uma pousada. E um chá inglês de morango – que eu nunca encontro pra vender – antes de dormir. E uma torta de mousse de limão com café bem quente e forte quando acordo. Antes de sair pra caminhar pelos morros. E pelas cachoeiras. Sozinho e descalço. E eu queria que tu tivesse comigo. Pra provar o chá e a torta e o café e o morro e a cachoeira e sentir o mesmo chão e o mesmo sentimento e depois a mesma saudade que eu sinto. Eu queria ir pra Três Coroas passar um tempo no Templo. E não importa o tempo do tempo. Quero ver o pôr do sol em Três Coroas. Sentado na estátua de Shiva. E queria que tu tivesse aqui pra me agradecer por te levar a um lugar bonito e te fazer feliz. Sim, o tempo todo tudo o que eu quero é te fazer feliz e ainda ser agradecido por isso. O tempo todo. Sempre foi egoísmo.
São seis da manhã e eu não consigo descansar. Estou com saudade. E preciso tomar um banho quente e botar um perfume doce que me lembra Jasmim. Estou com saudade. Preciso tanto cheirar a Jasmim quanto precisava escrever.
Estou com saudade.

jueves, enero 25, 2007

A Borboleta

Queria chorar. Não por tristeza ou por dor. Nem por raiva ou nervosismo. É como se uma coisa aqui dentro doesse porque é predestinada a doer. Chega uma hora que tu pára e pensa: nada daqui para frente me parece interessante, e o que me parecia interessante antes, já não me parece mais. Então apenas o que resta é passar um café. E tomá-lo olhando a rua.

Hoje eu não vou escrever sobre cafés. E nem sobre cigarros. E nem sobre pessoas tristes sem nome, sem rosto e sem expressão. Perdidas em pensamentos turvos. E nem sobre coisas quebradas. Não falo da chuva – nem do cheiro da chuva - não tentarei descrever o pôr-do-sol. Não usarei a palavra Crepúsculo. Hoje não farei textos sobre a Angústia.

Hoje eu vou falar sobre uma borboleta: uma borboleta que entrou no meu quarto. Tinha as asas de um verde bonito. E me lembrava alguém.

Então a borboleta saiu pela janela aberta. Voou para longe. E eu nunca mais a vi.

viernes, enero 05, 2007

Cenas Não Tão Cotidianas

04:47
Está frio na rua –fumo sentado no parapeito da janela- meu peito nu encontra a brisa gelada da madrugada. Aviões cruzam meu céu. Sirenes. Cristais.

Ponto de Ônibus
Ela passou por mim e tossiu.
E isso não fez sentido algum.

Diálogos I
- Ela é uma piranha, entende? Uma piranha.
- Sua voz ecoa como uma Cítara. Toco seu corpo como se fosse tocar levemente na pele de um Derbake. Faço música com seu corpo. Sinfonia inacabada em uma noite de luar.
- Porque mantém algo com ela se é a mim que queres?
- Morro com seu sorriso, assim como nasci com seu talvez.

Minha puta de quarta-feira
Um dia de Outono em que a gente sente o silêncio, sente as folhas caindo no chão, sente o azul do dia encontrando o escuro da noite e formando o degradée, que por sua vez forma o crepúsculo. Sente a mão passeando pelos cabelos – ou deseja tanto que imagina sentir a mão passeando pelos cabelos – como se sentíssemos uma música ao fundo – violinos – ficamos os dois em silêncio a sentir, e apenas sentir.


Diálogos II
- Tu nem sabes o que quer!
- Quero pegar-te pelo braço, jogar-te dentro de um carro e fugir para as montanhas o mais rápido possível.
- E porque não faz isso?
- Tu nunca gostou de montanhas.

Presença-não-Presença
Incrível como sua presença me faz bem, não física, presença-não-presença. Pois se estou sentado a essa hora escrevendo é para ti e apenas para ti. Cada texto que produzo é teu e apenas teu. Tento me convencer de que isso é besteira, de que no fundo produzo mais para mim do que para qualquer outra coisa, ou pessoa, ou coisa, que na verdade o texto pertence mesmo ao mundo e que daqui a pouco esqueci quem era o ti a quem pertenciam as palavras. Mas sei que passe o tempo que for, te reconhecerei nesta palavra e naquela linha.

Ameixas
E então ele me olhou e disse: Nada mais sensual do que uma Ameixa absolutamente madura.