martes, diciembre 25, 2007

artificial


a
noite
vem
montada
de
branco
na
luz
artificial
do
estacionamento
ao
lado
queria nela contigo:
um pouco de tinta
na tela, e um pouco
em ti.

domingo, diciembre 09, 2007

Paredes Amarelas

Incrível como a vida pode ser vazia. Tá tudo tão branco aqui em volta. Nem azul claro nem nada. Sentada na frente do computador, nem um recado, nem um sorriso, nada pisca, nada de novo. Eu queria ler aquele livro que eu tanto gosto, mas a verdade é que eu nem gosto mais de ler. Aí me dá vontade de escrever um poeminha, daqueles que nem eu entendo direito, que é meio que uma história, mas sem seqüência lógica inicial maiúscula ou ponto final. Mas a verdade é que não tenho vontade de escrever. Então acendo outro cigarro, e ai, querida, isso é tão, mas tão clichê. A porra do meu chá já tá gelado e não faz mal porque eu acho o gosto horrível de qualquer jeito, mas dizem que emagrece então eu tomo porque é melhor tomar essa coisa horrível do que fazer mais uma daquelas dietas malucas e morrer de inanição. Pelo menos esse mês, mês que vem penso de novo. Então eu pego o celular e fico olhando nome por nome numa saudade imensa de todo mundo e numa vontade quase incontrolável, que a timidez sempre controla, de ligar pra alguém e dizer:
Oi, é madrugada de quinta, tô aqui sozinha, pode vir aqui com novidades ou uma lata de tinta amarela? Obrigada, venha de táxi.

viernes, noviembre 30, 2007

Foda-se.

A expressão retumbante escrita à batom vermelho no espelho do banheiro da suíte. O vestido vermelho saiu pela porta, não deu tempo de pedir desculpas. Os lençóis, a camisa jogada no chão, o resto de peru, a champanha, a noite de natal, tudo era vermelho.
E ele que sempre gostou muito mais de verde. Ou azul. Ou branco, podia ser ano novo ao menos, ano novo, vida nova.
- Porque você fez isso, meu amor? Porque?
- Foda-se.
O tapa, o sangue escorrendo da boca dela. O vestido vermelho saindo porta afora.
A expressão que pulou da boca dele pro espelho.

martes, noviembre 27, 2007

Pele com pele



Quero ver-te suando
Em cima de mim,
Pele com pele.
O beijo calmo, quente
Arrastado...
O sorriso enigmático
O olhar dissimulado
O toque.
Pele com pele

lunes, octubre 29, 2007

marinheiro só

enraizado sentado há três meses no mesmo sofá pernas de iroko apaoka akoko sem sexo empoeirado olhando pro nada.
saudade o tempo todo só sente saudade como se mais nada no mundo fosse além de saudade.
desespero também porque não porque se entre um gole e outro de café ou de bebida quem sabe até água um trago no cigarro lembra lembra lembra e chora.
choro que desce calmo arrastado quente como o último gole do último copo de uísque.
salgado como o mar as rosas que ele joga e pede pede yèyé omo ejá também sou peixe aceite por favor aceite.
sem vírgula sem tempo rápido rápido como o galope no cavalo de são jorge santo guerreiro. que vai além mar pra onde ela foi.
e de lá não volta mais.

miércoles, octubre 17, 2007

Talvez

Deixou tocar duas, três vezes, abaixou o volume, acendeu um cigarro e atendeu.
- Alô? Oi, tudo bem? Que tá fazendo?
- Nada.
- Nada mesmo?
- Assistindo uns Dvds, fumando um cigarro, bebendo alguma coisa, falando ao telefone. É, nada.
- Eu posso passar aí? Não vou atrapalhar?
- Não sei.
- Posso?
- Se fizer questão.
- Então tá, tô passando aí, levo algo? Quer algo?
- Não.
- Tô indo, um beijo, até daqui a pouco, tchau...
- ...
Desligou o telefone, aumentou o volume, apagou o cigarro no cinzeiro, amassou e juntou com o mar de cinzas que fazem um contraste tão bonito com o verde musgo. Ela ia demorar um pouco ainda, se morasse no mesmo lugar que morava antigamente, tirou a camisa, a calça, a cueca e as meias, fez sete abdominais, acendeu um cigarro pra recuperar o fôlego, oscilou entre mais um copo de vodka com refrigerante ou uma cerveja, abriu uma cerveja e entrou no banheiro. Jogou o cigarro pela janelinha de vidro pintada de verde e entrou no banho.

Deixou tocar duas, três vezes, abaixou o volume, acendeu um cigarro e atendeu.
Ela entrou apressada, largou a bolsa correndo no sofá, sentou, serviu um copo de vodka, desprezou o refrigerante, aumentou o volume da televisão e finalmente olhou pra ele.
- Oi?
- Oi.
- É isso que tu faz todo Sábado?
- É Terça-feira.
- Terça, Sábado, Domingo, tanto faz, tu não trabalha.
- Eu sou artista.
- Ou seja, não trabalha.
- Tu veio até aqui pra isso?
- Não, não, eu vim porque sinto saudade. Tava me sentindo tão sozinha, tão sozinha, aí lembrei de ti.
- Tava te sentindo ou tava sozinha? Ou tava sozinha e te sentindo ao mesmo tempo? As vezes me sinto sozinho mesmo com pessoas no meu apartamento. É bom ficar sozinho as vezes, sabia?
- Tava e me sentia ao mesmo tempo. Eu não gosto de ficar sozinha.
- Não gosta de ficar ou não gosta de se sentir? Eu gosto de me sentir e gosto de ficar. Tava me sentindo sozinho antes de tu chegar, sabe, e tava muito bem.
- Antigamente tu era mais simpático (ela sorriu) me dá um cigarro?
- Não. Eu tô parando de fumar, e tu também deveria.
- Mas tu tava fumando quando eu cheguei...e é, eu tô parando, então não compro mais cigarros, mas...eu tô bebendo e contigo, e quero um cigarro, por favor?
- Tem ali no maço, do teu lado, embaixo da segunda poltrona à esquerda da mancha de café mais escura.
- Sério?
- É claro que não, tá no meu bolso. Mas o isqueiro eu sei lá onde tá, joguei por aí, algum lugar.
- Senta aqui, me dá um abraço...
- Não. Vou pegar mais uma cerveja, quer? Tu tá bêbada mesmo, bêbada desde que chegou, não costumava ficar assim, mas não vai fazer mais mal misturar mesmo.
- Não, não quero. Quero que tu sente aqui e me abrace.
Ele foi até a cozinha, pegou mais uma cerveja e sentou no sofá. Com o dedo brincava nas cinzas e pensava em como é bonito o contraste que elas fazem com o verde musgo do cinzeiro. Não olhava pra ela.
Ela o abraçou.
- Então é isso? Assim? passam anos e anos e então de repente tu fica bêbada, te sente sozinha, lembra que eu existo e decide me ver? Não te sentiu sozinha outras vezes esses anos todos? E o que fez, ligou pros outros que vieram antes de mim? Aí agora chegou minha vez, é isso?
- Nem tudo tem uma ordem cronológica, meu bem.
- Foda-se.
- Tu quer saber? É, é assim, de repente depois de todo esse tempo eu fiquei bêbada, me senti sozinha e decidi te ver. Mas não, eu nunca me esqueci de ti, porque esqueceria? Tudo pra ti é um escarcéu.
- Tudo pra mim é fácil, muito fácil. Eu tava esse tempo todo na tua estante, aí resolveu vir tirar o pó. Acha que eu passei a vida toda te esperando?
- Não vim tirar o pó, vim ver como tu tava, te abraçar, porra, tu nunca sentiu saudade?
- Não.
- A diferença é que eu não finjo.
- Nem orgasmo? Nem compaixão? Nem sono ou febre ou cansaço? Nem simpatia? Todos fingimos, o tempo todo. Olha...se tu quer me beijar, tirar a roupa, fazer sexo casual, encher a cara e me usar a noite toda, foda-se. Só faz isso rápido que eu quero terminar essa vodka e esse maço de cigarros antes das três, superstição, sabe.
- Tu sempre gostou de ser usado, e reclama de “ficar na minha estante” e blá-blá-blá, como se tudo isso fosse verdade. Não, não quero sexo nem porra nenhuma. Só queria te ver, mas quer saber? Eu não perdi nada esses anos todos como achava, tu continua igual. Um beijo viu, boa noite, te cuida.
Abaixou o volume da televisão, acendeu mais um cigarro e abriu a porta: Talvez eu tenha passado.
- O que?
- Nada, vai lá.
E ela saiu sem olhar pra trás. Sem dar tempo de ouvir que talvez, talvez ele tenha passado a vida inteira esperando por ela. Talvez.

miércoles, octubre 10, 2007


...e cada vez suando mais, encharcada no seu próprio líquido, um líquido tão seu, que ela já sabia de cor, o gosto, o cheiro, a sensação, um líquido tão seu que por um segundo a fez pensar que era a única coisa que tinha e conhecia perfeitamente: e mesmo conhecendo perfeitamente queria conhecer cada vez mais: tudo agora é líquido e inunda: a mão molhada descendo e apertando cada vez mais as coxas e encontrando o sexo: o suspiro. A sensação de se conhecer cada vez mais era tão grande, meio canibal até, que ela queria tanto, se pudesse, morder a sua boca e arrancar um pedaço e fazer doer e fazer sangrar e fazer jorrar sangue vermelho como o batom e beijar beijar beijar até borrar o seu batom e borrar o seu pescoço e inundar tudo em sangue tão vermelho, tão vermelho que mancharia rosas brancas.

martes, septiembre 18, 2007

Chocolate

Já tomou banho de arruda e sal grosso. Deixou rosa na encruzilhada. Pediu conselho pro Preto Velho. Já pendurou Santo Antônio de cabeça pra baixo. Implorou à Nossa Senhora. Rezou dez terços e até agora nada. Martha com trinta, formada, solteira e sem filho. Viciada em chocolate, cansada, porém, trabalhadora, esperançosa, gentil, simpática, amiga, conselheira.
E agora dançava como se não houvesse ninguém em volta, no corredor do ônibus cheio, poça de suor embaixo dos braços, passos de valsa sozinha e sorriso de criança. Claro, ninguém entendeu, mas ninguém falou nada. Como um berimbau, seu corpo que não é assim tão eclético, inclinou-se pra trás em um passo mais ousado e quase estrebuchou-se no chão, apoiou-se na moça ao lado que tentou desviar e depois suspirou arrogante.
Retomando a consciência então, Martha com trinta, formada, solteira e sem filho, tirou um chocolate do bolso e apertou a campainha do ônibus, mas antes de descer apertou com toda sua força o chocolate na palma do mão e jogou no primeiro rapaz que viu.

jueves, agosto 23, 2007

além de.

ao som de "Bananeira" versão da Caixa Preta. (ou a da Bebel Gilberto)



Há muito sangue espalhado. Copos quebrados, cigarros molhados, cabeças cheias, salas vazias. Tudo dilacera e espatifa e corta como lâmina gelada entrando na pele também gelada, porque nada mais é quente a não ser o sangue, seja ele qual for.
E acabou. Limpa isso tudo, toma um banho bem quente, seca com a toalha mais felpuda, joga água quente pelo chão. Exige de todos essa compaixão, essa pena, se é que se pode chamar de compaixão, ou pena, esse desejo de ser sempre o que merece conforto: egoísmo: imaturidade.
...
Seja qual for teu santo, tua cor favorita, teu orixá. Seja qual for a marca de chá que tu usa, o tipo de roupa que tu veste, tua escola filosófica favorita. Seja qual for teu pensamento mais íntimo, eu te quero assim, cada dia descobrindo mais e mais de ti, cada dia descobrindo que não, eu não sei nada de ti.
...
Escuta, já tá tarde e tu precisa dormir. Eu botei Keith Jarret pra tocar enquanto olho a chuva cair pela vidraça, eu vou fazer um chá bem quente e vou tomar pensando em ti. Eu prometo. Escuta, eu não tenho muito a te oferecer, além de tudo o que me é mais sôfrego e pulsa aqui dentro, além desse “entregar-se por inteiro”, além desse tatear de cego. Nada. Nada além desse chá quente. Desse olhar pela vidraça.

sábado, agosto 11, 2007

diários rabiscados

Diários rabiscados viram livros. Na melhor das hipóteses viram livros. Eu rabisco entre um gole de café gelado uma tragada no cigarro quase só o filtro, rabisco, para ti. “Oi, desenhei uma rosa, quer ver?” “Escrevi um poema. É ele é pra ti.” E então cai cinza em cima das folhas eu amasso tudo jogo fora toco tinta verde-rosa-branca-azul. Guardo com carinho para que fique intacta a carta que nunca te dei. E nunca vou dar.

lunes, julio 30, 2007

Terno de Linho

Botei meu terno de linho, minha calça listrada, meu chapéu novo, meu sapato lustrado e saí para passear, mas não adianta, não é mais como era no meu tempo. As pessoas não agem como agiam no meu tempo, os lugares não são como eram no meu tempo, eu não consigo agir como agia no meu tempo. Nunca existiu um ‘meu tempo’ eu sempre fui um merda. Um merda em todos os tempos. Vinte anos atrás, era diferente...
Era diferente não, nunca foi diferente, o mundo gira na minha volta e eu esqueço de girar com ele, o mundo gira e eu faço força para ficar parado, meu terno sempre foi o mesmo terno.
Sabe, trinta anos atrás era realmente diferente, eu fiquei assim depois dos quarenta, eu convencia os outros sem nem me convencer, antes dos quarenta era o mesmo de sempre, uma força incrível para me afastar de todos, faço uma força incrível para lembrar-me de um tempo onde fui feliz, carrinhos, bonecos, camisinha, cerveja, não é isso que é para lembrar (Cláudia, malditas pernas...) perdia-me em meus pensamentos, sempre fui assim, sempre, sempre o mesmo perdido.
Quando você era jovem você era terrível! Dizia o Peixoto enquanto coçava as sobrancelhas, ele nem lembra do tempo em que éramos jovens, duvido que lembre de como ele falava ou sobre o que falava, ele vive, e apenas vive. Todos vivem e apenas vivem, mas eu não, eu me perco em pensamentos absurdos, me perco em músicas e cheiros, me perco nas malditas pernas da Cláudia...
Mas não é isso que é para lembrar, do que é para lembrar? Eu tomei os remédios antes de sair? Eu nem sequer saí ainda, eu acho, eu nunca tenho certeza, basta olhar para o lado e ver onde estou, mas minha casa não é mais como era antigamente, embora eu nem lembre de como ela era antigamente. Meu cunhado gordo e presunçoso coça sua barriga enquanto derruba cerveja no meu sofá, retardado, não controla as próprias mãos. Minha mulher oferece-nos um cafezinho, eu quero um café, acho que quero, gosto de café, sempre gostei, é uma das poucas coisas claras em meu pensamento, lembro-me de um tempo onde fui feliz, mamadeira, fantasias, poesia, poesia, minha mulher, (as malditas pernas da Cláudia) e os filhos. Odiava viver nesse tempo, mas tinha certeza que tinha sido feliz no passado.
Finalmente, em um momento de lucidez, decidi: Saí para rua com meu terno novo, mas antes lembrei de me despedir.
E olhando para os lados constatei que não havia mais ninguém além de mim em casa, lembrei de esquecer, de só um dia, esquecer de tomar meus remédios. Sempre se é mais feliz no passado.

jueves, julio 12, 2007

Pólen

Feito de pó e pólen
Só e somente o pó
Das flores do teu jardim
Quero as sementes
Pra te plantar somente em mim
O vento que desfolha as folhas
Quando desperta a pétala
Ao despertara despetalará

sábado, junio 23, 2007

Desejar

Procuras no meio de tuas pernas de santa o teu desejo de puta. São quatro da manhã e tu aí, procurando na TV, e entrando cada vez mais fundo, enquanto o pastor exorciza e a moça rebola, acaricia com movimentos circulares todo o teu stress diário, pois ele é teu, e dás a ele o nome que quiseres.
Uma vida inteira dedicada a ele, e ai, o que ganhaste em troca? Dizem aqui que com a vizinha, dizem ali que com a colega de serviço, e tu? Que nem chegaste a ter um serviço, para que cuidasse com que ele sempre tivesse o que comer quando chegasse cansado da firma, e tu? Que mesmo sem a mínima vontade, e às vezes até com nojo, abria tuas pernas para ele deitar o corpo de macho suado com cheiro de cerveja-escritório-tabaco-trânsito, e tu? Que ficaste em casa criando três filhos sem nunca abrir a boca para reclamar de nada, pros filhos-da-puta-ingratos virem a tua casa uma vez a cada três meses, mas pergunta-te em silêncio, e daí? Pois nunca gostaste mesmo dessas crianças com a cara do pai, todos retardados como ele, mas tu, sempre tu, benévola e amorosa por trinta anos, sorriu e disse que amava.
E tu? O que ganhaste em troca? Agora velha, esquecida e com cheiro de mofo, três meses depois de pedir o divórcio, trabalhando como secretária para um qualquer.
Madrugada de Domingo, quase na hora de acordar, e tu aí, o dedo cada vez mais fundo, e então decidiste:
Amanhã não vai ser no meio de tuas pernas e sim nas do encanador, quem sabe, jardineiro, quem sabe, dentista, que procurarás teu desejo de puta, pois é só isso que te sobrou velha, esquecida, com cheiro de mofo:

lunes, junio 11, 2007

Sobre uma tarde chuvosa.

“amoras silvestres no passeio público
amores secretos debaixo dos guarda-chuvas”
Minha Casa: Zeca Baleiro


Dentro da loja de conveniências, fumando, distraidamente, ele lia Maiakóviski. A chuva caía fininha lá fora, cortante. Pessoas passavam apressadas, umas completamente molhadas, umas com seus guarda-chuvas imensos. O vendedor de jornal na sua capa amarela congelava. Lá dentro ele se sentia confortável, e como a chuva aumentava gradativamente, gradativamente se sentia mais confortável. E não via o porque sair lá de dentro.
O ônibus freiou molhando todos os que estavam na parada. Ela desceu do ônibus e uma gota caiu em seu cabelo, ela secou com a mão, mas sabia que logo que saísse da parada ficaria totalmente molhada. Botou o capuz do seu casaco, dobrou a calça jeans, suspirou três vezes e atravessou a rua.
Deu a última tragada em seu cigarro e olhou para fora, a viu tentando atravessar a rua, mas tinham muitos carros, e muitas poças.
Ela cruzou os braços na altura do peito, depois tirou o capuz, balançou o cabelo molhado e botou novamente o capuz, cruzou os braços o mais rápido que pode. E então atravessou.
Ele saiu da loja de conveniência e abriu o guarda-chuva. Ela passou do lado dele e sorriu. Cabelos molhados são bonitos, ele disse. Ela fingiu que não ouviu. Quer uma carona? Ele perguntou. E porque não? Ela pensou, e disse também.

- Não tá com frio?
- Eu tô indo na casa do meu namorado, é naquele prédio azul.
- Meu vizinho.

...

- Não nos conhecemos ainda, é estranho, porque, praticamente moro aqui, então, teoricamente somos vizinhos...
- Prazer, Vitor
- Prazer Vitor.

...

- Tem um terreno baldio ali, vamos desviar. Tem lama.
- E uma amoreira. Não quer?
- Amoras não combinam com chuva.
- As silvestres combinam.

...

- Me beija.
- Não é preciso.


Eles não se viam mais. Não em realidade. Encontravam-se às vezes em sonhos. Quando se viam por aí, passeando com o namorado ou o cachorro, cumprimentavam-se de longe, só por educação.
O que será que ele está pensando sobre...? Pensavam os dois.

viernes, junio 01, 2007

Então tá.

- Alô? Oi, eu tô pintando, e lendo aquele livro de poesias, aquele que eu fui buscar, e lembrei de ti. Eu queria fumar, mas não posso. Posso, mas não necessariamente quero. É que eu tô no meu quarto, sabe, tá uma bagunça imensa isso aqui, é, não dá pra viver num lugar assim, sabe, tem tinta e tela e pincel e folha. Tudo espalhado pelo chão. Aquele verde bonito que tu me deu? Tá, tá aqui sim. Vou acender um cigarro e fazer um chá. Eu nem sei o que quero? É, só vou fazer um chá. Gosto dos cheiros doces e dos gostos amargos. Pode, pode morder minha boca até sangrar. Gosto de tudo que é Acre. Talvez só tenha vergonha. Botei essência de lavanda pelo meu quarto, porque eu sei que disse que não, mas eu acendi um cigarro, mas já apaguei. Joguei pela janela. No canteiro do vizinho. As plantas precisam de cinza, sabia? Não só as plantas, “A cinza é mais digna...” aquela história toda. Gosto do gosto do espesso, da sensação do amargo. É, eu sei eu inverti, sempre faço isso. Tá frio né? Quer vir aqui, quem sabe? O chá? Não, não é de Jasmim, gostos amargos, lembra? É chá preto, eu sei, nem é tão amargo assim. Mas eu gosto. Me engana. Deixa eu te ler um pedaço, olha é curtinho: “Tantos poemas que perdi. Tantos que ouvi, de graça, pelo telefone – taí, eu fiz tudo pra você gostar...” Começa assim, depois tem mais um monte de coisas, é lindo, tu ia gostar. É daquela poeta que te falei. Acho que a água do chá ferveu...se isso foi um tchau? Não era.
Mas então tá,
Tchau.

domingo, mayo 20, 2007

Diálogo: Enquanto

- A água tá no fogo, daqui a pouco a chaleira apita. Mas é melhor tirar antes, água fervendo faz mal.
- Se ao menos eu pudesse te tocar e dizer agora o que sinto através de gestos, e não de palavras.
- A irmã do meu professor de biologia do segundo grau morreu de câncer porque tomava muito chimarrão com água fervendo. É melhor tirar antes.
- É melhor tirar tudo antes, meu amor. É melhor tirar tudo antes, porque quando chega no ponto, tudo faz mal. É melhor tirar de dentro antes que goze. É melhor tirar do fogo antes que aqueça completamente, e o vermelho do fogo te assusta, não é mesmo? O vermelho assusta. Porque depois que esquentou completamente não tem mais como voltar a ficar frio, porque mesmo que deixe voltar a esfriar, já foi quente um dia. Entende? Chegou a um ponto em que existiu, e se deixa de existir é por cansaço, mas o que foi feito, foi feito. Então é melhor tirar antes, meu amor. Aí não tem perigo de ficar grávida nem de morrer de câncer.
- Quando se é frio dá pra esquentar mais, até ficar da temperatura que se quer. É um processo.
- Tome cuidado pra não chegar ao ponto irreversível, meu amor. O ponto onde tudo lateja e dói e tudo é fluxo de consciência e é amargo e não tem volta, nem perdão.
- Olha, sente o cheiro de café fresco. Busca as xícaras, põe na mesa.
- Eu quero um cigarro. Tosse seca. Eu sei. Infecção no pulmão. Me disseram que esses aqui, de cravo, fazem menos mal. Me alcança o isqueiro. É pra olhar ou sentir? No fundo tudo é a mesma coisa, não? Não. No fundo tudo tende ao sentir, porque sentimos quando olhamos. Quando cheiramos. Quando tocamos. Quando lambemos. Deixa eu lamber agora o que é limpo e cheira bem, porque cansei de gostos acres e espessos, eu cansei, meu amor, eu cansei.
- As xícaras..
- Quais eu pego? As que sua mãe nos deu? Ou aquelas, as verdes, não lembro quem deu, mas são verdes porque verde é bonito. E todo mundo sabe que verde é bonito.
- Pega o cinzeiro. Qualquer xícara tá ótimo. Duas colheres de açúcar ou nenhuma? Doce demais faz mal.
- Me deixa sentir o gosto doce, me deixa lamber o fundo da xícara. Me deixa ser formiga me deixa ser cadela me deixa ser puta. Me deixa pedir. Implorar. Necessitar. Eu necessito, meu amor, eu necessito. Eu necessito tocar. É quando tocamos.
- Se ao menos tu pudesse me tocar e dizer agora o que sentes através de gestos e não de palavras.

lunes, mayo 07, 2007

Rosas Brancas

Pôs a água a esquentar e preparou um chá de rosas brancas para tomar deitada enrolada em edredons brancos e macios de camisola branca e macia na sua cama arrumada agora a pouco e assistir a um filme, quem sabe, telenovela, quem sabe, um seriado, quem sabe, um dvd. O telefone tocou, estridente no quarto escuro, deixou tocar três vezes, suspirou: ai, como eu gosto de ti: assim, baixinho, pra ninguém ouvir. E atendeu. E era engano. E ela atirou o telefone no meio das almofadas do sofá da sala e voltou para o quarto.
Viu a boca da mocinha do filme, tão bonita, tão rosada, tão bem definida, tão diferente da dela. Viu o pescoço do galã, tão bem definido, meu deus, tão másculo que deu vontade de entrar dentro da tela e morder, morder com força, morder também a boca da mocinha, morder e arrancar um pedaço e fazer doer e fazer sangrar e fazer jorrar sangue vermelho como o batom e beijar beijar beijar até borrar o batom e borrar o pescoço e inundar tudo em sangue tão vermelho, tão vermelho...
Suava embaixo dos edredons e sentia com a mão o suor pelo seu pescoço, pelo seu cabelo, sentindo o suor com a mão até o ponto em que os dois peitos se encontravam, coitados, tão pequenos, em nada se parece com o da moça do filme, tão redondos e grandes e bonitos, e espalhava o seu suor e apertava o pouco que tinha pra apertar com as unhas mal pintadas e roídas, e apertava até doer. Lá fora trovejava, veio um vento tão forte da janela que arrepiou. Ela lembrou que era quinta-feira, dia de Iansã, e pensou em acender uma vela, e pensou em pedir por um corpo que a tocasse, e pensou em pedir por um corpo que penetrasse no seu, por um suor que se misturasse com o seu, por um gosto que se misturasse, por um cheiro que ficasse dias e dias no seu, e que pudesse cheirar depois e lamber e sentir sempre que sentisse saudade. E pensou em cozinhar um quarto de quilo de canjica amarela com bastante água, coar e por o líquido a ferver com folhas de pitangueira por mais dezesseis minutos; após, acrescentar dezesseis gotas de perfume, uma rosa branca, uma vermelha e uma amarela, todas despetaladas, tomar um banho do pescoço para baixo. E repetiu mentalmente, assim mesmo, automaticamente, como alguém lhe ensinou uma vez, e ela repetia sempre, mentalmente, assim mesmo, automaticamente, porque nunca fez e porque também nunca esqueceu, mas também porque sempre precisou.
Com as mãos de unhas mal pintadas e roídas que se cravavam no seu corpo suado fazendo doer desceu até as coxas e cravou com força. Suspirou e esperou que tocasse o telefone mais uma vez e que dessa vez não fosse engano, mas não tocou. Tomou um gole de chá bem quente, e com cada vez mais calor, olhando a boca da moça que se mexia em direção ao pescoço do homem, que meu deus, que pescoço, tão másculo, tão definido, e cada vez suando mais, encharcada no seu próprio líquido, um líquido tão seu, que ela já sabia de cor, o gosto, o cheiro, a sensação, um líquido tão seu que por um segundo a fez pensar que era a única coisa que tinha e conhecia perfeitamente: e mesmo conhecendo perfeitamente queria conhecer cada vez mais: tudo agora é líquido e inunda: a mão molhada descendo e apertando cada vez mais as coxas e encontrando o sexo: o suspiro. A sensação de se conhecer cada vez mais era tão grande, meio canibal até, que ela queria tanto, se pudesse morder a sua boca e arrancar um pedaço e fazer doer e fazer sangrar e fazer jorrar sangue vermelho como o batom e beijar beijar beijar até borrar o seu batom e borrar o seu pescoço e inundar tudo em sangue tão vermelho, tão vermelho que mancharia rosas brancas.

martes, mayo 01, 2007

Água

Acordo sobressaltado, olho o relógio: início de madrugada. Vou até a cozinha, abro a geladeira, um copo de água gelada. O clima está agradável e vou até a janela. De repente o grito. O estrondo. O sangue espalhado.
Eu bebia água na janela da cozinha no mesmo instante em que o meu vizinho do quinto andar suicidava-se. Suicidava-se? Tudo indica. Mas o mais correto seria: bebo água na janela da cozinha no mesmo instante em que o meu vizinho do quinto andar caía pela sua janela. Fração de segundos.
Os vizinhos acordados assustaram-se com o barulho - eu estava sentindo nojo daquele corpo estendido, mas não podia parar de olhar – os vizinhos acordados vieram ver o que aconteceu – da minha janela eu enxergava a cabeça que foi esmagada pela laje, enxergava a cabeça aberta e resíduos espalhados e sentia nojo – os vizinhos acordados chamaram uma ambulância. Não conseguia mais beber água, a náusea era absurda. Minha cabeça doía, meu estômago se contorcia. Não sentia mais meus músculos abdominais, mas não podia parar de olhar. Sentia dor e sentia nojo. Mas não podia parar de olhar.
Alguns minutos depois a ambulância chegou. Recolheu o corpo e levou embora. Alguém jogou água pela laje do pátio do condomínio.
Então eu voltei a dormir.

domingo, abril 22, 2007

Morte Mentolada

Alguma coisa entre: The Smiths, Oscar Wilde, Caio Fernando, Legião Urbana, café gelado e muitos cigarros.
A morte mentolada no cinzeiro de pedra verde musgo que atrai energias positivas, porque sobreviver por entre a noite era atrair o máximo de energias que podia, sugar como uma sanguessuga. Sugar até a última gota, o último gesto, o último âmago, o último gemido. Sugar da vida o grosso-áspero-leitoso.
Na janela o sopro do vento, no sopro do canto da boca, a fumaça assim: calma, em um suspiro reto e cinza.
Na janela a amargura e o choro quente, logo após o riso. Frutas geladas contrastam com o que quente tu me dás.
Se já passou agora metade da madrugada e a manhã fria vem em mais um cigarro e mais um suspiro, vem também a manhã em mais um sopro de vida.
Sugas tu a manhã agora.
Livra-te de culpa.
Morres e atinges assim a vida de verdade. Com cheiro acre e gosto de mentol.

martes, abril 17, 2007

palavra

A Toca me protege do frio
A Oca é oca;
E não tem telhado.
Toca por dentro a palavra
Toca por fora o tato;
Sente por dentro tocado
Sente por fora, encostado
A palavra é a ejaculação da boca.
A Toca protege e aquece
A Oca que é oca.
E o ouvinte por fora ouvidos
E por dentro, contaminado.
E o telhado por fora só telhas
O telhado de fora, estrelas.

jueves, abril 12, 2007

Recortes

Ele apagou o cigarro no cinzeiro de pedra-verde-musgo e a porta do quarto bateu. Abriu a janela e viu o dia. Quente úmido abafado. Abriu a janela e viu mais janelas. E viu telhados e estacionamentos. E viu uma casa bonita com um quintal grande e bonito e com crianças brincando no quintal. E fechou a janela. As crianças no quintal bonito davam um ar de esperança bonito praquele apartamento cinza gélido sem-graça e cheio de recortes na parede. Então ele sorriu. Abriu a porta do quarto e dessa vez lembrou de prendê-la pra que não batesse novamente. Abriu a janela da sala pra que entrasse um ar puro e novo na casa. Um cheiro de concreto molhado pela chuva que insiste em chover de madrugada pra que o ar da manhã seja úmido e o da tarde abafado. Abriu a janela pra que entrassem energias novas e saíssem as antigas. Renovar as energias, ele disse. Disse sete vezes e acendeu uma vela. Com a vela acendeu a chama do fogão. E com a chama esquentou a água pro café. Preciso molhar as samambaias. Pensou entre o cheiro de café novo as velhas pastilhas azul-piscina da parede da cozinha e a mesa de madeira. O jogo de xícaras coloridas. Escolheu a branca. Pra renovar as energias.
Ela chegou em casa atirou as pastas e folhas e sapatos no sofá cor creme. E se sentou com ele à mesa. Escolheu a xícara verde. Beijou-lhe a testa. Serviu um pouco de café e completou com leite. Ele sorriu.
- Você está bebendo café demais. E está muito magro. Aposto que mal almoçou hoje.
- Acordei agora.
- Você está desperdiçando sua vida.
- É o que me resta pra desperdiçar.
E então ele foi até o quarto buscar os cigarros e abrir novamente a janela. As crianças continuavam brincando no quintal grande. Voltou a cozinha e ela entrou no quarto. Pegou a toalha e foi pro banho. Sentado na sala ele fumava e esperava que ela saísse do banho pra que pudessem conversar. Não que quisesse conversar. Mas queria ouvi-la, porque ela falava bastante e falava coisas bonitas e falava sobre pessoas e falava como uma amiga deve falar. E ele a amava. Amava como se ama a alguém que fala coisas bonitas e lhe passa a mão nos cabelos despreocupadamente. Amava como se ama alguém que se preocupa porque você está magro demais. E tomando café demais. E fumando demais. E aproveitando a vida de menos. E escrevendo bem menos do que deveria. E saindo menos de casa. Ele a amava porque não esperava que a amasse. Mas foi uma coisa forte. Uma coisa que veio vindo com o tempo e aí não deu tempo de segurar. Que cresceu dentro dele e tomou conta. Que escolheu ele pra morar. Dentro dele. E na casa dele.
Ela saiu do banho e cheirando a sabonete sentou do lado dele no sofá creme. De dentro da pasta tirou uma revista que ela disse que tinha umas imagens incríveis. Pra que eles recortassem e colassem pela casa. E tirou um livro que ela disse que ele tinha que ler. E ele prometeu que leria assim que tivesse tempo. Ela riu, porque ele sempre tem tempo. E tirou também um buquê de rosas pra eles porem no vaso que fica na mesa de centro. Mas ela se desculpou por as rosas terem murchado por estarem guardadas dentro da pasta porque ela pegou uma chuvinha no caminho e aí foi obrigada a guardá-las. Mas ele disse que não tinha problema e que eram as rosas mais lindas que já tinha visto. E botou ali no vaso. Do lado da vela. E disse que agora sim a casa absorveria energias. Trouxe rosas vermelhas porque vermelho é a cor da paixão, e nós dois estamos precisando de paixões. Ele disse que a vela rosa não foi coincidência. Deitada nas pernas dele, ela falava, e falava bastante, e falava coisas bonitas.
E enquanto ela falava ele ia percebendo que talvez seu apartamento não fosse tão cinza gélido e sem-graça. Que os recortes as velas as flores deixavam o ambiente alegre. Que ele tinha ali dentro tudo o que queria e precisava. Que ele amava. Amava a ela. Amava a casa. Amava a ele. E quanto mais ela falava e mais ele ia percebendo, mais tinha certeza de que a única coisa que tinha pra desperdiçar estava ficando mais bonita. E indispensável.

lunes, abril 02, 2007

Eu entendo.

"Ai como eu queria tanto agora ter uma alma portuguesa para te aconchegar ao meu seio e te poupar essas futuras dores dilaceradas. Como queria tanto saber poder te avisar: vai pelo caminho da esquerda, boy, que pelo da direita tem lobo mau e solidão medonha."
Dama Da Noite - Caio F. Abreu


Eu entendo, garoto, eu entendo. Entendo que você não tenha mais preocupações do que se divertir e se tornar popular. Do que se divertir divertindo os outros. Do que experimentar de tudo e todos enquanto o tempo te permitir. Mas o tempo é cruel, garoto. Um dia as preocupações vão surgir. Porque o mundo não é feito só de fantasias e diversões. Com o tempo você vai percebendo, garoto, que a diversão pode estar em coisas e pessoas que você nunca sonhou. Eu entendo que você não queira perceber que ter um objetivo e um plano de futuro é importante. Porque até uma certa idade o nosso futuro é destinado. Mas chega uma hora que você é que decide, garoto. E aí vem o peso da responsabilidade. Como um prédio de quinze andares desabando nas suas costas com as pessoas todas a sua volta cobrando o porque do que você faz. Eu entendo que nem tudo o que você faz precise de um porque, e nem tudo o que eu faço tem um porque, até porque quase nada do que eu faço precisa de um porque. Mas não precisa porque eu já descobri o que eu quero fazer, garoto. Posso não ter descoberto o como fazer. Mas isso se descobre ao longo da vida. E eu entendo que você não queira pensar no que fazer e muito menos em como fazer o que fazer. Mas chega uma hora em que você é que decide, garoto, você. Só você. E essa hora dói.
Vem aqui mais perto, garoto. Me deixa aproveitar você. Porque eu não sei o que você vai fazer daqui a pouco e nem eu sei o que vou. Vem aqui mais perto e não fala nada. Me deixa te sentir, garoto. Uma hora você vai perceber que as pessoas não precisam de rótulos. Não precisam de títulos. Não precisam de alianças, garoto, as pessoas não precisam de alianças. Vem aqui mais perto e deita tua cabeça no meu ombro pra sermos as pessoas mais felizes do mundo por um segundo. Tudo bem, eu entendo que pra você o sempre dure pra sempre. Mas não dura, garoto.
Eu não tenho mais a sua idade, mas eu ainda tô viva. Eu tô tão viva que dói, garoto. Dói. Pode parecer que não e eu entendo que não pareça. Mas eu também sei viver. Você entende? Não, você não entende. Mas uma hora você cansa de experimentar as pessoas e ao mesmo tempo esperar que alguém lhe torne a pessoa mais feliz do mundo pra sempre. Eu acho até que tô vivendo mais do que você, sabe. Mais viva do que você. Eu me divirto tanto quanto. E experimento tanto quanto. Mas uma hora você percebe que existem outras coisas. Que sexo é tão importante quanto amor, garoto. Que sexo não é no fim-de-semana e amor durante ela. Que amor não é casar e ter filhinho. Que sexo não é pecado. Não foi feito pra ser feito escondido.
Eu entendo que você é tão moço e não quer se desiludir. Eu entendo que você é tão moço e não quer se envergonhar. Eu entendo que você é tão moço e não quer ficar triste. Eu entendo que você é tão moço e não quer que o mundo fique chato. Eu entendo que você é tão moço e quer que as coisas boas durem pra sempre. Mas não duram, garoto. Eu tô tão viva, garoto. Tão viva que dói. E vai doer pra sempre.

martes, marzo 20, 2007

Então ele disse mais ou menos isso:

Gosto de ti assim mesmo. Desse jeito. E então eu quis dizer que não. Que ele não gosta. Que assim como eu ele queria que fosse diferente. Mas por educação e gentileza, ele insistia nessa farsa ridícula de dizer que gostava de mim assim mesmo. Desse jeito.
Mas não disse nada. Me limitei a olhar bem nos olhos dele – verde/mato/esmeralda – e sorrir. Vinho? Demi-Sec. Ó-TI-MO. Me alcança um cigarro? Obrigado. Pega, pega o cálice. Pode largar as cinzas aí mesmo. Nessa fotografia. – foto amarelada moço de cabelos encaracolados sorrindo bermuda chinelo e sem camisa – Quer ligar a Tevê? Pôr um CD, quem sabe? Olha ali na pilha tem uns maravilhosos. Me abaixei na pilha de Cds e deixei um pouco de vinho cair no tapete. Rapidamente ele sorriu e disse que não precisava me preocupar, acontecia. Depois ele limpava. O tapete era velho e não combinava com a decoração da casa mesmo, que parasse de fazer essa cara de criança envergonhada e com medo da mãe. Caetano, Janis Joplin, Belle and Sebastian, Cartola.
-
Qual camisa? Branca, Verde, Preta – atrai energias demais – Azul? Azul e branco, dia de Iemanjá. Calça Jeans desbotada. Tênis branco. Perfume. Dentes escovados. Essência de Lavanda pela casa. Vela azul na cabeceira do quarto. Plantas regadas.
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Ele me disse pra que esperasse. Ia tomar um banho, daqui a pouco as pessoas estariam batendo na campainha. Que já que eu tinha vindo mais cedo que tirasse logo esses tênis e ficasse a vontade. – a casa é sua – E eu disse que ia lhe dar uma Esmeralda de presente. Pra afastar os maus espíritos. Ele riu e tirou a camisa. Desabotoou o botão da bermuda. Pegou uma toalha e botou no ombro suado. Afastou os cabelos ruivos encaracolados dos olhos – seria ele na foto? Mas era moreno – Pêlos ruivos e suados no peito e na barriga. Quis ir junto com ele pro banho. Mas acendi outro cigarro.
-
Uma cerveja. Um computador. Recados. Pessoas. Sorrisos. Cheiros. Sem cheiros. Por isso não tem tanta graça. Saudade. Cinza caindo no chão, cheiro de cigarro no quarto, coração apertado. Cadê a empolgação? Vamos te anima! Cara importante. Casa bonita. T-u-d-o o que tu querias. Mais uma cerveja. As chaves de casa. Mais uma vela.
Ogunhê! Que não me falte a coragem, meu pai.
-
Sentado no sofá bege da sala dele me sentia como uma cadela no cio. O imaginava no banho. O corpo molhado. Os cabelos cheios de espuma. A água quente enchendo o banheiro de fumaça, meu cigarro enchendo a sala de fumaça. Me levanto e vou até a mesinha de centro de vidro fumê largar as cinzas na foto e pegar mais um pouco de vinho. Girando o corpo pela sala me sinto tonto. E tomo um gole de vinho. Girando na ponta dos pés pela sala dele me sinto tranqüilo. Calor. Abro os vidros da janela, tiro a camisa. Caio no tapete de costas. Deitado de costas no tapete e sem camisa sinto mais calor ainda. Desejo. Medo. E então, de repente, a vergonha.

Alterius;festum solum invitatus adibis

Ele sai do banho e a campainha toca. Pede pra que eu atenda. Eu atendo. Oi, entra, Ah sim, ele tá no banho, senta no sofá, querida. Oi? Ah sim, pode pegar ali no maço, tá em cima da mesa, eu acho, pega um pouquinho de vinho. – loira vinte anos no máximo calça coladíssima cabelinho uó. clássico. – Mais campainha. A loira sorri. Eu levanto e atendo a porta novamente. muá-muá. Ele tá se arrumando, saiu do banho agora, claro, pode beber do meu cálice sim. A música? É Cartola. Deprê? Mas é tão lindo. A loira sorri. Sentam-se um do lado do outro. Eu sento no chão e com as cinzas do meu cigarro escrevo o nome dele. Na verdade apenas tento escrever o nome dele, porque obviamente, nunca conseguiria escrever o nome dele com as cinzas do meu cigarro. Mas eu me distraio enquanto espero ele se arrumar. E ele demora. Quando sai, sai secando os cabelos ruivos, barba feita, cheiro de colônia. Pinho. Só de bermuda e chinelos. O rapaz levanta do sofá, a loira sorri. Eles se beijam nos lábios, assim, carinhosamente. Carinhosamente, mas doeu. Eu me levanto, acho que por impulso. Começo a dançar sozinho, ele me puxa. O vinho talvez esteja fazendo efeito. O rapaz senta onde eu estava. A sala se enche de fumaça. O rapaz tira a bermuda. A loira tira a blusa. Ele me derruba no carpete e me beija - vinho maconha pasta-de-dente - A loira sorri. A loira só sorri. O rapaz chega perto põe a mão embaixo da minha camiseta desabotoa a minha bermuda. Desabotoa a dele. Desabotoa a calça da loira. Lindíssima cena. Seria muito pornográfico se não tivesse Cartola ao fundo. Então é tudo tão romântico. Me sinto mais um no harém dele. Quando falou em convidados não imaginei que fosse assim...não que seja ruim, só que. Eu esperava outro tipo de. Pessoa. Festa. Coisa. Toque. Cheiro. Esperava.
E então de repente eu levanto. Desligo o som. Jogo a garrafa de vinho na parede. Puxo ele e levo pro banheiro. E choro. E entre o choro eu digo que só queria que ele soubesse que não era sempre assim, que tinha gostado mesmo dele, e que não estava me sentindo muito bem, e que talvez fosse o vinho, e que é, era sim o vinho, e a maconha, e que estava envergonhado e talvez, talvez não, com certeza, eu iria embora nesse momento e deixava os três a sós, e que pediria desculpas formais com um buquê de flores outro dia, ou que, o mais provável, nunca mais o procurasse.

Um banho de mar. Um banho de cachoeira.

Então ele disse mais ou menos isso: Gosto de ti assim mesmo. E me abraçou. E eu sorri. E deitei a cabeça no ombro dele. E me beijou com suavidade. E ligou o chuveiro. Abraçados dentro da água éramos um só. Éramos um corpo onde caía água quente e espuma.
Levanto a cabeça e o olho nos olhos. Conscientemente, me perco nas matas de Oxóssi.

miércoles, marzo 14, 2007

Vinte e Quatro

Uma poltrona bege. Uma almofada verde musgo. Um cigarro na ponta dos dedos e um copo de Uísque quase sem gelo. Um gato cinza.
E era assim que ela passava a maioria das noites. Sentada na poltrona fumando e observando o mundo pela janela do seu apartamento. Samambaias e Orquídeas espalhadas. Uma televisão que não funcionava mais. Um aparelho de som e alguns poucos discos.
E se levantava, ela levantava apenas para ir até a cozinha pegar mais alguma coisa e voltar. Ou para ir até o banheiro lavar o rosto ou molhar os pés na banheira azul. Se olhar no espelho ou lavar os óculos. Compulsivamente.
E pensava na vida, pensando no que poderia fazer, o que fez e o que está fazendo. Não sentia saudade do passado, não tinha pressa do futuro e sentia um tédio mortal do presente. Mortal e Enjoativo. Como café requentado em um dia cinza claro.

lunes, marzo 05, 2007

Jasmim

São seis da manhã e eu não consigo descansar. Preciso tomar um banho. Estou suado e não consigo descansar. Minha mente gira. Gira por lembranças e projeções. Então eu deito e não consigo. Então eu desisto de deitar. Daqui a pouco vou tentar de novo. Mas antes eu preciso de um banho para limpar o suor. Um banho quente. Por mais que faça muito calor na rua, eu preciso de um banho quente. Preciso deixar a água quente bater no meu corpo por minutos que parecem horas. Preciso deixar a água me relaxar. Eu sinto saudade. Sinto falta da tua presença. Por mais que nunca tenha tido tua presença, sinto falta. Sinto falta de conversar contigo. Porque eu gosto de conversar contigo. Não importo o assunto. Não é o que a gente conversa que me atrai, e sim como a gente conversa. Gosto de como a gente conversa. E sinto falta disso. São seis horas da manhã e eu não consigo dormir porque estou sentindo falta de como a gente conversa. E porque estou com calor. Por mais que a janela esteja aberta e a temperatura na rua esteja muito agradável. Aqui dentro tá calor. Aqui dentro É calor. Dentro do quarto. E de mim. Na verdade aqui dentro é desagradável. É frio quando se falta coberta. E quente quando faltam ventiladores. É desagradável. É um pontinho preto, que sobe, da boca do estômago até o peito. E ali ele dói, é quente e é frio.
Agora eu queria ir pro meio do mato. Ir pra serra. Agora eu queria o cheiro de uma pousada. E um chá inglês de morango – que eu nunca encontro pra vender – antes de dormir. E uma torta de mousse de limão com café bem quente e forte quando acordo. Antes de sair pra caminhar pelos morros. E pelas cachoeiras. Sozinho e descalço. E eu queria que tu tivesse comigo. Pra provar o chá e a torta e o café e o morro e a cachoeira e sentir o mesmo chão e o mesmo sentimento e depois a mesma saudade que eu sinto. Eu queria ir pra Três Coroas passar um tempo no Templo. E não importa o tempo do tempo. Quero ver o pôr do sol em Três Coroas. Sentado na estátua de Shiva. E queria que tu tivesse aqui pra me agradecer por te levar a um lugar bonito e te fazer feliz. Sim, o tempo todo tudo o que eu quero é te fazer feliz e ainda ser agradecido por isso. O tempo todo. Sempre foi egoísmo.
São seis da manhã e eu não consigo descansar. Estou com saudade. E preciso tomar um banho quente e botar um perfume doce que me lembra Jasmim. Estou com saudade. Preciso tanto cheirar a Jasmim quanto precisava escrever.
Estou com saudade.

miércoles, enero 31, 2007

Dez minutos Sete sorrisos e Nenhum cigarro. (Parte II)

xi

Mônica acordou há um pouco menos do que três minutos. Agora vai para o banho, um banho demorado, morno, solitário, morno. Solitária.

Ele caminha mais um pouco, só existe um destino interessante por ali. Corre um pouco, está quase chegando ao Gasômetro. Desiste de correr, correr cansa, está cansado. Ofegante. O pulmão quase sai pela boca. Correu uma quadra. Vontade de fumar um cigarro, dor de cabeça. Apalpa os bolsos, não acha nada, olha dentro da sua bolsa, não acha nada, apalpa os bolsos de novo, não acha nada. Sua testa está suada. Desabotoa o primeiro botão da camisa. Abotoa o primeiro botão da camisa. Entra em um bar e compra cigarros. Ainda está ofegante. Acende um cigarro, nervoso, tremendo um pouco. Passa a dor de cabeça. Anda pela rua um pouco apressado, caminhando rápido para não cansar nem demorar tanto para chegar. Chega. Caminha até a beira do rio, senta em uma pedra, com um graveto que estava ali faz desenho circulares na água. Da esquerda para direita. Da direita para a esquerda. Esquerdo. Pega uma pedra e joga. Levanta, caminha até um pedaço, por ali, por sobre as pedras, sempre olhando para o rio. Sol. Sol forte e bom. Sombra. Por ali, por debaixo das árvores.

Ele resolve sentar em uma pedra. Toca umas pedrinhas no rio: o barulho é lento, calmante. Acende um cigarro.

Mônica sentou-se à mesa da cozinha, preparou um café quente com leite morno, assistiu qualquer coisa na televisão. Mônica estava nervosa - onde ele estará? - Ela sentiu saudade. Sente. Sentirá.

Ele levanta atordoado. Joga o cigarro no chão. Pisa em cima. Olha para o rio e sai caminhando apressado.

xii

Entra em um bar e procura na prateleira por alguma bebida. Quem sabe vinho? Tinto. Seco. Quente.

– Pode ficar com o troco...

Bebe um longo gole da garrafa. Desce quente. Queimando. Queimante. Dói. Arde. E faz bem. O Álcool limpa seus pensamentos. E então olha para os lados, está parado na calçada, no meio da Rua da Praia. E como tem uma praça, ali adiante, resolve sentar-se um pouco. Bebe outro gole. Já com nojo. Desespero. Asco. Acende um cigarro. Escárnio.

(e então se acha nessa condição, está ali, como peça de decoração, para todos verem, para ser contemplado, quer fugir, mas não pode).

Hoje ela estava ruiva, ou morena. Fizeram sexo até o amanhecer. Amanheceu. E então ele se levantou. Hoje ela tinha proporções grotescas. De imensidões e ninharias. De calma à culpa. De beleza à culpa. Culpa. Hoje ela tinha o tamanho de seus sonhos. A proporção de sua consciência. Estava ruiva, ou morena.

Acende outro cigarro e toma outro gole de vinho. Desabotoa os quatro primeiros botões da camisa. Sente-se melhor. Mais livre. Abotoa dois, de novo, por educação. Repugna. Repugna aquele gole. Repugna aquela tragada. Repugna aquela camisa. Repugna aquela praça. Repugna Mônica. Seu estômago dói. Regurgita. Pensa em um copo de água. Pensa em um chuveiro. Pensa em uma cachoeira, a água lhe batendo nas faces, nos cabelos, no peito, na barriga. A água lavando. Refrescando. Pensa em Anabelle. Seus pensamentos se enchem de fumaça.

Traga agora com satisfação. Com calma. E sem culpa.

xiii

Pequenos pingos de chuva caíam sobre sua cabeça. Molhavam a calçada. Molhavam seus cabelos. Chuva de verão. Passa a mão pelos cabelos molhados e sente a satisfação e a ternura que só ele sente por ele mesmo quando está chovendo. E sente a tristeza que sempre sente por saber que ninguém vai lhe ver assim. Molhado. Calmo. Olhando os pingos arrastados. Cada pingo uma lembrança. Cada lembrança um sentimento.

Caminha por dentro da chuva pensando na imagem que ele tem dela. Imagina a imagem que ela tem dele. Esforça-se para passar uma imagem para ela que não deixa de ser o que ele é, mas mais rebuscada. Esteticamente melhor. Uma imagem que é exatamente o que ele quer ser. O que não deixa de ser intimamente o que ele é. Caminha por dentro da chuva pensando em uma cachoeira – passa a mão pelo rosto - a água lhe batendo nas faces, nos cabelos, no peito, na barriga. A água lavando. Refrescando. Pensa, novamente, em Anabelle. E novamente. E novamente.

Ela não pensa em mim como eu penso nela.

Ela não pensa em mim.

Como eu penso nela.

Ela não pensa em mim.

Mas ela está sempre sorrindo. Vejo em seus olhos. E sorrisos. E cabelos. E cigarros.

E novamente:

Ela chega, o encontra, fala algo. Está chovendo. Os dois estão molhados. Ela fica linda com o cabelo molhado. Ele estava sonhando ou pensando? Precisa de uma toalha. E de um banho quente.

Por dentro da chuva ele sobe a Borges. Por dentro da chuva ele se sente cansado. Por dentro da chuva ele se sente compelido a tomar outro café. E fumar outro cigarro. E morrer de câncer de pulmão. E por mais que saiba que outro café faria seu estômago doer, se sente compelido a tomar outro café. A ter úlcera. Fugindo da chuva encontra a parada de ônibus. Fugindo da chuva acende um cigarro. A mulher que passou ao seu lado tossiu. E isso não fez sentido algum.

xiv

Seu estômago ronca. E se contrai. E dói. E pesa. E sua cabeça também dói e também pesa. Olha pela janela do ônibus agora. A cidade sempre fica mais romântica quando está molhada – e com cheiro de chuva – limpa a lente dos óculos que embaçaram com os pingos de chuva. E quando chegar em casa ele vai preparar um café novo. Bem quente. E bem amargo. E quando chegar em casa ele vai tomar um banho. Quente. Calmo.

E então ele chega em casa. Nesse momento ele só quer um banho quente e um café quente. E uma roupa seca. Mas ainda tem tempo de olhar para as plantas, que ficam muito mais românticas quando estão molhadas – e com cheiro de chuva – limpa a lente dos óculos que embaçaram com os pingos de chuva, e entra em casa.

E quando chega em casa ele se despe e pega uma toalha. Seu corpo encontra um banho quente. O banheiro se enche de fumaça. Seus pensamentos se enchem de fumaça. Ela chega, o encontra, fala algo, sorrisos e sabonetes, dois corpos a dividir a mesma água, água que lhe bate nas faces, nos cabelos, no peito, na barriga, água que lhe acorda. Que lhe lembra de ter esquecido de passar o café. De novo. Água que lhe dói. Dói tanto em matéria de metáfora quanto fisicamente. Dói quando bate na barriga. Vazia. Náusea. Desliga o chuveiro. Tontura. Se seca com pressa. Náusea. Abre a porta com raiva. Tontura. E senta no chão.

Quando o enjôo passa levanta e vai até a cozinha. Passa um café calmamente, ainda enrolado na toalha. Torradas já é o suficiente. Café não tão novo. Não tão quente. E nem tão amargo.




jueves, enero 25, 2007

A Borboleta

Queria chorar. Não por tristeza ou por dor. Nem por raiva ou nervosismo. É como se uma coisa aqui dentro doesse porque é predestinada a doer. Chega uma hora que tu pára e pensa: nada daqui para frente me parece interessante, e o que me parecia interessante antes, já não me parece mais. Então apenas o que resta é passar um café. E tomá-lo olhando a rua.

Hoje eu não vou escrever sobre cafés. E nem sobre cigarros. E nem sobre pessoas tristes sem nome, sem rosto e sem expressão. Perdidas em pensamentos turvos. E nem sobre coisas quebradas. Não falo da chuva – nem do cheiro da chuva - não tentarei descrever o pôr-do-sol. Não usarei a palavra Crepúsculo. Hoje não farei textos sobre a Angústia.

Hoje eu vou falar sobre uma borboleta: uma borboleta que entrou no meu quarto. Tinha as asas de um verde bonito. E me lembrava alguém.

Então a borboleta saiu pela janela aberta. Voou para longe. E eu nunca mais a vi.

viernes, enero 05, 2007

Cenas Não Tão Cotidianas

04:47
Está frio na rua –fumo sentado no parapeito da janela- meu peito nu encontra a brisa gelada da madrugada. Aviões cruzam meu céu. Sirenes. Cristais.

Ponto de Ônibus
Ela passou por mim e tossiu.
E isso não fez sentido algum.

Diálogos I
- Ela é uma piranha, entende? Uma piranha.
- Sua voz ecoa como uma Cítara. Toco seu corpo como se fosse tocar levemente na pele de um Derbake. Faço música com seu corpo. Sinfonia inacabada em uma noite de luar.
- Porque mantém algo com ela se é a mim que queres?
- Morro com seu sorriso, assim como nasci com seu talvez.

Minha puta de quarta-feira
Um dia de Outono em que a gente sente o silêncio, sente as folhas caindo no chão, sente o azul do dia encontrando o escuro da noite e formando o degradée, que por sua vez forma o crepúsculo. Sente a mão passeando pelos cabelos – ou deseja tanto que imagina sentir a mão passeando pelos cabelos – como se sentíssemos uma música ao fundo – violinos – ficamos os dois em silêncio a sentir, e apenas sentir.


Diálogos II
- Tu nem sabes o que quer!
- Quero pegar-te pelo braço, jogar-te dentro de um carro e fugir para as montanhas o mais rápido possível.
- E porque não faz isso?
- Tu nunca gostou de montanhas.

Presença-não-Presença
Incrível como sua presença me faz bem, não física, presença-não-presença. Pois se estou sentado a essa hora escrevendo é para ti e apenas para ti. Cada texto que produzo é teu e apenas teu. Tento me convencer de que isso é besteira, de que no fundo produzo mais para mim do que para qualquer outra coisa, ou pessoa, ou coisa, que na verdade o texto pertence mesmo ao mundo e que daqui a pouco esqueci quem era o ti a quem pertenciam as palavras. Mas sei que passe o tempo que for, te reconhecerei nesta palavra e naquela linha.

Ameixas
E então ele me olhou e disse: Nada mais sensual do que uma Ameixa absolutamente madura.