lunes, junio 22, 2009

Até terça.

Passei a tarde inteira assistindo televisão. A moça do filme da tarde hoje tem uns olhos lindos. Sempre fui apaixonado por olhos. E lábios. E cabelos. Pele nunca me chamou muito a atenção. Também nunca me importei com as roupas, essas coisas. Nem com o que elas pensam. Desde que tenham belos olhos, belos lábios e belos cabelos. Ou pelo menos duas dessas coisas. Hoje o telefone tocou insistentemente e eu não atendi. Não tenho mais paciência pra falar com ninguém. Não hoje. Amanhã talvez. Deixe recado após o sinal. Preciso dormir, santo deus, preciso dormir o dia todo e aproveitar que é domingo. Ainda não consegui dormir, nem sei se vou conseguir se eu não tentar. Se eu tomei muito café? Nada mais do que o normal, umas seis xícaras, mas isso o dia todo, da manhã em diante. De tarde foram duas, mas a última já faz tempo, não deve ser isso. É, insônia tem algo a ver com culpa sim. Ansioso demais, eu sei. Não fumei muito, tinha poucos cigarros e preguiça de sair. Se eu to me cuidando? Claro que não. Ta, eu falo isso assim porque tem certo charme, mas até que to. Me alimentei, almocei e daqui a pouco eu janto, sobrou um pouco do almoço. A senhora não faz a menor idéia do que ta falando, eu sou muito responsável com o que quero. O problema é aquelas coisas chatas, sabe? Claro que sabe. A senhora tem problema com gente chata? Todo mundo tem. Todo mundo tem problema com todo mundo. As pessoas hoje em dia são péssimas, ninguém se importa com ninguém. Nem eu. Ainda bem que a senhora se importa comigo. Eu não me importo com a senhora. Eu não me importo com ninguém. Eu sei que eu já disse isso, mas é que foi com outras palavras. Tu acha que é orgulho. Eu acho que é cansaço. Eu acho que tudo melhora se eu conseguir dormir. A senhora que ir dormir? Tem que trabalhar amanhã? Eu entendo. É que falar com a senhora me dá sono.
Então ta. Até terça.

sábado, junio 20, 2009

Bolero

Esperança é o que não me falta. Me falta é um pouco de ânimo.

- Vou sair pra tomar um ar, caminhar por aí, pelas pedras, até o mar.

Parece uma música. Um sambinha antigo. Não tem mar nessa cidade.

- Quer que eu traga alguma coisa da rua?

- Ânimo.

- Trago um Marlboro maço. E whisky.

Ela sentou em uma das cadeiras de almofadas verde musgo que ficavam na cozinha, como se estivesse cega, tateou até encontrar alguns pincéis e rabiscou nos azulejos formas abstratas: decepção. Ela acendeu um cigarro e tragou leve, a fumaça cinza azulada dançou no ar, como a bailarina que ela nunca foi. Se eu pudesse escolher não seria só forma, não seria só objeto, não seria só desejo. Eu seria a Ana Cristina César, eu me apaixonaria pela Ana Cristina César. Queria dobrar o corpo todo, em posição fetal até que a cabeça se encontrasse no meio de suas pernas, o máximo que pudesse, sempre gostou de fazer isso, desde criança, se sentia protegida, se sente protegida. Depois pensou que se fizesse isso, e ele chegasse no momento em que ela tivesse fazendo isso, se sentiria meio ridícula. Então apagou o cigarro e molhou as samambaias, deu comida aos gatos, esquentou um pouco de água pra fazer um chá, desligou o fogão porque lembrou que ele traria whisky, e hoje é sábado, que se dane, eu vou ficar bêbada e vou dançar bolero de calcinha no meio da calçada abraçada à garrafa e cantando: besamebesamemuchocomosefosselanochedaultimavez. Com seu péssimo sotaque de falsa argentina até vomitar toda sua vida imbecil e monótona.

Deu um pulo, foi até a gaveta do armário, encostou o cano do revólver na cabeça e disparou no exato momento em que ele girou a maçaneta trazendo o cigarro e o whisky. Sua vida passando na frente dos seus olhos como um filme. Um péssimo filme. Não daria nem dez minutos.

Mas ela lembrou que eles nunca tiveram uma arma em casa. E mesmo que tivessem, ela não se mataria. Esperança tem de sobra, o que lhe falta é ânimo. E é preciso muito ânimo pra se matar.

Deu um beijo no seu marido, buscou um copo com gelo, acendeu mais um cigarro.

- Eu queria ter sido bailarina, sabia?

- Eu queria ter sido bombeiro, ou policial, ou malabarista.

Sentaram no sofá e viram televisão até à hora de dormir.

- Nunca gostei muito de bolero mesmo.

Mulher de Quase Trinta

Ele lhe prometeu um poema. Ela sempre quis ganhar um poema. Junto com uma rosa vermelha, bem brega, recitado ao luar, acompanhado de um violão, ela na janela de vestido rodado e tranças longas. Bem Rapunzel, bem Romeu e Julieta, mas com um final feliz.
Ela suspirou, fechou o romance que estava lendo, desligou o rádio e foi fazer uma panela de brigadeiro. Nada melhor do que uma panela de brigadeiro nesse friozinho, hein? Ela disse isso em voz alta. Pra ninguém. Depois se sentiu meio triste, meio acanhada, meio decepcionada de não ter ninguém pra dividir uma panela de brigadeiro. Dividir um filme. Dividir uma tarde. Dividir uma vida. Dividir.
É uma mulher de quase trinta, que trabalha o dia inteiro em uma empresa pública, tem um bom cargo, acha que ano que vem vai ser até supervisora, quem sabe, chefe de departamento, tem toda a chance, chega no horário, sai no horário, não faz nada que não possa ser útil à empresa. Tem um carro do ano, se veste bem, é vaidosa. Tem dinheiro na conta, só compra o necessário, é econômica. Tem curso superior, um bom papo, é inteligente. Tem amor pra dar e vender. Tem tesão acumulado.
Não tem mais esperança.

jueves, junio 18, 2009

Todos os que quiseres.

Vinho tinto combina com chocolate, e com cigarros.
Tudo combina com cigarros.
Pelo menos pra mim.
...
Eu tenho uma folha de manjericão no bolso, tem um cheiro ótimo.
Defuma a casa com ela, usa também arruda, guiné, espada de são jorge, aquelas pimentinhas e faltam duas.
Eu nunca lembro dessas últimas duas. O melhor chá que existe é o de jasmim.
De dama-da-noite. Cestrum noctorum. Cestrum leucocarpum, Cestrum parqui. Dama-da-noite, flor-da-noite, jasmim-da-noite, rainha-da-noite, coirana, coerana, jasmim-verde.
Ficou como naquele teu texto, o que fala sobre lavanda.
Fala sobre paixão.
Qual paixão?
Não sobre uma paixão. Sobre paixão, paixões, no plural. Todos meus textos falam sobre paixões, no plural.
A Paixão, com P. é um dos melhores temas.
Alguns falam sobre amor. Esses são pra ti.
Acontece que não tenho mais tempo, já não posso sonhar.
Acontece que não temos mais tempo, eu vou pintar um quadro pra te dar.
Eu vou usar o azul mais bonito.
Você não é o que eu sempre sonhei.
Você é o que eu sempre quis.
Não é projeção, é só e é o bastante.
É o que eu sempre quis.
Eu prometi um poema, mas a poesia nem sempre está nos versos.
...
acredite
esse é pra ti
e só pra ti,
todos os que quiseres.

martes, junio 16, 2009

Velho Elefante

Se eu tivesse alguém pra conversar não teria tanto medo.

Foi o que ele pensou quando fechou as vidraças e decidiu se preparar pra dormir, ficou só de cueca, calçou as pantufas e foi buscar um copo de água, deixou do lado da cama, superstição. Desligou a televisão e fechou os olhos, como um filme, tudo o que conseguia lembrar de sua vida, sua antiga vida, no tempo em que tinha, aquilo o que chamamos de vida, passou pela sua cabeça, como um filme, controlou a respiração, bem devagar, respiração contada, esparsa, tentando relaxar. Não conseguiu relaxar, virava de um lado pro outro, acendia cigarros nas brasas dos cigarros que iam se apagando, se espantou ao ver que só tinha mais dois, teria que sair amanhã, o que seria um sacrifício.
Na verdade nada demais aconteceria pela rua, nada demais aconteceu nos últimos anos, nada demais aconteceu a sua vida toda. Por isso decidira não procurar mais os amigos, não investir mais em nenhuma relação, não ter ninguém com quem conversar. Como os elefantes que quando ficam velhos se afastam do bando pra morrer só. Como os elefantes velhos. Mas não pra morrer, pra enlouquecer só. Era só isso que queria: enlouquecer só, e só enlouquecer.