domingo, diciembre 06, 2009

CRIME PASSIONAL

Matou ela com dois tiros na cabeça e um no coração, simbólico. Depois suicidou. Crime passional. Gente rica, bairro rico, crime rico, escândalo rico.

Duas e quarenta e sete da madrugada do dia três de setembro de mil novecentos e noventa e quatro. Ele caminha com as mãos no bolso pela avenida principal. Eu devo existir simultaneamente no futuro e no passado, o tempo é uma farsa e não faz sentido nenhum. Eu vou viajar no tempo e não entendo de moléculas. A imensidão do universo não me fascina. Se eu tivesse com ela tudo seria diferente. Não, eu não tenho um trocado. É tarde demais pra se caminhar por aí. A gente não devia ter brigado. É tudo trivialidade. São tudo pequenas coisas, e eu não sei se vão passar.
Talvez ele sinta fome ou sede, talvez ele esteja cansado e com medo, mas ele precisa fazer isso, ele precisa dormir tranqüilo. Ele sente tanta saudade quanto é possível alguém sentir saudade em uma madrugada de qualquer dia, não importa o dia. Talvez ela não sinta. Ela não é a personagem principal e seus sentimentos não entram em questão por enquanto. Porque ela ainda não apareceu e seria bobagem apressar as coisas. Porque Caio disse que o tempo existe e devora. É abstrato, mas didaticamente concreto.
Ele para por um instante pra acender um cigarro. Continua subindo a avenida e resolve correr um pouco, pra exercitar. Eu detesto exercícios e não tenho fôlego pra correr em uma lomba. Eu faria abdominais se não tivesse na rua de madrugada e não fosse um tanto quanto perigoso. Tenho aqueles pensamentos de: não me importa o que me aconteça, que me assaltem, matem, seqüestrem, façam qualquer coisa. Besteira. Tenho muito medo. É a única coisa que tenho total certeza de que tenho. To com dor nas costas e com fome. Daqui a pouco eu chego lá.
Ele continua caminhando.

Agora os sentimentos dela entram em questão: ela não sente muita coisa no momento, é tarde e tá dormindo. Amanhã acorda cedo, as seis, são três e dez. Mais duas horas e cinqüenta minutos de sono. Duas e quarenta e nove. Duas e quarenta e oito. Duas e quarenta e sete.

Três e treze da madrugada do dia três de setembro de mil novecentos e noventa e quatro. Ele caminha com as mãos no bolso pela rua da casa dela. Vou tocar a campainha e conversar. A gente vai se entender. Não quero mais brigar, não quero mais gritar, não quero mais nada dessas coisas exageradas. Eu sei que é tarde e é um exagero bater na casa dela a essa hora, mas não agüento mais. Quero resolver tudo, quero um abraço apertado, um banho quente e dormir juntinho na cama de solteiro. Acordar e fazer café da manhã.

Ele passa pelo bar da esquina e entre bêbados, mendigos e trabalhadores noturnos ele para e presta atenção na TV.

Notícia urgente: Matou ela com dois tiros na cabeça e um no coração, simbólico. Depois suicidou. Crime passional. Gente rica, bairro rico, crime rico, escândalo rico.

Essa cidade anda cada vez mais violenta.

martes, octubre 20, 2009

na cadência bonita do samba.

dia. interno. um bar com mesas e cadeiras vermelhas de ferro. iluminação fraca. uma mesa de sinuca em algum canto. nenhuma jukebox. pouca gente. quase ninguém além do dono e ele.

Ele sentado na última mesa, a mais perto do balcão, um cigarro na boca, duas bitucas no cinzeiro, uma garrafa de cerveja na frente, um olhar vazio. Camisa azul claro, calça cinza escuro, sapato preto, chapéu panamá, lágrimas de nossa senhora no pescoço.
- Mais uma, fazendo o favor.

Queria ter feito tanta coisa, queria ter sido famoso, queria ter feito algo útil, queria ter composto melhor, queria ter amado mais, queria ter escrito mais, queria ter tido menos mágoas, menos ciúmes, menos raiva, ter perdoado mais, ter sido mais alegre, mais simpático, menos ranzinza, ter visto mais filmes, ter lido mais, ter tido algum filho, um animal de estimação, ter comprado um trombone, ter aprendido a tocar trombone, ser útil pra alguém. Pelo menos uma vez.

- Traz um cigarro daqueles de dois, Seu Geraldo.

É meio-dia, o prato de hoje é: arroz, feijão, polenta frita, salada de maionese, frango assado, alface e tomate. Como não sente fome nenhuma pede mais uma cerveja, olha pra toda aquela gente comendo apressada pra dar tempo de um pequeno descanso antes de voltar ao trabalho. Se trabalhasse de forma regular teria uma aposentadoria regular. Ouviu a frase exatamente sete vezes na vida: Mãe, Pai, Primeira Namorada, Segunda Namorada, Primeira Esposa, Segunda Esposa (duas vezes). Nunca quis trabalhar de forma regular. Vida de artista nunca é regular. Dois salários mínimos não dão pra quase nada além do aluguel, conta de luz, conta de água, telefone e alimentação. Por isso e por ser um cliente fiel por mais de vinte anos, pode pendurar sua conta no bar.
- Seu Geraldo, me lembra que hoje eu vou acertar.
- Não tem precisão...

dia. interno. um bar com mesas e cadeiras vermelhas de ferro. iluminação fraca. uma mesa de sinuca em algum canto. nenhuma jukebox. pouca gente. quase ninguém além do dono e ele.

São duas da tarde e de cerveja já foram seis. Duas sinucas que jogou com o Seu Geraldo e perdeu. As duas dá um real, mas normalmente Seu Geraldo não cobra e ele não paga. Dona Eva ta de cama, gripe. Nessa idade é um horror. Já faz três dias. Febre alta, muita tosse, muco. Seu Geraldo precisa ir ao hospital fazer exame. Tem pressão alta, três remédios por dia, gasta muito dinheiro nisso. Não pode deixar o bar sozinho.
- Eu cuido, meu velho, amigo é pra isso. Quando voltar me lembra que hoje eu vou acertar.
- Não tem precisão...
Ele cuida. Cuida do bar até as seis quando Seu Geraldo volta. Novo que é uma beleza, cantando um velho samba pro velho amigo na mesa do bar.
- Foram mais duas cervejas, Seu Geraldo.
- Essas nem precisa anotar, é o pagamento do favor.

dia. interno. uma sala pequena com um sofá verde velho e duas cadeiras de madeira e palha. uma lâmpada amarelada. duas pessoas sentadas. uma em frente a outra.

- Quando eu morrer quero ser enterrado com uma camisa azul claro, calça cinza escuro, sapato preto, chapéu panamá e lágrimas de nossa senhora no pescoço.

início da noite. interno. um bar com mesas e cadeiras vermelhas de ferro. iluminação fraca. uma mesa de sinuca em algum canto. nenhuma jukebox. pouca gente. quase ninguém além do dono e ele.

Um travesti de batom vermelho borrado e dois rapazes entram no bar. Ela senta no colo de um deles. Pedem uma cerveja. Ela ri alto e canta com voz esganiçada:

- ...quero morrer, numa batucada de bamba, na cadência bonita do samba
.
Seu Geraldo acompanha batucando em uma caixinha de fósforo. Seu Geraldo gosta muito de samba antigo. Principalmente samba antigo e triste. Ele também gosta, mas não tem tanta vontade de cantar assim, só acompanha com o pé direito. Acende um cigarro. O travesti pede fogo. Pisca e diz que cobra barato. Ele não gosta disso, acha decadente, deprimente e uma vergonha que alguém tenha que se submeter a isso pra sobreviver. Mas acha lindo que ela ainda possa rir e cantar. Mesmo em um bar com luz fraca e sem nenhuma elegância. Mesmo acompanhada de dois mulatos com braço forte e voz firme que a pagam em cerveja. Ou não pagam nada. Ou são só amigos e isso é um pré-julgamento dele. Nem no fim da vida estamos livres dos pré-julgamentos. É o que ele pensa enquanto a noite começa.

fim da noite. interno. um bar com mesas e cadeiras vermelhas de ferro. iluminação fraca. uma mesa de sinuca em algum canto. nenhuma jukebox. pouca gente. quase ninguém além do dono e ele.

Entra um rapaz com cavaquinho, um com um violão, um com um pandeiro e um com um tamborim. Hoje tem roda de samba e mocotó. Tem rodada de cachaça artesanal por conta da casa e tem felicidade que não é temporária por mais que só dure até o dia amanhecer.
O travesti pede pra tocar aquela da cadência bonita do samba. Seu Geraldo acompanha batucando em uma caixinha de fósforo. Ele só acompanha com o pé direito.

- Traz mais uma, fazendo o favor. E manda uma pra cada um do bar.

O pessoal bate palma e agradece, convida ele pra chegar mais perto, pegar um instrumento.

Queria ter comprado um trombone. Queria ter aprendido a tocar trombone.

Ele agradece, mas prefere ficar sentado ali de longe pra apreciar melhor a nova geração. Acende o último cigarro da noite.

meia noite. interno. um bar com mesas e cadeiras vermelhas de ferro. iluminação fraca. uma mesa de sinuca em algum canto. nenhuma jukebox. pouca gente. quase ninguém além do dono e ele.

Os rapazes que estavam com o travesti vão jogar uma partida de sinuca. O samba corre e é emcaçapada a primeira bolinha. O pandeiro dança o cavaquinho chora o violão geme e o jogo continua. O tamborim avisa o samba breca e a bola oito entra na caçapa.
Ele apaga o último cigarro da noite.
Seu Geraldo tem um ataque cardíaco fulminante atrás do balcão.
Não foi hoje que ele acertou a conta. Só se ouve a batida grave e seca do surdo que não existiu.

sábado, septiembre 12, 2009

oãskepsortmi

cachaça em taça de vinho

não tem o mesmo gosto.

eu não agüento essa falta de senso

do último sucesso do rei na novela das oito,

que passa as dez.

chove muito na rua

eu tenho um cobertor quente

e algo pra beber.

acho que detesto música italiana.

o barulho dos pingos

tem mais ritmo do que muita gente.

a platéia não quer que ela vá embora

eu não tenho mais paciência

e acho que detesto música italiana.

...

eu sempre tenho segundas intenções

de qualquer jeito

nunca é o que você está pensando

eu queria uma gravata amarela

e é odut selpmis siamed

arp res odidmerpmok.

eu não sei falar nenhuma outra língua

e queria me chamar topázio.

...

Jade

verde oriental maravilhosa

é alemã gorda e com sardas

lê o futuro em pedras preciosas

talvez o destino não exista.

...

Ela queria que ele estivesse aqui, mas já faz tempo que ele foi embora. Ele morreu em 1988.

Na verdade ele nunca existiu. Nem eu.

...

Dois de fevereiro é dia de Iemanjá: Janaína minha sereia me leva pro fundo do mar. Me deixa lá. Como Netuno. Sereia Iara Boto. Azul marinho não tem cor de mar. Nem o celeste tem cor de céu. Mas eu não me importo com o céu.

Rosas brancas vestido azul miçanga cristal.

Dança bonita a ciranda e se afoga.

Dança bonita a ciranda e se afoga.

lunes, junio 22, 2009

Até terça.

Passei a tarde inteira assistindo televisão. A moça do filme da tarde hoje tem uns olhos lindos. Sempre fui apaixonado por olhos. E lábios. E cabelos. Pele nunca me chamou muito a atenção. Também nunca me importei com as roupas, essas coisas. Nem com o que elas pensam. Desde que tenham belos olhos, belos lábios e belos cabelos. Ou pelo menos duas dessas coisas. Hoje o telefone tocou insistentemente e eu não atendi. Não tenho mais paciência pra falar com ninguém. Não hoje. Amanhã talvez. Deixe recado após o sinal. Preciso dormir, santo deus, preciso dormir o dia todo e aproveitar que é domingo. Ainda não consegui dormir, nem sei se vou conseguir se eu não tentar. Se eu tomei muito café? Nada mais do que o normal, umas seis xícaras, mas isso o dia todo, da manhã em diante. De tarde foram duas, mas a última já faz tempo, não deve ser isso. É, insônia tem algo a ver com culpa sim. Ansioso demais, eu sei. Não fumei muito, tinha poucos cigarros e preguiça de sair. Se eu to me cuidando? Claro que não. Ta, eu falo isso assim porque tem certo charme, mas até que to. Me alimentei, almocei e daqui a pouco eu janto, sobrou um pouco do almoço. A senhora não faz a menor idéia do que ta falando, eu sou muito responsável com o que quero. O problema é aquelas coisas chatas, sabe? Claro que sabe. A senhora tem problema com gente chata? Todo mundo tem. Todo mundo tem problema com todo mundo. As pessoas hoje em dia são péssimas, ninguém se importa com ninguém. Nem eu. Ainda bem que a senhora se importa comigo. Eu não me importo com a senhora. Eu não me importo com ninguém. Eu sei que eu já disse isso, mas é que foi com outras palavras. Tu acha que é orgulho. Eu acho que é cansaço. Eu acho que tudo melhora se eu conseguir dormir. A senhora que ir dormir? Tem que trabalhar amanhã? Eu entendo. É que falar com a senhora me dá sono.
Então ta. Até terça.

sábado, junio 20, 2009

Bolero

Esperança é o que não me falta. Me falta é um pouco de ânimo.

- Vou sair pra tomar um ar, caminhar por aí, pelas pedras, até o mar.

Parece uma música. Um sambinha antigo. Não tem mar nessa cidade.

- Quer que eu traga alguma coisa da rua?

- Ânimo.

- Trago um Marlboro maço. E whisky.

Ela sentou em uma das cadeiras de almofadas verde musgo que ficavam na cozinha, como se estivesse cega, tateou até encontrar alguns pincéis e rabiscou nos azulejos formas abstratas: decepção. Ela acendeu um cigarro e tragou leve, a fumaça cinza azulada dançou no ar, como a bailarina que ela nunca foi. Se eu pudesse escolher não seria só forma, não seria só objeto, não seria só desejo. Eu seria a Ana Cristina César, eu me apaixonaria pela Ana Cristina César. Queria dobrar o corpo todo, em posição fetal até que a cabeça se encontrasse no meio de suas pernas, o máximo que pudesse, sempre gostou de fazer isso, desde criança, se sentia protegida, se sente protegida. Depois pensou que se fizesse isso, e ele chegasse no momento em que ela tivesse fazendo isso, se sentiria meio ridícula. Então apagou o cigarro e molhou as samambaias, deu comida aos gatos, esquentou um pouco de água pra fazer um chá, desligou o fogão porque lembrou que ele traria whisky, e hoje é sábado, que se dane, eu vou ficar bêbada e vou dançar bolero de calcinha no meio da calçada abraçada à garrafa e cantando: besamebesamemuchocomosefosselanochedaultimavez. Com seu péssimo sotaque de falsa argentina até vomitar toda sua vida imbecil e monótona.

Deu um pulo, foi até a gaveta do armário, encostou o cano do revólver na cabeça e disparou no exato momento em que ele girou a maçaneta trazendo o cigarro e o whisky. Sua vida passando na frente dos seus olhos como um filme. Um péssimo filme. Não daria nem dez minutos.

Mas ela lembrou que eles nunca tiveram uma arma em casa. E mesmo que tivessem, ela não se mataria. Esperança tem de sobra, o que lhe falta é ânimo. E é preciso muito ânimo pra se matar.

Deu um beijo no seu marido, buscou um copo com gelo, acendeu mais um cigarro.

- Eu queria ter sido bailarina, sabia?

- Eu queria ter sido bombeiro, ou policial, ou malabarista.

Sentaram no sofá e viram televisão até à hora de dormir.

- Nunca gostei muito de bolero mesmo.

Mulher de Quase Trinta

Ele lhe prometeu um poema. Ela sempre quis ganhar um poema. Junto com uma rosa vermelha, bem brega, recitado ao luar, acompanhado de um violão, ela na janela de vestido rodado e tranças longas. Bem Rapunzel, bem Romeu e Julieta, mas com um final feliz.
Ela suspirou, fechou o romance que estava lendo, desligou o rádio e foi fazer uma panela de brigadeiro. Nada melhor do que uma panela de brigadeiro nesse friozinho, hein? Ela disse isso em voz alta. Pra ninguém. Depois se sentiu meio triste, meio acanhada, meio decepcionada de não ter ninguém pra dividir uma panela de brigadeiro. Dividir um filme. Dividir uma tarde. Dividir uma vida. Dividir.
É uma mulher de quase trinta, que trabalha o dia inteiro em uma empresa pública, tem um bom cargo, acha que ano que vem vai ser até supervisora, quem sabe, chefe de departamento, tem toda a chance, chega no horário, sai no horário, não faz nada que não possa ser útil à empresa. Tem um carro do ano, se veste bem, é vaidosa. Tem dinheiro na conta, só compra o necessário, é econômica. Tem curso superior, um bom papo, é inteligente. Tem amor pra dar e vender. Tem tesão acumulado.
Não tem mais esperança.

jueves, junio 18, 2009

Todos os que quiseres.

Vinho tinto combina com chocolate, e com cigarros.
Tudo combina com cigarros.
Pelo menos pra mim.
...
Eu tenho uma folha de manjericão no bolso, tem um cheiro ótimo.
Defuma a casa com ela, usa também arruda, guiné, espada de são jorge, aquelas pimentinhas e faltam duas.
Eu nunca lembro dessas últimas duas. O melhor chá que existe é o de jasmim.
De dama-da-noite. Cestrum noctorum. Cestrum leucocarpum, Cestrum parqui. Dama-da-noite, flor-da-noite, jasmim-da-noite, rainha-da-noite, coirana, coerana, jasmim-verde.
Ficou como naquele teu texto, o que fala sobre lavanda.
Fala sobre paixão.
Qual paixão?
Não sobre uma paixão. Sobre paixão, paixões, no plural. Todos meus textos falam sobre paixões, no plural.
A Paixão, com P. é um dos melhores temas.
Alguns falam sobre amor. Esses são pra ti.
Acontece que não tenho mais tempo, já não posso sonhar.
Acontece que não temos mais tempo, eu vou pintar um quadro pra te dar.
Eu vou usar o azul mais bonito.
Você não é o que eu sempre sonhei.
Você é o que eu sempre quis.
Não é projeção, é só e é o bastante.
É o que eu sempre quis.
Eu prometi um poema, mas a poesia nem sempre está nos versos.
...
acredite
esse é pra ti
e só pra ti,
todos os que quiseres.

martes, junio 16, 2009

Velho Elefante

Se eu tivesse alguém pra conversar não teria tanto medo.

Foi o que ele pensou quando fechou as vidraças e decidiu se preparar pra dormir, ficou só de cueca, calçou as pantufas e foi buscar um copo de água, deixou do lado da cama, superstição. Desligou a televisão e fechou os olhos, como um filme, tudo o que conseguia lembrar de sua vida, sua antiga vida, no tempo em que tinha, aquilo o que chamamos de vida, passou pela sua cabeça, como um filme, controlou a respiração, bem devagar, respiração contada, esparsa, tentando relaxar. Não conseguiu relaxar, virava de um lado pro outro, acendia cigarros nas brasas dos cigarros que iam se apagando, se espantou ao ver que só tinha mais dois, teria que sair amanhã, o que seria um sacrifício.
Na verdade nada demais aconteceria pela rua, nada demais aconteceu nos últimos anos, nada demais aconteceu a sua vida toda. Por isso decidira não procurar mais os amigos, não investir mais em nenhuma relação, não ter ninguém com quem conversar. Como os elefantes que quando ficam velhos se afastam do bando pra morrer só. Como os elefantes velhos. Mas não pra morrer, pra enlouquecer só. Era só isso que queria: enlouquecer só, e só enlouquecer.

martes, mayo 12, 2009

dia de Oxum

Em um quartinho no fundo da casa eles se beijam, a mão dele sobe suavemente pelos cabelos dela, ela tira os colares, ele tira a camisa.
Desabotoa a calça, levanta a saia.
Suor. Suspiros. Gemidos.
Quase urros.
O último toque de atabaque ecoa.
É Sábado, amanhã é dia de descanso, fecha os olhos, meu bem.
- O belo às vezes também cansa.
Ela disse, se olhou no espelho, fechou os olhos e dormiu.

Ele volta pra casa, os últimos três cigarros no bolso do paletó, as mãos encolhidas no peito, o chapéu quase voando. O frio da manhã cortando a cara como navalha. De repente chuva, chuva fininha, garoa. Tudo o que ele quer é chegar, tomar seu café quente, deitar em suas cobertas e dormir o dia inteiro, sonhando com a noite que recém passou. Mas não pode, mal vai chegar e só vai dar tempo de tomar um café, café velho esquentado no fogão. Não sobra tempo pro banho, nem pro beijo nos filhos.
Passa uma água na cara e vai trabalhar.

domingo, marzo 29, 2009

Primeiro dia.

- Num momento se pode transpor imensas distâncias, rei, quando esse momento vem preparado... Também eu te garanto que também tu não tens muito tempo diante de ti. Mas numa hora, num minuto, num segundo, podes andar mais que em toda a vida. Até esse instante, a minha obra está no começo: Tudo pode ser deitado a perder... O teu sofrimento é de barro... não presta! O que em ti sofre é o teu orgulho, a tua vaidade, a tua dignidade, a tua futilidade, a tua humanidade mesquinha. O que te dilacera é a opinião do mundo. Respeitas a sua vileza e temes os seus juízos.
Ora isto quando a Glória te chama, rei dos cegos! Como queres que eu esteja satisfeito?

JACOB E O ANJO – JOSÉ RÉGIO




Fiquei tonto quando o conto acabou e o piano ainda tocava, acendi um cigarro e mais um e mais um e mais um atrás do outro até que a tontura passasse e eu pudesse começar a escrever.

Passei dois dias inteiros deitado, imóvel em posição fetal esperando uma ligação uma batida na porta um contato qualquer. Não acontece nada. Levanto, com fome, me sirvo de duas colheres do mais doce que acho, como o mínimo possível, até passar a necessidade. Não tenho desejo nenhum, tudo me parece igual e de fato o é.

Não tenho mais a paciência que tinha antes. Antes, quando ela recém entrava aqui, quando tudo era lindo e eterno, depois foi apodrecendo aos poucos, até ela sentir nojo, e se tornar só meu, minha posse, o que não quero nem posso jogar fora.

Acreditei em tudo, acreditei que podia ter uma espécie de felicidade, uma espécie de sentimento qualquer, uma espécie de desaparecimento dessa angústia tão forte, que é só. É só o que existe. É só no que existo. Esse nó na garganta.

Depois ela foi embora, foi tudo embora, perdi essa esperança que havia adquirido e perdi minha maneira de encarar o mundo: imperfeita, cruel, cheia de mágoas, mas confortante. Foi aprendendo a fazer coisas que desaprendi por completo a gritar, e sinto essa falta.

Se tivesse álcool beberia quantas garrafas agüentasse, até vomitar toda essa angústia, embora saiba que vomitarei tudo ao que ela circunda, e ela permanecerá lá, intacta.

Foi numa noite de sexta que tudo chegou ao fim. Embora teimes em não aceitar e com frases subjetivas tentes explicar que na verdade não é bem assim que eu só vejo as coisas retas e românticas. É assim que acontece. O fim é o fim, o início não existe mais e o meio é só o que quero lembrar. O que não entendes é que não consigo e que tudo que faço ainda permanece lá. Tudo que penso ainda permanece lá. Eu ainda permaneço lá. E só me sinto inteiro assim. É uma falta intensa, imensa, que sempre senti. E que tinha, tinha passado por um momento, me sentia maior, me sentia melhor. Não me sentia mais indefeso. E agora é tudo isso, mas sete vezes pior.

Meio artístico, como uma névoa de tinta cinza manchando o chão.

Ainda não consigo começar a escrever com clareza.

Fumo um cigarro atípico apático à vida que em volta passa passo junto com ela e nada passará.

Fumo um cigarro atípico apático à vida que em volta passa passo junto com ela e nada passará.

Fumo um cigarro atípico apático à vida que em volta passa passo junto com ela e nada passará.


martes, febrero 03, 2009

esperança

Saio e fumo pelo maior tempo possível. Caminho pela grama molhada com cheiro de terra e inverno e vou até o lago sujo de peixes mortos. Apago o cigarro e volto. Me tranco no escritório e olho para os relatórios até que eles não façam mais sentido nenhum, se transformem assim, em uma massa qualquer de mofo cinza-esverdeado. E então saio pra almoçar, subo a ladeira de pedras até o refeitório. E gosto de subir assim, silenciosa, cabisbaixa, chutando alguma coisa e relembrando: alguma passagem de um livro, algum trecho de música, algum amor antigo, algum ódio contido, algum sentimento forte.
Vou me sentindo como as pedras. Secando após a chuva, oca e cinza, por dentro, e por fora.
...
Uma violeta no meio das pedras. Alguma esperança, talvez.

martes, enero 13, 2009

umsambinhaporaqui

ganzá flechou
tambor ecoou
água de cheiro banhou
é proteção
saiu, no samba sambou
e tomou, garrafa de cachaça
voltou pra casa
e destratou
o carinho
de quem amava
(acordou)
foi pra mata mais fechada
procurar seu orixá
entrou no mar
quase afogou
pra falar com iemanjá
pra pedir
pra rainha do mar
pro seu amor voltar
iemanjá mandou
falar com preto velho
preto velho falou: nem exu dá jeito
o que você fez, não se faz
maltratar assim, já é demais