jueves, abril 24, 2008

Como atravessar uma manhã de sábado.

As manhãs de sábado são sempre frias, embora muitas vezes, sem vento. Fico sempre esperando por uma ligação ou uma batida na porta ou um toque na campainha. Um sinal qualquer. Tenho sempre a opção de: botar músicas antigas, ligar a televisão, o computador, abrir um livro e esperar passar. Ou deitar embaixo do cobertor procurar por cheiros gostos toques sensações que me lembrem outros cheiros gostos toques sensações escondidos na memória ou no corpo, ou quem sabe na memória do corpo. Ou fazer um bule de café bem quente e tomar olhando a rua.

Foi quando lembrei que há mais ou menos uns dez anos atrás adquiri a mania de no final de cada namoro mandar lavar e desinfetar as roupas de cama pra não ter, não ter de jeito nenhum, como alguma memória, olfativa, despertar. E as outras memórias não tem taanta graça assim sem o cheiro, então era melhor desistir de deitar embaixo do cobertor. E isso me deu uma tristeza, porque aquela manhã de sábado, mais do que as outras, aquela, especialmente aquela, me sentia tão nostálgico. Então me lembrei das roupas no armário, mas daí lembrei também que aquele último me veio com roupas tão bonitas e foi isso que despertou em mim aquele sentimento e peguei tanto nojo das roupas, mesmo as minhas, que pra não as por no fogo, as mandei junto com as roupas de cama pra lavar e desinfetar. Então desisti. A primeira opção era melhor. Decidi. Olhei a pilha de discos, mas ninguém ouve mais discos, agora é CD, agora é mp3, é USB. Nem eu ouço, eles tão ali só pra decoração, mas hoje eu tava tão nostálgico mesmo. Só que eu lembrei que eu tinha vendido a minha vitrola mês passado, porque eu tava desempregado e duro e não tinha nem café em casa. E isso me deu uma tristeza, porque aquela manhã tudo o que eu queria era ser nostálgico.

Restou a última opção: fazer um bule de café bem quente e tomar olhando a rua. Tão sem graça, mas tão sem graça. Só que era só o que sobrava, então tudo bem, quem sabe o café, ou a rua, me trouxesse recordações, afinal, o café, ou a rua, os dois, tem cheiro e cheiro leva a outras coisas e embora no fim seja tudo tato, pra mim, ou pelo menos, naquele dia pra mim, tudo dependia do cheiro. Então fui fazer meu café, contente, por pelo menos ter solucionado o que fazer na minha manhã de sábado. E só quando abri o armário que lembrei que tinha acabado todo o pó de café que havia conseguido comprar com o dinheiro da venda da vitrola.

Foi a partir daí que comecei a chorar. Chorei porque havia visto minha manhã de sábado, fria como qualquer manhã de sábado, desabar bem na minha cara, como uma bofetada. Só o que me sobrou foi a solidão, foi a espera de uma ligação ou uma batida na porta ou um toque na campainha. Um sinal qualquer. Foi a companhia do que eu queria fugir.

E enquanto eu chorava, e a manhã já se tornava tarde, o telefone tocou. Alguém bateu na porta. A campainha tocou. E tocou. E tocou.

jueves, abril 17, 2008

Por Favor

Acho que gosto de me sentir sujo quando me sinto triste. De deixar jorrar de dentro de mim toda essa sujeira. Como se a sujeira fosse o que me faz assim. Depois de tudo só o que sinto é vontade de fumar.

Queria que tu tivesse aqui pra eu te mostrar como meu quarto novo ta bonito. Tem um monte de coisa bonita colada. Bem do jeito que tu me ensinou. Tem um monte de quadros e fitas e um chapéu. Tudo que eu olho tem tua alma colada. Tenho medo que tu nuca mais esteja aqui. Então vou ter que descolar tudo.

E vou dormir. Vou dormir trinta e oito horas seguidas. Por que é isso que eu faço pra fugir dos problemas. Espero que tu passe aqui um dia. Passa aqui. Um dia.

lunes, abril 07, 2008

QUATRO

O LUGAR

Não lembro como nem quando viemos parar aqui, mas talvez a pergunta certa fosse por que. São quatro casas, cada uma com quatro peças, cada peça com quatro paredes. Um banheiro, uma cozinha e duas peças vazias, espécies de sala-quarto, quarto-sala. Em cada casa habitam quatro pessoas e a única ligação que as quatro pessoas de uma casa têm com as quatro de outra, são as sombras. Grandes sombras longas que se projetam nas grandes paredes de vidro que forram uma das quatro paredes das salas-quarto.
Como ninguém havia se visto antes, no princípio, era confuso: foram quatro dias sem ninguém falar uma palavra. Quatro dias de silêncio cortado apenas por um ruído aqui e outro ali, de galhos balançando no quintal que nenhuma das dezesseis pessoas conhecia ou sabia que existia. No começo os ruídos assustavam, mas ninguém falava nada, todos se contorciam dentro de si e evitavam ao máximo qualquer contato com os outros. Todos fechavam os olhos, mesmo sem saber se os outros fechavam também, porque pode ser perigoso o que se transmite através do olhar, e ninguém queria transmitir medo, nem nada.
E então o silêncio foi rompido com uma pessoa se lançando contra a janela de vidro, uma de cada casa. Quatro estrondos simultâneos que formavam um só estrondo. Uma massa sonora rompendo o silêncio quase eterno de quatro dias.
Nenhuma parede se quebrou, mas dali em diante as pessoas levantaram, foram ao banheiro, à cozinha, aos quartos. Caminharam, comeram, beberam, fumaram, normalmente, ainda que em silêncio.

CONTATO

Ele perguntou o nome da outra pessoa, mas ela não respondeu. No momento o que importava era manter certo contato, qualquer. O que importava, e era o que ele pensava, era armar uma estratégia pra eles poderem escapar daquela prisão, se é que era uma prisão. Porque não me respondem? Gritou.
Estamos com medo. Ela respondeu
Olhando mais atentamente, agora ele percebeu: eram dois homens, ele e mais um, e duas mulheres. Uma das mulheres tinha um rosto conhecido, mas ele não reconheceu. Reconheceu nela um sentimento, e é provável que ela também tenha reconhecido, pois se abraçaram e permaneceram abraçados em silêncio, se protegendo.

DIÁLOGO

Tem comida o suficiente.

Não, nós precisamos economizar.

Não sabemos quanto tempo, não temos nenhuma pista.

Cigarros têm pouco.

Tem pouca bebida também. Eu preciso beber.

Pelo menos vocês estão falando.

Tínhamos medo de vocês não nos aceitarem.

Estamos na mesma condição. Precisamos nos aceitar.

Os vínculos. As duplas. Já existiam antes. Eu acho. Eu senti a ligação. Precisamos nos ligar os quatro. Só assim sairemos vivos. Só assim sairemos.

Os outros podem nos ouvir. Deles ainda tenho medo.

Vem cá. Me abraça. Abraça ele também. E ela.

Me dá mais um cigarro.

Eles são inimigos.

Eles são inimigos?

CONFORTO

Não lembro como nem quando viemos parar aqui, mas talvez a pergunta certa fosse por que. Porque era preciso. Uma delas disse. Por que era preciso.
Talvez nem existam outras três casas. Lembram das sombras? Talvez tudo seja reflexo. Talvez eles também sejam nós. Ou talvez eles não sejam eles – sejam simplesmente, nós.
Mas precisavam tirar as dúvidas, precisavam descobrir o que havia além da parede vidro, então:

os quatro foram até a parede
e com pouquíssima força a levantaram
encontraram o quintal
e sem dizer uma palavra novamente
se separaram.


Agora nada é mais é confuso. Tudo é claro.
Agora eram livres, mas a ligação vai sempre permanecer, e além da ligação vai permanecer a dúvida: de que serve ser livre? Talvez fosse melhor ficar lá dentro, afinal, já tinham se
acostumado.