jueves, junio 15, 2006

Alfazema, lavanda, lavândula, nardo, espicanardo. Do Latim, Lavare.

“...O batuque que desarma, o Baque é minha alma, a Alfazema que exala, é quem manda na sala. Sou do meio Eu Sou do Xangô, no Terreiro, aliado do tambor, que vai contra o sorriso da dor, brincando no tempo opressor...”

OGAN DI BELÊ: TOCA OGAN (NAÇÃO ZUMBI)

O cheiro de Alfazema invade o lugar e as paredes branco/sujo da memória, perfuma lembranças sem cor, sem perfume, sem graça, atemporais. Lembranças estúpidas e sujas que enchem minha memória como se quisessem me dizer algo, como se quisessem que eu sentisse algo, mas não me faziam sentir absolutamente nada, nem tristeza, nem alegria, nem medo, talvez, e muito talvez, um pouco de nojo por serem tão sem graça e apelativas, malditas lembranças apelativas. E a mente girava procurando resposta para alguma pergunta que não havia sido feita, ainda, a mente girava em torno de árvores silvestres, música alta, camisa azulacinzentado, boina francesa, moça bonita, cabelo engraçado, árvores silvestres, cheiro de alfazema.
E foi quando finalmente, sentei ao lado dela, ela, a moça bonita da boina francesa, sem o cabelo engraçado.
Licença... Oi, desculpa, senta, passa, sabe como é, um monte de coisa, tô meio atrapalhada... Tudo bem, tudo bem, e sentei. Ela tirou a boina, eu olhei com o canto do olho, seu cabelo encaracolado era lindo, seu olhar era lindo e seu sorriso, idem. Seu cheiro era suave e misturava-se com o cheiro da Alfazema que exalava sabe-se-lá daonde, suas unhas eram bem feitas, sua bolsa combinava perfeitamente com a roupa. Trazia consigo também um violão, que tomava o maior cuidado para que não batesse, e o violão era lindo, quero dizer, a capa dele era, marrom, combinava perfeitamente com a sua roupa, com o seu cabelo, com as suas unhas, com o seu cheiro e com o seu olhar. Era uma explosão de cores, cheiros, mais cores, tudo simetricamente alinhado e belo (também suave).
“Alfazema que exala, é quem manda na sala...” esse pedaço da música soava na minha cabeça, se metia no meio de lembranças antigas (sem cor, sem perfume, agora com) lembranças novas e frescas como morangos silvestres, se metia no meio da sensação de desejo e angústia, uma ótima angústia, e um péssimo desejo quase incontrolável, mas o cérebro ainda não decodificara o desejo e por isso a angústia. Eu imagino que seja desejo meramente carnal, sempre é, ou desejo de passar a mão sobre aqueles cabelos encaracolados descer até o pescoço beijar suavemente a face morder perto da boca com ternura e enfim beijar: um encontro incansável de duas línguas, muitos dentes e milhões de gotas de saliva. Mas a verdade é que no momento a Alfazema se misturava com o ciúme, sim, eu estava sentindo ciúme, e muito. Há quanto tempo não sentia isso? Doía na altura do peito, subia e descia da garganta, palpitava e quebrava por dentro pedindo para sair. Eu estava inquieto, era notável.
A culpa é toda daquela foto, eu tentava me explicar, toda. Olhei a foto por dez segundos e foi o suficiente para passar de sensação de riso ao ciúme intenso, no meio teve o nojo e o sentimento de fracasso, e claro, o cheiro da Alfazema -que passava pela minha memória e puxava por fim, a maldita foto- eu conhecia aquele olhar, olhar de prazer, de satisfação, de aprovação, aquele sorriso de: ‘quero aparecer bonita na foto mesmo com os cabelosdessejeito’ aquele cabelo desse jeito, aquela falta de cigarros... O que eu não conhecia era a mão pousando sobre o peito nu e cheio de pêlos grossos (ela que sempre fora tão higiênica) aquele pescoço com aparência desagradável que se encontrava com aquela cara, e a palavra apropriada era realmente cara, aquela cara gorda e gordurosa, talvez até limpa, mas com uma aparência suja e gordurosa, aquela cara estrábica de sobrancelhas grossas que se encontram entre os olhos, ou melhor, uma sobrancelha apenas, grande e grossa (ela que sempre fora tão higiênica).
E o maldito cheiro da Alfazema cumpriu o seu objetivo, puxou na memória a maldita foto. Diurética, expectorante, sedativa, antiinflamatória, sudorífica, antiespasmódica, anti-séptica, cicatrizante e colagoga.
Acalma os nervos. Alivia falta de urina, doenças de baço, cãibras, gota, inapetência, insolação, fraqueza, vômitos, hipocondria, falta de regras, insolação, vômitos. Bom para digestão, dores reumáticas, tosses e resfriados, cistites e inflamações das vias urinárias, facilita a produção e eliminação da bile, combate enxaqueca. Gargarejo com decoração das flores alivia a dor de dente.
Rodoviária mais próxima, ninguém subiu no ônibus, ela levantou e disse um tchau sonoro e lindo que também combinava com a sua roupa, veio acompanhado de um sorriso, levantou e sentou na poltrona ao lado que estava reservada para alguém que não subiu no ônibus, sentou, a olhei, sorriu e adormeceu.
Finalmente entendi de onde vinha o cheiro da Alfazema, ele vinha de dentro de mim e não invadia lugar algum, a não ser as paredes branco/sujo da memória numa dança louca de cheiros/cores/sensações e lembranças. Vinha de dentro de mim e existia para mim, me perfumava e só a mim. Mas não acalmava os nervos, isso quem fazia era ela, essa era sua função. Me apaixonei por seus cabelos, seu sorriso, suas unhas e sua impiedosa capacidade de me acalmar. A apelidei de: alfazema, não é um apelido bonito, eu sei, mas exalava.

lunes, junio 12, 2006

Menina

Vem
Deita aqui
Esquece, é cedo ainda
Menina, se for embora
Agora sinta mais um pouco
Me afasto
Te deixo pensando
Menina, o dia
Amanhã vai brilhar de novo
Mas quem sabe?
Aproveita
Me aquece, é cedo ainda.
Vem
Senta aqui
Me dá a tua mão menina
Mania, de querer fingir
Come, cospe
Lençóis manchados
Amassados, pisados, cortados
No leito
Me mastiga por dentro
E por fora, engasga
Morde, meu peito
E aproveita
Que está tão azul
O momento.