viernes, diciembre 15, 2006

Medo

Sentia-se constrangido, sem ação que lhe fosse plausível de reciprocidade (olha para os lados acuado em seus próprios olhares e sorrisos e trejeitos). Ela foi embora tão cedo que nem puderam despedir-se direito, foi assim, um até breve rápido, um até logo breve, carregado de educação e sem nenhum pingo de sentimentalismo. Pelo menos aparente. Ou seria um misto de vergonha com medo de negação? Fuga. Falta de tato para perceber o momento adequado, o momento certo, o momento esperado. Ou não existiria um momento esperado?
Existem duas possibilidades aparentes em um mar de possibilidades: Ou tudo não passa de imaginação dele – quem sabe dela – ou realmente aconteceu: A rispidez aparente é apenas constrangimento misturado com ética e bons costumes. Desejavam os dois a mesma coisa e faziam-se de cegos mudos surdos tetraplégicos para fugir da situação?
Olhavam-se quando sabiam que o alvo do olhar não estava reparando. Embora os dois olhassem, embora os dois desejassem a mesma coisa. Eram iguais nesse sentido – podiam, mas sentiam medo –
Suava e sentia-se ridículo, sem palavras para desculpar-se para si mesmo.
Sabia que isso aconteceria. Sempre soube. Desde o momento do cumprimento inicial, desde antes. Desde antes de conhecê-la. Porque não era a primeira, e não iria ser a última.
Promete a si mesmo que essa foi a última vez, que da próxima vez vai ser diferente. O medo não o faria abandonar o desejo.
Volta para casa nervoso, mas satisfeito. Olha para os lados acuado em seus próprios olhares e sorrisos e trejeitos.

sábado, diciembre 09, 2006

Dez minutos Sete sorrisos e Nenhum cigarro. (Parte I)

vii

Acorda suando, joga longe as cobertas, passa a mão no rosto para limpar o suor, procura calmamente pelos óculos. Os pés encontram o chão gelado, o corpo encontra um banho quente. Mal acordou, ainda é muito cedo, a mente se divide entre pensamentos triviais e lembranças dos sonhos sonhados naquela noite quente, ou fria? Dorme com frio, acorda sem. Sempre assim: Ela chega, o encontra, fala algo, sorrisos e cigarros... Aí às vezes vem o beijo, outras vezes vem o despertador. Esqueceu de passar o café antes de entrar no banho, passa depois, calmo, tem todo o tempo do mundo. Toma o café também calmo, enquanto se veste, procura as meias, procura os sapatos, derrama um pouco de café em sua camisa, joga em um canto e veste outra. Derramou porque aquele olhar ofuscou em sua memória, aquele nome ecoou, esqueceu de tudo, entregou-se aos pensamentos e tropeçou. Fuma um cigarro olhando pela janela... “Deixe o sol bater, deixe a luz entrar”. O cigarro queima lentamente. Joga o cigarro pela janela, passa a mão pelos cabelos, fecha o vidro e procura as chaves. Pacientemente abre a porta. E sai.

Se sente aflito e envergonhado. Não sabe como agir, nunca soube, nunca, sempre... Ela chega, e está bonita, como sempre, sorrisos e cigarros, gargalham, as gargalhadas se misturam com o som do despertador, os olhos dela se confundem com os raios de sol que entram pela janela. Corre para pegar o ônibus, é desajeitado correndo. Pega a fichinha, entrega ao cobrador levantando suavemente a cabeça, passa pela roleta e senta no banco mais escondido possível.

viii

Observa quem está a sua volta no ônibus: uma moça sonolenta, uma senhora franzina, um senhor-de-boina-bege e lá pela frente, falando com o cobrador, um homem gordo e suado, de camisa de manga curta e gravata, e bigode, e pasta marrom. O cobrador finge simpatia, mas espera ansioso pela próxima parada. Ele olha pela janela e procura alguma beleza na cidade, o ônibus dobra na Ipiranga, crianças pedem dinheiro na sinaleira, outras crianças brincam quase que dentro do arroio, se distrai olhando para as crianças...

O ônibus já saiu da Ipiranga, mais uns minutos e ele chega ao centro. Um galho bate na janela aberta algumas folhas caem sobre ele. Se sente incomodado, e enjoado daquele balanço suave do ônibus. Não devia ter sentado em cima da roda, mas agora já está sentado, não vai levantar, sente vergonha. Põe a cara na janela para pegar um vento e passar o enjôo. A tontura. A náusea. A vergonha. Quer descer logo e acender um cigarro.

O ônibus chega ao centro, faz a curva saindo da Borges e entrando na Salgado, ele se levanta rápido, o mais rápido possível. Desce e acende um cigarro. Sobe a Borges, uma quadra, entra em um boteco conhecido.

Um cafezinho.

ix

Paga o café. Duas moedas caem, uma de dez e outra de cinqüenta centavos. As recolhe do chão. Pede uma bala, com o troco. A moeda de dez cai de novo, vai para baixo do balcão, difícil de pegar. O isqueiro, por favor. Acende outro cigarro. Sai do bar e desce a Borges calmamente, desvia de algo sujo no chão, desvia de pessoas, bate em pessoas. Sorri um sorriso, como um sorriso-de-desculpas. Um sorriso foge do outro lado da rua, é um sorriso bonito, sorrisos bonitos o fazem lembrar: Ela chega... Chega e sai logo, tinham cigarros? Ou eram apenas sorrisos? Nunca são apenas sorrisos. Tropeçou, mas ninguém viu, se sente envergonhado do mesmo jeito. Arruma a mochila e dobra na Rua da Praia. Continua caminhando, olha algumas banquinhas de artesanato, ela fica bem com esse tipo de colar, senhores jogando damas na praça, engraxates engraxando sapatos, o Quintana e o Érico ali em um banco jogando conversa fora. Pombos. Muitos deles, catando migalhas. Já está quase na Casa de Cultura, bela e rosa. Rosada.

x

Anabelle acorda sonolenta, tira suavemente as cobertas de cima de si, calça os chinelos que estão ao pé da cama. Vai até o banheiro, lava o rosto, calmamente, a água gelada pela manhã encontrando sua pele. É desagradável e agradável ao mesmo tempo. Enxuga o rosto com a toalha que está ali pendurada e em um caminhar arrastado se dirige até a cozinha. Um copo de água mineral, com gás. Volta até o quarto, tira o pijama, um pijama de moletom, azul, um azul clarinho, a calça um pouco mais clara do que a blusa. A blusa com estampas de flores e borboletas, desenhadas, quase que como abstratas. Começa tirando a calça, sente frio e treme. Depois tira a blusa, já está acostumada com o frio. Pega uma toalha do armário, limpa, com cheiro de amaciante, e entra no banho. Um banho quente e arrastado, a água quente pela manhã encontrando sua pele...

Ensaboa-se calma e linda, linda e calma, linda. O banheiro se enche de fumaça.

Ele desce as escadas da Casa de Cultura um pouco apressado, um pouco nervoso, um pouco apreensivo. Passa a mão pelos cabelos. Desabotoa o primeiro botão da camisa. Abotoa o primeiro botão da camisa. Passa a mão pelos cabelos. Olha para os lados, para trás, para frente e segue descendo. Está quase no térreo, quase na rua, falta apenas mais um lance de escada. Sai. Entra em um bar, tropeça em uma cadeira que estava na porta, nervoso, apreensivo. Pensa em pedir um café. Desiste. Vai apenas ao banheiro e se olha no espelho.

A imagem refletida é calma, o deixa com sono. Arruma os óculos, ela chega – Oi, tudo bem? – Oi, que surpresa. As lembranças vêm confusas, se misturam com o barulho da torneira pingando na pia de louça. Uma nuvem passa, sorrisos e cigarros... Vem a vontade de fumar. Apalpa os bolsos, não acha. Sorrisos. Sorri para o espelho e tenta fechar a maldita torneira que não pára de pingar. Abre a torneira e joga um pouco de água no rosto. Não consegue fechar a torneira, ele está cada vez mais nervoso. Alguém bate na porta, passaram-se apenas dez minutos sete sorrisos e nenhum cigarro. Ele acorda. Não, ele não estava dormindo. As lembranças vêm confusas. Olha para trás, tem um relógio. Olha as horas e abre a porta.

martes, diciembre 05, 2006

Cinco anos ou cinco minutos

Póstumo
Fez o que queria de mim, nunca desconfiei. Mas levando em consideração o fascínio que ela exercia sobre mim, terminei feliz. Tinha um olhar doce e dissimulado ao mesmo tempo, entende? Um olhar equilibrado. E era equilibrada não só no olhar, mas em todas as atitudes, nas roupas, nos acessórios. Elegante, até demais.
Ninguém segurava o cigarro como ela. Em todas as milhares de fotos que tinha dela, ela estava segurando um cigarro.
E eu olhava as fotos dela por horas, todos os dias. A obsessão não tem limites.

7 de Julho de 1996 – 03:40am
Ele dormia feito uma criança quando acordara de súbito no início da madrugada, mais precisamente duas horas; acabara de perder o sono. Levantou-se e foi até a cozinha buscar algo para beber, pois sua boca estava seca, pensou em um copo d’água como era de costume, mas sentiu uma incrível vontade de beber um cálice de vinho, obedecendo à suas tentações serviu o cálice e voltou para o quarto.
Analisava a fotografia e entre um cálice e outro lembrava que já havia bebido demais, vestiu-se de súbito e em um impulso de sobriedade lembrou de levar um casaco.
Caminhava com cautela, a madrugada vazia e fria dava uma estranha sensação de prazer...de solidão. De prazerosa solidão. Não havia ninguém com ele a não ser os seus pensamentos, os seus desejos, seus sonhos.
Passavam alguns mendigos e alguns cachorros, mas não falavam, não agiam, passavam. Eram apenas figurantes.
Misturava-se aos mendigos e aos cachorros em uma tentativa desesperada de ser um figurante, de camuflar-se. Havia um bar aberto ainda? Havia um bar aberto ainda, e era onde ele iria parar.
Ela estava na outra mesa. Fumando e bebendo. Era provocante. Tinha algo de cinismo misturado com luxuria em seu olhar (tudo muito irônico)

Cinco anos ou cinco minutos depois
Tiraste conclusões precipitadas sobre minha pessoa, jamais conhecerá criatura tão doce e delicada quanto essa que vos fala. Conheceste-me em um momento um tanto quanto simplório de minha existência, estava eu, embriagada.

15 de Novembro de 2006
Ele pisca compulsivamente olhando para os lados e passando a mão nos cabelos.

- Que houve Renato?
- Você anda tão fria comigo, ontem, hoje, ultimamente...
- Passa a manteiga...
- Não evite o assunto.
- (silêncio) Nosso filho, tô preocupada...
- Que tem ele?
- Ele, ahn...ele só vê desenho e come cereais, o dia todo!
- Ora... Ele tem seis anos, é próprio da idade
- (sorrisos) Sabe Renato, quem sabe deveríamos ser mais rígidos com o guri, aquelas coisas todas, sem refrigerante e balinhas nos dias de semana, apenas uma hora de desenho por dia, essas coisas...
- Não funcionaria, meu bem. Estamos velhos, sabe, meus cabelos estão brancos, minha barriga tá crescendo, não dá mais pra ficar se preocupando com besteiras como a educação dos filhos. E depois, a televisão hoje em dia educa pela gente, confio nela. Você inventa problemas demais.
- Renato, eu tô te traindo.
- Me passa a manteiga...

03:45
As melhores coisas acontecem quando menos esperamos. Quando já desistimos de tudo e não temos mais pretensões nenhuma.
Resolveu ir ao banheiro. Ela levantou. Esbarraram. Então ela disse: tudo bem.
Ela era linda. Encheu-se de coragem e falou: tudo bem não, te pago uma bebida pra me desculpar.
Ela disse que estava atrasada. Ele disse que ela não tinha escolha.
Ela estava sendo receptiva, porque não tentar? Tu é linda, sabia? – ele disse.
Eu tenho namorado, sabia? – ela disse.
E então ele disse: tudo bem. Beijaram-se calmamente enquanto o garçom entregava as bebidas. Desencadeou-se, a partir daí, um romance que durou mais ou menos cinco anos, ou cinco minutos, dependendo do ponto de vista.

16 de Novembro de 2006
Domingo ensolarado. Quatro horas da tarde. Atravessava a Avenida João Pessoa para encontrar seus amigos no parque da Redenção. Sirenes. Gritos de o que aconteceu? (Sangue espalhado pelo asfalto).