viernes, diciembre 15, 2006

Medo

Sentia-se constrangido, sem ação que lhe fosse plausível de reciprocidade (olha para os lados acuado em seus próprios olhares e sorrisos e trejeitos). Ela foi embora tão cedo que nem puderam despedir-se direito, foi assim, um até breve rápido, um até logo breve, carregado de educação e sem nenhum pingo de sentimentalismo. Pelo menos aparente. Ou seria um misto de vergonha com medo de negação? Fuga. Falta de tato para perceber o momento adequado, o momento certo, o momento esperado. Ou não existiria um momento esperado?
Existem duas possibilidades aparentes em um mar de possibilidades: Ou tudo não passa de imaginação dele – quem sabe dela – ou realmente aconteceu: A rispidez aparente é apenas constrangimento misturado com ética e bons costumes. Desejavam os dois a mesma coisa e faziam-se de cegos mudos surdos tetraplégicos para fugir da situação?
Olhavam-se quando sabiam que o alvo do olhar não estava reparando. Embora os dois olhassem, embora os dois desejassem a mesma coisa. Eram iguais nesse sentido – podiam, mas sentiam medo –
Suava e sentia-se ridículo, sem palavras para desculpar-se para si mesmo.
Sabia que isso aconteceria. Sempre soube. Desde o momento do cumprimento inicial, desde antes. Desde antes de conhecê-la. Porque não era a primeira, e não iria ser a última.
Promete a si mesmo que essa foi a última vez, que da próxima vez vai ser diferente. O medo não o faria abandonar o desejo.
Volta para casa nervoso, mas satisfeito. Olha para os lados acuado em seus próprios olhares e sorrisos e trejeitos.

sábado, diciembre 09, 2006

Dez minutos Sete sorrisos e Nenhum cigarro. (Parte I)

vii

Acorda suando, joga longe as cobertas, passa a mão no rosto para limpar o suor, procura calmamente pelos óculos. Os pés encontram o chão gelado, o corpo encontra um banho quente. Mal acordou, ainda é muito cedo, a mente se divide entre pensamentos triviais e lembranças dos sonhos sonhados naquela noite quente, ou fria? Dorme com frio, acorda sem. Sempre assim: Ela chega, o encontra, fala algo, sorrisos e cigarros... Aí às vezes vem o beijo, outras vezes vem o despertador. Esqueceu de passar o café antes de entrar no banho, passa depois, calmo, tem todo o tempo do mundo. Toma o café também calmo, enquanto se veste, procura as meias, procura os sapatos, derrama um pouco de café em sua camisa, joga em um canto e veste outra. Derramou porque aquele olhar ofuscou em sua memória, aquele nome ecoou, esqueceu de tudo, entregou-se aos pensamentos e tropeçou. Fuma um cigarro olhando pela janela... “Deixe o sol bater, deixe a luz entrar”. O cigarro queima lentamente. Joga o cigarro pela janela, passa a mão pelos cabelos, fecha o vidro e procura as chaves. Pacientemente abre a porta. E sai.

Se sente aflito e envergonhado. Não sabe como agir, nunca soube, nunca, sempre... Ela chega, e está bonita, como sempre, sorrisos e cigarros, gargalham, as gargalhadas se misturam com o som do despertador, os olhos dela se confundem com os raios de sol que entram pela janela. Corre para pegar o ônibus, é desajeitado correndo. Pega a fichinha, entrega ao cobrador levantando suavemente a cabeça, passa pela roleta e senta no banco mais escondido possível.

viii

Observa quem está a sua volta no ônibus: uma moça sonolenta, uma senhora franzina, um senhor-de-boina-bege e lá pela frente, falando com o cobrador, um homem gordo e suado, de camisa de manga curta e gravata, e bigode, e pasta marrom. O cobrador finge simpatia, mas espera ansioso pela próxima parada. Ele olha pela janela e procura alguma beleza na cidade, o ônibus dobra na Ipiranga, crianças pedem dinheiro na sinaleira, outras crianças brincam quase que dentro do arroio, se distrai olhando para as crianças...

O ônibus já saiu da Ipiranga, mais uns minutos e ele chega ao centro. Um galho bate na janela aberta algumas folhas caem sobre ele. Se sente incomodado, e enjoado daquele balanço suave do ônibus. Não devia ter sentado em cima da roda, mas agora já está sentado, não vai levantar, sente vergonha. Põe a cara na janela para pegar um vento e passar o enjôo. A tontura. A náusea. A vergonha. Quer descer logo e acender um cigarro.

O ônibus chega ao centro, faz a curva saindo da Borges e entrando na Salgado, ele se levanta rápido, o mais rápido possível. Desce e acende um cigarro. Sobe a Borges, uma quadra, entra em um boteco conhecido.

Um cafezinho.

ix

Paga o café. Duas moedas caem, uma de dez e outra de cinqüenta centavos. As recolhe do chão. Pede uma bala, com o troco. A moeda de dez cai de novo, vai para baixo do balcão, difícil de pegar. O isqueiro, por favor. Acende outro cigarro. Sai do bar e desce a Borges calmamente, desvia de algo sujo no chão, desvia de pessoas, bate em pessoas. Sorri um sorriso, como um sorriso-de-desculpas. Um sorriso foge do outro lado da rua, é um sorriso bonito, sorrisos bonitos o fazem lembrar: Ela chega... Chega e sai logo, tinham cigarros? Ou eram apenas sorrisos? Nunca são apenas sorrisos. Tropeçou, mas ninguém viu, se sente envergonhado do mesmo jeito. Arruma a mochila e dobra na Rua da Praia. Continua caminhando, olha algumas banquinhas de artesanato, ela fica bem com esse tipo de colar, senhores jogando damas na praça, engraxates engraxando sapatos, o Quintana e o Érico ali em um banco jogando conversa fora. Pombos. Muitos deles, catando migalhas. Já está quase na Casa de Cultura, bela e rosa. Rosada.

x

Anabelle acorda sonolenta, tira suavemente as cobertas de cima de si, calça os chinelos que estão ao pé da cama. Vai até o banheiro, lava o rosto, calmamente, a água gelada pela manhã encontrando sua pele. É desagradável e agradável ao mesmo tempo. Enxuga o rosto com a toalha que está ali pendurada e em um caminhar arrastado se dirige até a cozinha. Um copo de água mineral, com gás. Volta até o quarto, tira o pijama, um pijama de moletom, azul, um azul clarinho, a calça um pouco mais clara do que a blusa. A blusa com estampas de flores e borboletas, desenhadas, quase que como abstratas. Começa tirando a calça, sente frio e treme. Depois tira a blusa, já está acostumada com o frio. Pega uma toalha do armário, limpa, com cheiro de amaciante, e entra no banho. Um banho quente e arrastado, a água quente pela manhã encontrando sua pele...

Ensaboa-se calma e linda, linda e calma, linda. O banheiro se enche de fumaça.

Ele desce as escadas da Casa de Cultura um pouco apressado, um pouco nervoso, um pouco apreensivo. Passa a mão pelos cabelos. Desabotoa o primeiro botão da camisa. Abotoa o primeiro botão da camisa. Passa a mão pelos cabelos. Olha para os lados, para trás, para frente e segue descendo. Está quase no térreo, quase na rua, falta apenas mais um lance de escada. Sai. Entra em um bar, tropeça em uma cadeira que estava na porta, nervoso, apreensivo. Pensa em pedir um café. Desiste. Vai apenas ao banheiro e se olha no espelho.

A imagem refletida é calma, o deixa com sono. Arruma os óculos, ela chega – Oi, tudo bem? – Oi, que surpresa. As lembranças vêm confusas, se misturam com o barulho da torneira pingando na pia de louça. Uma nuvem passa, sorrisos e cigarros... Vem a vontade de fumar. Apalpa os bolsos, não acha. Sorrisos. Sorri para o espelho e tenta fechar a maldita torneira que não pára de pingar. Abre a torneira e joga um pouco de água no rosto. Não consegue fechar a torneira, ele está cada vez mais nervoso. Alguém bate na porta, passaram-se apenas dez minutos sete sorrisos e nenhum cigarro. Ele acorda. Não, ele não estava dormindo. As lembranças vêm confusas. Olha para trás, tem um relógio. Olha as horas e abre a porta.

martes, diciembre 05, 2006

Cinco anos ou cinco minutos

Póstumo
Fez o que queria de mim, nunca desconfiei. Mas levando em consideração o fascínio que ela exercia sobre mim, terminei feliz. Tinha um olhar doce e dissimulado ao mesmo tempo, entende? Um olhar equilibrado. E era equilibrada não só no olhar, mas em todas as atitudes, nas roupas, nos acessórios. Elegante, até demais.
Ninguém segurava o cigarro como ela. Em todas as milhares de fotos que tinha dela, ela estava segurando um cigarro.
E eu olhava as fotos dela por horas, todos os dias. A obsessão não tem limites.

7 de Julho de 1996 – 03:40am
Ele dormia feito uma criança quando acordara de súbito no início da madrugada, mais precisamente duas horas; acabara de perder o sono. Levantou-se e foi até a cozinha buscar algo para beber, pois sua boca estava seca, pensou em um copo d’água como era de costume, mas sentiu uma incrível vontade de beber um cálice de vinho, obedecendo à suas tentações serviu o cálice e voltou para o quarto.
Analisava a fotografia e entre um cálice e outro lembrava que já havia bebido demais, vestiu-se de súbito e em um impulso de sobriedade lembrou de levar um casaco.
Caminhava com cautela, a madrugada vazia e fria dava uma estranha sensação de prazer...de solidão. De prazerosa solidão. Não havia ninguém com ele a não ser os seus pensamentos, os seus desejos, seus sonhos.
Passavam alguns mendigos e alguns cachorros, mas não falavam, não agiam, passavam. Eram apenas figurantes.
Misturava-se aos mendigos e aos cachorros em uma tentativa desesperada de ser um figurante, de camuflar-se. Havia um bar aberto ainda? Havia um bar aberto ainda, e era onde ele iria parar.
Ela estava na outra mesa. Fumando e bebendo. Era provocante. Tinha algo de cinismo misturado com luxuria em seu olhar (tudo muito irônico)

Cinco anos ou cinco minutos depois
Tiraste conclusões precipitadas sobre minha pessoa, jamais conhecerá criatura tão doce e delicada quanto essa que vos fala. Conheceste-me em um momento um tanto quanto simplório de minha existência, estava eu, embriagada.

15 de Novembro de 2006
Ele pisca compulsivamente olhando para os lados e passando a mão nos cabelos.

- Que houve Renato?
- Você anda tão fria comigo, ontem, hoje, ultimamente...
- Passa a manteiga...
- Não evite o assunto.
- (silêncio) Nosso filho, tô preocupada...
- Que tem ele?
- Ele, ahn...ele só vê desenho e come cereais, o dia todo!
- Ora... Ele tem seis anos, é próprio da idade
- (sorrisos) Sabe Renato, quem sabe deveríamos ser mais rígidos com o guri, aquelas coisas todas, sem refrigerante e balinhas nos dias de semana, apenas uma hora de desenho por dia, essas coisas...
- Não funcionaria, meu bem. Estamos velhos, sabe, meus cabelos estão brancos, minha barriga tá crescendo, não dá mais pra ficar se preocupando com besteiras como a educação dos filhos. E depois, a televisão hoje em dia educa pela gente, confio nela. Você inventa problemas demais.
- Renato, eu tô te traindo.
- Me passa a manteiga...

03:45
As melhores coisas acontecem quando menos esperamos. Quando já desistimos de tudo e não temos mais pretensões nenhuma.
Resolveu ir ao banheiro. Ela levantou. Esbarraram. Então ela disse: tudo bem.
Ela era linda. Encheu-se de coragem e falou: tudo bem não, te pago uma bebida pra me desculpar.
Ela disse que estava atrasada. Ele disse que ela não tinha escolha.
Ela estava sendo receptiva, porque não tentar? Tu é linda, sabia? – ele disse.
Eu tenho namorado, sabia? – ela disse.
E então ele disse: tudo bem. Beijaram-se calmamente enquanto o garçom entregava as bebidas. Desencadeou-se, a partir daí, um romance que durou mais ou menos cinco anos, ou cinco minutos, dependendo do ponto de vista.

16 de Novembro de 2006
Domingo ensolarado. Quatro horas da tarde. Atravessava a Avenida João Pessoa para encontrar seus amigos no parque da Redenção. Sirenes. Gritos de o que aconteceu? (Sangue espalhado pelo asfalto).

lunes, noviembre 20, 2006

Silêncio

Entendo como,
Quem
Não entende.
Já passou da minha hora de dormir,
mas estou aqui na frente
chorando para não rir.
Entende como,
É difícil entendê-la?
Um dia Sol, outro Chuva.
Põe os lençóis novos na cama
Deita-te sobre meu peito
Demora-te
Doa-te
Dói? Suspire
Respire,
(silêncio)
E agora o beijo.

martes, noviembre 14, 2006

Ana chorava por dentro da chuva.

Ana caminhava por dentro da chuva. Seu corpo exalava à Cachaça e Paixão baratas. Cambaleava apoiando-se em postes e marquises. Olhava para trás e sentia-se enojada, enojada de tudo aquilo, enojada de seus sonhos de sua Cachaça de suas paixões de canções e de Natália. Queria fugir de tudo aquilo. Queria estar longe de tudo e todos, deitar-se na grama a contar estrelas, conversar sobre a vida. Terminar com a vida talvez. Trancar-se no chuveiro e disparar uma arma contra a sua cabeça, contra a sua vontade, contra seus sonhos.
Ana cambaleava por dentro da chuva. Procurava apoio em quem passava, mas ninguém passava e seu corpo estava pesado, sua cabeça estava pesada. Ana sentou-se na calçada e chorou. Nervosa. Sinos ecoavam dentro de sua cabeça, arranhavam seu cérebro puxavam de dentro todas as suas aflições

Não sinto mais nada por ti, entenda. Não quero mais teus braços, não quero mais teu colo. Quero fingir que ainda posso gostar de ti, mas entenda, não funciona assim. Não, não é que conheci outra pessoa, entenda Natália, o problema é comigo, apenas comigo. Preciso de um tempo, preciso buscar novos ares, novas paixões. Não. Pára. Não grita. Não quebra. Escuta, quer saber? Simplesmente cansei. Saturou, uma hora satura! Não quero mais. Não quero. Não. Entenda...


Ana caía por dentro da chuva. Seu corpo ainda exalava à Cachaça e Paixão baratas, mas seu corpo e sua cabeça não estavam mais pesados. Ana levantou-se da calçada ainda tonta, encharcada pela chuva e chorou. Aliviada.


lunes, octubre 30, 2006

A Última Tragada

Estou com saudade dela. Não falo com ela há dois dias. Mentira, um. Falei com ela ontem, mas falei muito pouco. Não sei como ela está, não sei onde ela está. Não sei o que ela sente ou pensa, embora mesmo quando fale com ela não saiba o que ela pensa ou sente. Sei apenas o que ela quer que eu saiba sobre o que ela pensa ou sente. E ela sente-se bem assim: mentindo. E eu sinto-me bem assim. Mentindo também, pois a mentira em determinado ponto é saudável, faz-me feliz com o que penso e sinto sobre ela. Faz-me feliz com o que penso sobre o que ela sente, e pensa, de mim.
-
Suava embaixo de cobertas e espirrava constantemente. Revirava-se na cama procurando dormir, mas não conseguia. Odiava estar gripado, na verdade, adorava estar gripado. É, adorava. Mas forçava-se a odiar, porque ninguém gostava, ou dizia que gostava. Mas achava bom, achava bom estar doente. Febre calafrios suor excessivo tosse seca dores musculares e articulares fadiga mal-estar dor de cabeça nariz obstruído irritação na garganta. O suficiente para os outros terem pena, o suficiente para deitar e descansar por horas e horas e horas. O suficiente para ele mesmo sentir pena de si. Mas uma boa pena.
A dor na garganta o irritava, porque o chá, quando descia pela garganta, causava um estranho mal-estar. Esquentava muito mais água do que precisava para o chá, quente, vermelho. Descia pela garganta, fazia mal e fazia bem. Ao mesmo tempo. Como ela. Bem e Mal. Duas-mesma coisa, duas faces da mesma moeda. Doença e saúde, preto e branco, amor e ódio, doença e saúde. Ensopava a camisa com suor e não sabia o que era sonho e o que era realidade.
-
Um parque, grama verde e vasta. O céu estava azul. Algumas poucas pessoas conversavam e algumas poucas crianças brincavam ao redor.
Ela, estatura média, morena, pele clara, sorriso lindo, olhos negros, olhar calmo, meigo, indirecto. Ele, alto, magro, moreno, pele clara, sorriso tímido, olhos negros, olhar perdido.
Encontram-se. Beijam-se calmamente, mas ao mesmo tempo, voluptuosamente. O céu adquire um tom alaranjado.
Deitam-se na grama.
-
Fumava desesperado entre as paredes de seu quarto em um gesto violento abriu as janelas e arrancou os primeiros botões da camisa. Entre as ruínas de sua vida sentia-se acuado, como um prisioneiro. Sem saída do seu cárcere particular de imaginação, de projeção, de sentimentos dotados de uma impossível realização futura, mas que ao mesmo tempo, eram dotados de um prazer atemporal enquanto condição de apenas-sentimentos.
Deitado em sua cama dava a última tragada em seu cigarro. O prazer agora inundava-o e enchia-o de vida.

viernes, octubre 13, 2006

Cansada

Ela cogitava a possibilidade, nunca antes havia cogitado a possibilidade de sequer, cogitar a possibilidade, mas, hoje, ela cogitava: a possibilidade em si.
Fazia um calor chato no meio do inverno, com vento, mas abafado, doía no rosto, doía nos olhos, era como se estivesse no meio de um deserto, mas com frio.
Ligou, ligou e ninguém atendeu, tomou banho, deitou, tomou café, ligou novamente, ele atendeu. Não. A palavra ecoava, amanhã quem sabe...
Justo agora que ela cogitava a possibilidade. Decidiu: ‘De ontem em diante nunca mais vou perder nenhuma possibilidade’. Perdera duas ontem.
Doía no rosto, doía nos olhos - vento de emoções e devaneios - simplesmente doía.
Saiu de casa, sozinha, caminhou, correu, subiu no ônibus, acabou a pilha, vontade de vomitar, maldita vontade de vomitar. Caminhava no centro sozinha e seus lábios rachados doíam, caminhava no centro sozinha e olhava para os lados com fúria como se procurasse alguém.
Foi aí - depois de não encontrar ninguém – que hoje ela iria variar, iria perder a vergonha para poder ganhar de novo e se orgulhar dela de novo, como a primeira vez, hoje ela iria se sentir dona de si mesma, nem que fosse por simples segundos. Não existe pecado, não existe erro, não existe verdade, é tudo questão de ponto-de-vista é tudo questão, pura questão, de interpretação.
Caminhou, subiu a ladeira correndo, desceu correndo no outro sentido, cantarolou alguma canção, dançou por entre os carros, dançou por entre o próprio cérebro, no cérebro ecoavam palavras de comando: Não, Sim, Sobe, Desce, Deita, Rola.
(sentia-se uma cadela, mas uma cadela feliz)
Sentou no cordão da calçada para descansar, retomou a vergonha e cansou:

Não é a pessoa que eu esperava. Nunca é a pessoa que eu espero. Tenho desistido das pessoas ultimamente, principalmente da minha pessoa, estou cansada. Cansada de ser orgulhosa, cansada de ser prepotente, cansada de ser pretensiosa, cansada de ser. Estou cansada de pensar demais, porque eu penso demais, e penso tanto que não consigo me expressar direito, e embora seja sincera, estou sempre mentindo. A imaginação é mais rápida que o pensamento, mais rápida do que as palavras, mais rápida do que a fala. Estou cansada de imaginar demais, de projetar demais.
Cansada de me cansar demais.



miércoles, septiembre 20, 2006

Deixai cair em tentação

Se entregue ao sentimento
Sem medo de errar
Só há culpa em lamento
Se a obsessão for menor
Mas se há obsessão,
Também já não existe medida
- Deixai cair em tentação.
Por acaso é errado?
O sol se põe
E o laranja
Que te queima a alma
Também te enche de culpa
Mas se existe vontade
Não tem certo ou errado
Só o momento é verdade
E se é de desejos que vivemos
Alguns mais, outros menos
Apenas uma coisa é certa:
Não há tempo para pensar.

lunes, agosto 28, 2006

Harmonia

Foi a pouco custo e muito gosto, que comprara um sítiozinho pros lados da Serra, lá, bem afastado e gelado, com mata nativa de metros e metros de pinheiros, com um lugarzinho para plantar o que comia, e um laguinho. Rodeava isso tudo, o casebre que ficava bem no início, para sobrar bastante pátio. Casa modesta, porém aconchegante, com fogão-à-lenha para esquentar nos dias de frio mais rigorosos, com rede para deitar-se à pensar.
E deitado no pelego que servia de tapete à sala, rodeava os pensamentos a noite toda, e agora, ao amanhecer, ainda não havia conseguido pregar os olhos. Um candeeiro alumiava a sala larga e comprida, com biblioteca modesta, porém sincera. Cascas de pinhão pelo chão. E enrolava-se no pelego que servia ao mesmo tempo de tapete-cama-coberta, pois usava pouca roupa, e sempre usava pouca roupa. Quando usava. Escolhera aquela vida, aquela sala, por sim, deixando de lado o conforto da cidade para encontrar-se, mas por certo já havia, e por isso havia decidido deixar de lado o conforto da cidade. Dedicar-se apenas ao que lhe satisfazia. Dedicar-se a Harmonia que vinha de dentro para fora, e não de fora para dentro. Sem artifícios. Sem dores/prazeres/necessidades. E vivia feliz, a fabricar com barro a plantar a comer o essencial a escrever sob a luz do candeeiro, deitado na rede. Mas vinha a noite atormentá-lo. Não que tivesse medo do escuro ou do silêncio, talvez do silêncio... é que quando a crise criativa o assolava, sentia medo, medo como estava sentindo agora, rodeando os pensamentos, agora ao amanhecer, se é que já não havia amanhecido.
Era medo de sentir-se só, não fisicamente, pois isso já o era, e isso escolhera, mas de sentir que ninguém o compreendia, nem ele próprio compreendia-se, olhava-se no espelho e o espelho lhe refletia a própria alma: sozinha e vazia.
Pois então saiu a caminhar pelo pátio, desviando de árvores e animais que passavam por ali, deitando-se de vez em quando para ver se parava de doer-lhe as costas, levantando-se de novo, as vezes correndo as vezes caminhando as vezes gritando as vezes sussurrando. Foi-se até onde podia, e quando não agüentava mais, agüentou mais um pouco o caminho da volta. A cabeça doía e o corpo cansava. Rodeavam-lhe árvores falantes e cavalos voadores. A cabeça cansava e o corpo doía.
Já havia amanhecido há algumas boas horas, já fazia-lhe falta o café quente e amargo de costume, quem sabe a crise havia passado? – Ou não. Ou não havia crise?
Mas agora não sentia mais medo, acabou-se o silêncio, apagara o candeeiro. Apagara a solidão.
Não precisa de nada. Já não tinha mais frio, já não tinha mais fome, nem o café queria agora. Já não tinha mais nada. Não tinha. Não.

E encontrando enfim a Harmonia, a de dentro para fora, subiu ao penhasco mais alto que havia por ali, e atirou-se.

jueves, agosto 10, 2006

Volúpia

“Teu seio é vaga dourada/Ao tíbio clarão da lua/Que ao murmúrio das volúpias/Arqueja, palpita nua/Como é doce, em pensamento/Do teu colo no languor/Vogar, naufragar, perder-se/O Gondoleiro do amor!?”
Castro Alves


Queria eu, e queria com intensa e pulsante vontade, apalpar e acariciar e beijar e morder os seus seios. Queria vê-la, com os lindos redondos atraentes seios à mostra.
Sei que falo assim, com conotação erótica, e até um tanto vulgar, mas acredite, é por pura paixão, pura - puríssima - vontade. Vontade de rasgar, abrir, morder. A camisa, o sutiã, o seio.
Queria eu, e queria com intensa e pulsante vontade, derramar-me sobre o seu corpo, e não derramar-me sobre a sua vida - pois sobre sua vida já havia derramado-me - queria derramar-me ali, em cima dela. A devoraria com a mesma devoção com que a devorei antes, apenas com os olhos. Com mais devoção.
Aproveitaria com intensa paixão - e talvez um intenso egoísmo - o fato consumado. Rasgaria, abriria, morderia.
E gozaria o instante, antecessor ao gozo.

sábado, julio 15, 2006

Vestido Azul

Ela passa as madrugadas em claro assistindo televisão, não levanta para comer, nem para beber, levanta, raramente, para ir ao banheiro. Ela passa as madrugadas pensando: podia ter feito isso, podia ter feito aquilo, ele podia ter feito isso, ele podia não ter feito aquilo... entende? Ela passa as madrugadas apenas pensando.
Ele passava as madrugas inquieto, assustado, suando e tentando dormir. Mas não dormia, nem ao menos cochilava, suava, levantava e ia ao banheiro, levantava e ia à cozinha. Bebia um copo de uísque, sem gelo, bebia meia garrafa de uísque, sem gelo.

Passou a mão nas suas pernas e a olhou, sorriu, olhou para o lado, disfarçou, aí depois pediu uma bebida e decidiu ir ao banheiro. Ela conversava, enquanto ele estava no banheiro, ela falava gesticulava gargalhava ou ficava estática. Ele não sabia, pois estava no banheiro, mas imaginava, era uma grande mania a sua de imaginar.
Voltando do banheiro ele sorriu mais uma vez e disse: Vamos. Aquela voz grave porém doce e abobada, entende? Uma voz com medo. Ela levantou, pagaram a conta e foram, caminhando.
Passou a mão entre seus cabelos e a olhou, sorriu, foi em direção a ela e virou o rosto, com medo. Ela entrou em casa e ele ficou ali, sem movimento que lhe fosse plausível de execução, sem palavra que lhe soasse compreensível para ser dita, ali, parado. Com aquela expressão rude, porém decepcionada. E foi aí que ele voltou, tocou no interfone e ela não quis abrir. Ligou, mas ela já estava dormindo. Decidiu então, deixar um recado, mas ela recebe muitos recados, infinitos recados diários de gente que nem ele, ou pelo menos com a mesma intenção. Ela talvez não tenha ouvido o recado, mas está gravado ainda.
O que ele não soube, é que ela estava no corredor, olhando e pensando: podia ter feito isso, podia ter feito aquilo, ele podia ter feito. E não fez. Entende? Ela ficou no corredor apenas pensando, sabe...

O Sr. Teria um cigarro? Tem água aqui, não tem? Vou beber água, estou parando de fumar, o meu tio morreu disso.
Sempre um tio que morre disso, ou daquilo.


Mas como eu ia falando... ele caminhou até a sua casa cantarolando e pulando pelas ruas, passou em um bar para comprar uísque antes de chegar, repentinamente, voltou correndo até a casa dela, deu um sorrisinho e voltou, entrou na sua. Bebeu a garrafa inteira no gargalo, suou, estava nervoso. Onde estavam os malditos gelos? Eu sei que ele perguntava isso para si mesmo, os malditos gelos. E aí, eu consegui ouvir da minha casa, o barulho foi alto.... deu mesmo para ouvir. Ele atirou a garrafa de uísque no chão que se espatifou em mil pedacinhos e bateu alguma porta, trancou-se no banheiro. Foi um puta estrondo Sr. posso falar puta? Assim, como grande, enorme, estrondoso estrondo é redundante, entende? Um puta estrondo.

E essa noite, essa noite ela também passou em claro, mas passou mais do que nunca pensando no que deveria ou não deveria ter dito, passou chorando e ouvindo os seus recados: ‘...Oi, chegou bem? Tava pensando em passar aí de novo, mas tá tarde né? Amanhã a gente se vê? Claro, nos vemos quase todos os dias... então tá né, boa noite, com os anjinhos, desculpa ligar essa hora hein, acabamos de nos despedir, tá, dorme bem...’

Mas ela acordou mais cedo do que estava acostumada, tomou um copo de leite morno com aveia, chorou no banho, mas já estava mais calma. E essa manhã ela pensava: Será que vestido azul não é claro demais para se ir a um enterro?

lunes, julio 03, 2006

Glamour

Eles não entendem, mas ela gosta é de Glamour.

Sai do banho com toda a calma do mundo, mas aparentemente, apressada, veste a mini-saia nova para combinar com a nova blusa, meias de arrastão, sapato alto, brincos, colares, pulseiras, batom, gloss, delineador e sombra. Seca o cabelo, reclama, escova os dentes, fuma um cigarro, chupa uma pastilha de hortelã e fuma um cigarro. Seca o cabelo, reclama.
E hoje ela estava linda, sentia-se linda e desejada, e hoje os rapazes a cobiçavam, e hoje passavam a mão entre as suas pernas, e hoje lhe puxavam pelos cabelos. E era bom, ela gostava. Alguém lhe pagava um drink, e ela fumava outro cigarro, bebia o drink lentamente enquanto cruzava as pernas, arrumava os cabelos e sorria, aquele maldito sorriso, acompanhado da maldita pinta embaixo da boca. E hoje ela estava linda.
Mas não bastava, gesticulava, levantava e ia ao banheiro, encontrava amigas, cumprimentava abraçava e beijava, e encontrava outro rapaz (era o maldito sorriso) e esse rapaz lhe pagava outro drink. E hoje os rapazes passavam a mão entre seus cabelos, e hoje lhe puxavam pelas pernas. E era bom, ela gostava.
E toca aquela música, e ela rebola, e sua mini-saia levanta suavemente, e seus cabelos balançam no ritmo da música, exatamente no ritmo. Ela acende outro cigarro, a música acaba.
E como de costume, mais um rapaz lhe paga um drink, mas é tarde, e ela não quer saber de drink’s, e pede uma garrafa, de whisky, bebe no gargalo e gargalha.
Os rapazes acabaram, e ninguém mais lhe puxa pelos cabelos, e muito menos pelas pernas. Ninguém mais dança com ela, e ninguém mais ri com ela, ninguém mais presta atenção no seu sorriso, e ninguém mais se importa com a sua pinta. A noite acabara, os cigarros acabaram. O Glamour, nunca existiu.

jueves, junio 15, 2006

Alfazema, lavanda, lavândula, nardo, espicanardo. Do Latim, Lavare.

“...O batuque que desarma, o Baque é minha alma, a Alfazema que exala, é quem manda na sala. Sou do meio Eu Sou do Xangô, no Terreiro, aliado do tambor, que vai contra o sorriso da dor, brincando no tempo opressor...”

OGAN DI BELÊ: TOCA OGAN (NAÇÃO ZUMBI)

O cheiro de Alfazema invade o lugar e as paredes branco/sujo da memória, perfuma lembranças sem cor, sem perfume, sem graça, atemporais. Lembranças estúpidas e sujas que enchem minha memória como se quisessem me dizer algo, como se quisessem que eu sentisse algo, mas não me faziam sentir absolutamente nada, nem tristeza, nem alegria, nem medo, talvez, e muito talvez, um pouco de nojo por serem tão sem graça e apelativas, malditas lembranças apelativas. E a mente girava procurando resposta para alguma pergunta que não havia sido feita, ainda, a mente girava em torno de árvores silvestres, música alta, camisa azulacinzentado, boina francesa, moça bonita, cabelo engraçado, árvores silvestres, cheiro de alfazema.
E foi quando finalmente, sentei ao lado dela, ela, a moça bonita da boina francesa, sem o cabelo engraçado.
Licença... Oi, desculpa, senta, passa, sabe como é, um monte de coisa, tô meio atrapalhada... Tudo bem, tudo bem, e sentei. Ela tirou a boina, eu olhei com o canto do olho, seu cabelo encaracolado era lindo, seu olhar era lindo e seu sorriso, idem. Seu cheiro era suave e misturava-se com o cheiro da Alfazema que exalava sabe-se-lá daonde, suas unhas eram bem feitas, sua bolsa combinava perfeitamente com a roupa. Trazia consigo também um violão, que tomava o maior cuidado para que não batesse, e o violão era lindo, quero dizer, a capa dele era, marrom, combinava perfeitamente com a sua roupa, com o seu cabelo, com as suas unhas, com o seu cheiro e com o seu olhar. Era uma explosão de cores, cheiros, mais cores, tudo simetricamente alinhado e belo (também suave).
“Alfazema que exala, é quem manda na sala...” esse pedaço da música soava na minha cabeça, se metia no meio de lembranças antigas (sem cor, sem perfume, agora com) lembranças novas e frescas como morangos silvestres, se metia no meio da sensação de desejo e angústia, uma ótima angústia, e um péssimo desejo quase incontrolável, mas o cérebro ainda não decodificara o desejo e por isso a angústia. Eu imagino que seja desejo meramente carnal, sempre é, ou desejo de passar a mão sobre aqueles cabelos encaracolados descer até o pescoço beijar suavemente a face morder perto da boca com ternura e enfim beijar: um encontro incansável de duas línguas, muitos dentes e milhões de gotas de saliva. Mas a verdade é que no momento a Alfazema se misturava com o ciúme, sim, eu estava sentindo ciúme, e muito. Há quanto tempo não sentia isso? Doía na altura do peito, subia e descia da garganta, palpitava e quebrava por dentro pedindo para sair. Eu estava inquieto, era notável.
A culpa é toda daquela foto, eu tentava me explicar, toda. Olhei a foto por dez segundos e foi o suficiente para passar de sensação de riso ao ciúme intenso, no meio teve o nojo e o sentimento de fracasso, e claro, o cheiro da Alfazema -que passava pela minha memória e puxava por fim, a maldita foto- eu conhecia aquele olhar, olhar de prazer, de satisfação, de aprovação, aquele sorriso de: ‘quero aparecer bonita na foto mesmo com os cabelosdessejeito’ aquele cabelo desse jeito, aquela falta de cigarros... O que eu não conhecia era a mão pousando sobre o peito nu e cheio de pêlos grossos (ela que sempre fora tão higiênica) aquele pescoço com aparência desagradável que se encontrava com aquela cara, e a palavra apropriada era realmente cara, aquela cara gorda e gordurosa, talvez até limpa, mas com uma aparência suja e gordurosa, aquela cara estrábica de sobrancelhas grossas que se encontram entre os olhos, ou melhor, uma sobrancelha apenas, grande e grossa (ela que sempre fora tão higiênica).
E o maldito cheiro da Alfazema cumpriu o seu objetivo, puxou na memória a maldita foto. Diurética, expectorante, sedativa, antiinflamatória, sudorífica, antiespasmódica, anti-séptica, cicatrizante e colagoga.
Acalma os nervos. Alivia falta de urina, doenças de baço, cãibras, gota, inapetência, insolação, fraqueza, vômitos, hipocondria, falta de regras, insolação, vômitos. Bom para digestão, dores reumáticas, tosses e resfriados, cistites e inflamações das vias urinárias, facilita a produção e eliminação da bile, combate enxaqueca. Gargarejo com decoração das flores alivia a dor de dente.
Rodoviária mais próxima, ninguém subiu no ônibus, ela levantou e disse um tchau sonoro e lindo que também combinava com a sua roupa, veio acompanhado de um sorriso, levantou e sentou na poltrona ao lado que estava reservada para alguém que não subiu no ônibus, sentou, a olhei, sorriu e adormeceu.
Finalmente entendi de onde vinha o cheiro da Alfazema, ele vinha de dentro de mim e não invadia lugar algum, a não ser as paredes branco/sujo da memória numa dança louca de cheiros/cores/sensações e lembranças. Vinha de dentro de mim e existia para mim, me perfumava e só a mim. Mas não acalmava os nervos, isso quem fazia era ela, essa era sua função. Me apaixonei por seus cabelos, seu sorriso, suas unhas e sua impiedosa capacidade de me acalmar. A apelidei de: alfazema, não é um apelido bonito, eu sei, mas exalava.

lunes, junio 12, 2006

Menina

Vem
Deita aqui
Esquece, é cedo ainda
Menina, se for embora
Agora sinta mais um pouco
Me afasto
Te deixo pensando
Menina, o dia
Amanhã vai brilhar de novo
Mas quem sabe?
Aproveita
Me aquece, é cedo ainda.
Vem
Senta aqui
Me dá a tua mão menina
Mania, de querer fingir
Come, cospe
Lençóis manchados
Amassados, pisados, cortados
No leito
Me mastiga por dentro
E por fora, engasga
Morde, meu peito
E aproveita
Que está tão azul
O momento.

sábado, mayo 27, 2006

Como um Anjo.

Ela enlouqueceu, tinha certeza: ela havia enlouquecido. Falava falava falava e tornava a falar, as vezes parava e soluçava baixinho, passava a mão em seus cabelos e se encolhia.
- Maldito! Ela berrava como se alguém pudesse escutar, pintava as paredes do banheiro com seu batom vermelho, escrevia palavras e mais palavras, desenhava círculos triângulos quadrados e mais formas geométricas, jogava o batom longe e arrastava-se para buscá-lo, amassava a sua roupa e sentia-se feia, as vezes parava e soluçava baixinho, bagunçava seus cabelos e se esticava.
Sempre via tudo deitado na cama e as vezes berrava também, mandava parar, arrumar essa bagunça toda e vir dormir, ou sair e se atirar em baixo de um carro, pular da nossa sacada, acabar logo com toda essa besteira, ou até, quem sabe, deitar-se em meu peito para que eu possa ajuda-la a chorar.
Pensei em quebrar algo ou em dormir e fingir que nada estava acontecendo, pensei em levantar e em beber um copo de leite quente.


Mas dessa vez, quando olhei, já havia atirado-se de nossa sacada, e antes que eu pudesse notar, voava graciosamente e zombava de mim, seus cabelos balançavam com o vento, nua e linda ela voava e antes que eu pudesse notar pairava berrando.
- Eu te amo.


viernes, mayo 19, 2006

Sempre.

Passeava pela rua na madrugada fria, caminhava sem saber nem para onde ia, mas caminhava, ou melhor, arrastava-se pela rua, pensava em parar em algum bar e beber algo, mas não bebia, hoje não bebia, não tinha vontade. Cantarolava baixo e sentia frio, seu terno cinza estava sujo.
Cansado sentou na calçada antes de voltar para casa, de segunda à sexta-feira, saía as oito e chegava as seis, menos nas sextas, nas sextas saía as oito e chegava as nove, dez, onze... sempre o mesmo chope, no mesmo bar, com os mesmo amigos, amigos da repartição, amigos sem alma, sem vida e sem cor. E era sempre a mesma conversa, e como anda o clima, quem tá comendo quem, como andam os filhos no colégio, a barriga do chefe, o bigode do Tavares, a camisa rosa do Soares.
Sempre a mesma ladainha quando chegava em casa: a mesma mulher, o mesmo futebol, o mesmo banho e o mesmo pijama, os mesmos filhos, o mesmo CD de samba, a mesma cerveja e o mesmo tédio.

Mas hoje seria diferente, nem era sexta e estava atrasado. Foda-se. Queria beber um copo de leite e conversar com o dono do bar, reclamar da vida e cantar no Jukebox. Fugir da rotina, extravasar.
Não amava sua esposa, não aturava seus filhos, detestava com todas as suas forças seus colegas de repartição, detestava a sua pasta e pensou em jogá-la no meio da rua. Sua pasta marrom não combinava com seu terno cinza, nem um pouco.
Pensava em voltar para casa e para os braços da Maria, amava sua Maria é verdade, amava a Maria que havia conhecido não sua esposa, amava a Maria que lhe dava forças e acreditava nos seus sonhos, e tudo isso na época em que ele também acreditava nos seus sonhos.
E em uma fração de segundos sua pasta já estava no meio da rua, sua gravata já estava solta, sua camisa desabotoada e seu paletó sujo no lixo.
Em uma fração de segundos estava saciado e decidido, era hora de voltar para casa, para os braços, cabelos, boca, dentes, pernas, coxas e ventre da Maria.

viernes, mayo 12, 2006

Vento

Brilha o sorriso
E a expressão escondida
Foges, em tempo
Do que lhe confundes.
Procuras perder, o que nasceu
E consolidou.
Cansada, procuras perturbar
E perturbada, descansa.
Põe a máscara, e então
...Revelas
Revelas a expressão
E a impressão que causa o sorriso
Revelas onde escondeu-se
Do que lhe confundiu.
Achas o que nunca perdeu
E finalmente, entendes.
Descansada, procuras ser
E apenas, ser.

lunes, mayo 08, 2006

Lábios

Ela passa horas dissertando sobre algo que ele fingia entender perfeitamente sem ouvir uma só palavra, é algo interessante, ele sabe, mas não está prestando a mínima atenção; por mais importante que seja o assunto, não é mais belo do que a sua boca entreaberta.


Ela queixava-se sobre seu marido, eram casados desde os seus vinte e cinco anos, e eu não ousava pensar sobre sua idade, mas sabia que, embora bela, já era um pouco velha. Ela agarrava a xícara de café com mãos macias e um certo desespero, tremia levemente, suas mãos e suas pernas inquietas chutavam compassadamente a mesinha de centro em sua frente, seu vestido preto um pouco acima das coxas e sobriamente decotado lhe dava um ar sensual e respeitável, suas coxas à mostra revelavam que, apesar da idade, ainda cuidava-se muito bem. Seu perfume era doce e atrativo, misterioso.
Levanto-me para pedir à minha secretária mais um pouco de café, aproveito e arrumo dois quadros que estavam tortos na parede e irritavam-me, arrumo também uma escultura de mármore que sem querer esbarrei empurrando-a para o lado. Fingindo interesse no que ela falava murmuro um “uhum” e volto a caminhar pela sala esperando impaciente pelo café, lembro-me de ouvi-la falar algo como “Ele sempre esquece...” o que será que ele sempre esquece? A toalha em cima da cama? O aniversário de casamento? Ou o dela? Ou quem sabe sempre esqueça que camisa de manga curta com gravata é péssimo? Não, não deve ser isso... com certeza não é.

- Você está ouvindo?
- Claro que estou, é interessantíssimo, você tem, apenas, que dar mais valor aos seus próprios interesses...
- Tens razão.

Eu sempre tenho, ela apenas não sabia disso ainda. O café finalmente chega, agradeço cinicamente, sento-me e cruzo ligeiramente as pernas fingindo um ar de interesse, ela já não agarrava mais xícara nenhuma com as mãos, suas pernas estavam agora para trás de sua poltrona, mas continuavam inquietas, ainda não havia reparado em seus cabelos: eram negros, sedosos, bonitos, não belos, apenas bonitos. As suas mãos trêmulas buscavam algo em sua bolsa, ela estava retocando o batom e mesmo assim continuava dissertando.
Mas por mais interessante que seja o assunto, não era mais belo do que sua boca entreaberta.

miércoles, abril 19, 2006

Re: s.

Espalhar maravilhas pelas ruas
Derreter suavemente a pele
O tempo, o gosto
A cor.
Ouvir e ver, haver
Ser.
Ser o instante do beijo, ser o tempo
Ser, o homem.
O homem que sabe o que é
Porque sabe o que não foi e o que vai ser
Que mantém tranqüilamente seus desejos
Em equilíbrio com sua realidade.

martes, abril 04, 2006

Apaixonada

Eu estou apaixonada entendeu? Apaixonada.

Ela disse isso berrando desesperada para o espelho, com um ar de angústia, com uma ternura que só se alcança em certos graus de desespero, feminino. Ela ainda estava nua, pois tinha saído a pouco do banho, estava tremendo no chão do seu quarto em frente ao grande espelho que fora de sua vó, foi tomar banho para se sentir menos nojenta, se sentir menos suja e imoral.
O dia de ontem foi cansativo, foi caminhando até a casa dele, bateu em sua porta e o viu com outra mulher, chorou quase duas horas e meia em sua frente lhe pedindo perdão por, mesmo depois de anos ainda não ter esquecido do tempo em que ele era dela. Correu soluçando para o banheiro, trancou-se e bateu na parede com força até sangrar os dedos, depois saiu do banheiro e sujou o rosto da mulher que estava com ele com o seu sangue, a beijou rapidamente na boca, segurando suas bochechas, recebeu um tapa em troca.

Levantou-se do chão, foi até a cozinha e bebeu um copo de uísque, quente. Chorou um pouco, um choro quente e calmo.
O dia de ontem foi calmo, passou dormindo, e pensou, quem sabe, em ligar para seu psiquiatra.
Eu represento muito bem, pensou sorrindo. E atirou seu copo no chão.

martes, marzo 21, 2006

Poderia...

- Qual o seu nome?
- Maria.
- Combina com você, nomes carregam personalidades sabia?
- Ahnn e qual é o seu?
- Ausdraalegézio. Com dois a's.


Ele morreu sete vezes neste final de semana, suicidou-se em três delas, até tentou uma quarta
...mas sua irmã entrou no quarto, na hora exata em que carregava a arma com desespero e experiência.


Finalmente, chegou o Outono. O vento sopra e derruba as folhas, varre as calçadas com folhas.
Varre a solidão, e varre a alma, aglomerada e solitária da cidade.


Eles não se vêem a mais ou menos seis anos e meio, se conheceram no colégio, no segundo grau.
Se encontraram um dia, por acaso, em um parque, trocaram olhares, trocaram afagos imaginários em um segundo de olhar mágico e instantâneo. É como se dissessem: Que saudade do que nunca existiu.


Uma vela acesa perfumava o quarto com um suave aroma de lavanda. A chama o lembrava de como era bom o tempo em que se sentia infinito e imutável. Como é estranha a juventude, ele pensava suspirando. Como é estranha.
Uma vela acesa iluminava o quarto com uma suave chama. O aroma de lavanda o lembrava de calçar os chinelos, afinal, a temperatura está mudando.


Isso não está acontecendo, mas poderia.
(Disse ele com febre alta)
Você está delirando!
(Disse ela com aquele sorriso meigo)

Posso até estar, mas em cinco segundos corro até aí e lhe dou o melhor beijo de sua vida. Aí de possibilidade passa a fato concreto.
(Disse ele com febre mais alta ainda)


viernes, marzo 17, 2006

Desejo

Em uma obra desfigura de Miró
Da figura ex-figurativa atrativa
Compelida atraída pela ida
Com o olhar atrativo expelido
Como tudo parado, polido.
Trancado desfeito refeito em duo
Cansado estupefato repleto de atos
Calado olhando, a obra total
Desejo.


Chanteur (Miró)

martes, marzo 07, 2006

Elefantes



Lembra daquele tempo em que você queria ser um escritor?
Lembro.
Seus textos são horríveis, mas nossa filha adora, ela diz que são engraçados, e coloridos.
Diz que eu tô com saudade dela.
Nós moramos aqui do lado, tu nunca vai lá, porque não quer.
(Eu já não te amava faz uns dois anos, desde que você comprou aquele vestido horrível)
Não tô indo por vergonha, tu sabe que ainda tenho sentimentos por ti.
Não tem não.
Pois é, não.

Ele realmente sentia saudade de sua filha.
Não ia lá por vergonha. Vergonha dele mesmo, de suas roupas feias e velhas, de suas gravatas sem estampas, seus ternos pequenos, sua barba rala. Sua falta de dignidade. Ele estava traindo a sua ex-mulher desde que ela comprou aquele vestido horrível, a traia com a mulher de sua vida, a mulher que sempre amou, aliás, sempre foi apaixonado.
Ainda mantém o romance em segredo, e nem sabe porque, sente pena de si mesmo e de sua ironia, estava feliz com sua amante, de verdade.
Mas a verdade mesmo é que agora ela estava inventando de casar. Pra que?
Estava cansado de cêrimonias, rótulos e todas essas coisas, vinha tentando aprender xadrez, mas a burocracia, os horários e seu emprego não estavam deixando.Tentava se concentrar no xadrez! APENAS no xadrez! Mas sua amante não deixava, vai acabar perdendo o emprego, é tudo culpa dela.
Mas seus vestidos ainda são bonitos.
Vale a pena segurar o romance, e quem sabe fazer ela desistir dessa idéia ridícula de casamento.

-Por que ao invés de nos casarmos não fugimos pra África e criamos elefantes? Afinal, seus vestidos ainda são bonitos.


viernes, marzo 03, 2006

melodia

a chuva faz melodia na janela
e eu esquento o café sozinho.
as roupas vão ficar molhadas
penso, e sorrindo:
tomo o café já gelado
com um pouco de nojo.
o cheiro da chuva invade o quarto
mesmo com as janelas fechadas
e a luz do amanhecer é tão linda
e calma.
parece um filme antigo passando na janela
a luz brotando sorrindo,
o sorriso da mulher amada.

jueves, febrero 23, 2006

NULO

Pensou um pouco e chegou a conclusão: Não tem opinião nenhuma.

Acorda pouco depois das dez horas, senta na mesa, liga a tv, passa um café e toma junto com bolachinhas cream-cracker. A noite de ontem foi uma droga, seriados americanos divertidos, frio, calor e insônia.
Quase ao meio dia decidiu não almoçar nada, tomou uma água sem gás, com gelo e limão, e só.
Não bebe, não fuma, evita carne vermelha, procura comer frutas e verduras, cereais lhe fazem mal, evita.
Senta ao computador e procura escrever um pouco, qualquer coisa, um soneto romântico e chato, um poema que não diz exatamente nada, um texto sobre um cara qualquer, um pouco de pornografia, qualquer coisa. Não consegue, nada o inspira. Ele ouve o mesmo tipo de música desde a sua adolescência, lê as mesmas revistas, vê os mesmos filmes. Desde quando descobriu que era diferente, embora todos sejam.
Mas ele ainda faz as mesmas coisas, em seu quarto, escondido pra não doer.
Pensa em plagiar alguém descaradamente, é a era do plágio.
Senta e contempla a obra, plagiada, porém sincera. Desconstruiu frases, acordes e pinturas, passos de dança e efeitos especiais, misturou tudo, pintou de verde, jogou em cima da mesa e botou seu nome. Plagiou descaradamente e sinceramente, achou bonito, mas um pouco vazio, sem opinião, sem argumentos...
Mas fazer o que? Não tem opinião nenhuma.


martes, febrero 21, 2006

Eu tenho um Guarda Chuva

Assim, Azul.
Assim, com listras.
Assim, parado.
Assim, sem cor.

Assim, sem versos.
Assim, sem verbos.
Assim; indolor.

Eu tenho um Guarda Chuva,
Que assim como a folha ele paira
Quando o vento faz ele virar, ele paira.

E tenho uma canção
Assim, Azul.
Assim, sem alma.
Assim, calada.
Assim; sem graça.