domingo, mayo 20, 2007

Diálogo: Enquanto

- A água tá no fogo, daqui a pouco a chaleira apita. Mas é melhor tirar antes, água fervendo faz mal.
- Se ao menos eu pudesse te tocar e dizer agora o que sinto através de gestos, e não de palavras.
- A irmã do meu professor de biologia do segundo grau morreu de câncer porque tomava muito chimarrão com água fervendo. É melhor tirar antes.
- É melhor tirar tudo antes, meu amor. É melhor tirar tudo antes, porque quando chega no ponto, tudo faz mal. É melhor tirar de dentro antes que goze. É melhor tirar do fogo antes que aqueça completamente, e o vermelho do fogo te assusta, não é mesmo? O vermelho assusta. Porque depois que esquentou completamente não tem mais como voltar a ficar frio, porque mesmo que deixe voltar a esfriar, já foi quente um dia. Entende? Chegou a um ponto em que existiu, e se deixa de existir é por cansaço, mas o que foi feito, foi feito. Então é melhor tirar antes, meu amor. Aí não tem perigo de ficar grávida nem de morrer de câncer.
- Quando se é frio dá pra esquentar mais, até ficar da temperatura que se quer. É um processo.
- Tome cuidado pra não chegar ao ponto irreversível, meu amor. O ponto onde tudo lateja e dói e tudo é fluxo de consciência e é amargo e não tem volta, nem perdão.
- Olha, sente o cheiro de café fresco. Busca as xícaras, põe na mesa.
- Eu quero um cigarro. Tosse seca. Eu sei. Infecção no pulmão. Me disseram que esses aqui, de cravo, fazem menos mal. Me alcança o isqueiro. É pra olhar ou sentir? No fundo tudo é a mesma coisa, não? Não. No fundo tudo tende ao sentir, porque sentimos quando olhamos. Quando cheiramos. Quando tocamos. Quando lambemos. Deixa eu lamber agora o que é limpo e cheira bem, porque cansei de gostos acres e espessos, eu cansei, meu amor, eu cansei.
- As xícaras..
- Quais eu pego? As que sua mãe nos deu? Ou aquelas, as verdes, não lembro quem deu, mas são verdes porque verde é bonito. E todo mundo sabe que verde é bonito.
- Pega o cinzeiro. Qualquer xícara tá ótimo. Duas colheres de açúcar ou nenhuma? Doce demais faz mal.
- Me deixa sentir o gosto doce, me deixa lamber o fundo da xícara. Me deixa ser formiga me deixa ser cadela me deixa ser puta. Me deixa pedir. Implorar. Necessitar. Eu necessito, meu amor, eu necessito. Eu necessito tocar. É quando tocamos.
- Se ao menos tu pudesse me tocar e dizer agora o que sentes através de gestos e não de palavras.

lunes, mayo 07, 2007

Rosas Brancas

Pôs a água a esquentar e preparou um chá de rosas brancas para tomar deitada enrolada em edredons brancos e macios de camisola branca e macia na sua cama arrumada agora a pouco e assistir a um filme, quem sabe, telenovela, quem sabe, um seriado, quem sabe, um dvd. O telefone tocou, estridente no quarto escuro, deixou tocar três vezes, suspirou: ai, como eu gosto de ti: assim, baixinho, pra ninguém ouvir. E atendeu. E era engano. E ela atirou o telefone no meio das almofadas do sofá da sala e voltou para o quarto.
Viu a boca da mocinha do filme, tão bonita, tão rosada, tão bem definida, tão diferente da dela. Viu o pescoço do galã, tão bem definido, meu deus, tão másculo que deu vontade de entrar dentro da tela e morder, morder com força, morder também a boca da mocinha, morder e arrancar um pedaço e fazer doer e fazer sangrar e fazer jorrar sangue vermelho como o batom e beijar beijar beijar até borrar o batom e borrar o pescoço e inundar tudo em sangue tão vermelho, tão vermelho...
Suava embaixo dos edredons e sentia com a mão o suor pelo seu pescoço, pelo seu cabelo, sentindo o suor com a mão até o ponto em que os dois peitos se encontravam, coitados, tão pequenos, em nada se parece com o da moça do filme, tão redondos e grandes e bonitos, e espalhava o seu suor e apertava o pouco que tinha pra apertar com as unhas mal pintadas e roídas, e apertava até doer. Lá fora trovejava, veio um vento tão forte da janela que arrepiou. Ela lembrou que era quinta-feira, dia de Iansã, e pensou em acender uma vela, e pensou em pedir por um corpo que a tocasse, e pensou em pedir por um corpo que penetrasse no seu, por um suor que se misturasse com o seu, por um gosto que se misturasse, por um cheiro que ficasse dias e dias no seu, e que pudesse cheirar depois e lamber e sentir sempre que sentisse saudade. E pensou em cozinhar um quarto de quilo de canjica amarela com bastante água, coar e por o líquido a ferver com folhas de pitangueira por mais dezesseis minutos; após, acrescentar dezesseis gotas de perfume, uma rosa branca, uma vermelha e uma amarela, todas despetaladas, tomar um banho do pescoço para baixo. E repetiu mentalmente, assim mesmo, automaticamente, como alguém lhe ensinou uma vez, e ela repetia sempre, mentalmente, assim mesmo, automaticamente, porque nunca fez e porque também nunca esqueceu, mas também porque sempre precisou.
Com as mãos de unhas mal pintadas e roídas que se cravavam no seu corpo suado fazendo doer desceu até as coxas e cravou com força. Suspirou e esperou que tocasse o telefone mais uma vez e que dessa vez não fosse engano, mas não tocou. Tomou um gole de chá bem quente, e com cada vez mais calor, olhando a boca da moça que se mexia em direção ao pescoço do homem, que meu deus, que pescoço, tão másculo, tão definido, e cada vez suando mais, encharcada no seu próprio líquido, um líquido tão seu, que ela já sabia de cor, o gosto, o cheiro, a sensação, um líquido tão seu que por um segundo a fez pensar que era a única coisa que tinha e conhecia perfeitamente: e mesmo conhecendo perfeitamente queria conhecer cada vez mais: tudo agora é líquido e inunda: a mão molhada descendo e apertando cada vez mais as coxas e encontrando o sexo: o suspiro. A sensação de se conhecer cada vez mais era tão grande, meio canibal até, que ela queria tanto, se pudesse morder a sua boca e arrancar um pedaço e fazer doer e fazer sangrar e fazer jorrar sangue vermelho como o batom e beijar beijar beijar até borrar o seu batom e borrar o seu pescoço e inundar tudo em sangue tão vermelho, tão vermelho que mancharia rosas brancas.

martes, mayo 01, 2007

Água

Acordo sobressaltado, olho o relógio: início de madrugada. Vou até a cozinha, abro a geladeira, um copo de água gelada. O clima está agradável e vou até a janela. De repente o grito. O estrondo. O sangue espalhado.
Eu bebia água na janela da cozinha no mesmo instante em que o meu vizinho do quinto andar suicidava-se. Suicidava-se? Tudo indica. Mas o mais correto seria: bebo água na janela da cozinha no mesmo instante em que o meu vizinho do quinto andar caía pela sua janela. Fração de segundos.
Os vizinhos acordados assustaram-se com o barulho - eu estava sentindo nojo daquele corpo estendido, mas não podia parar de olhar – os vizinhos acordados vieram ver o que aconteceu – da minha janela eu enxergava a cabeça que foi esmagada pela laje, enxergava a cabeça aberta e resíduos espalhados e sentia nojo – os vizinhos acordados chamaram uma ambulância. Não conseguia mais beber água, a náusea era absurda. Minha cabeça doía, meu estômago se contorcia. Não sentia mais meus músculos abdominais, mas não podia parar de olhar. Sentia dor e sentia nojo. Mas não podia parar de olhar.
Alguns minutos depois a ambulância chegou. Recolheu o corpo e levou embora. Alguém jogou água pela laje do pátio do condomínio.
Então eu voltei a dormir.