lunes, septiembre 30, 2013

marulho

é um marulho danado, que grudou na minha orelha, e de lá não quer sair mais.
que eu explico, é que morei muitos anos no mar das andorinha, de ofício de pescador, de onde nasceu meus três filho que foram ficar lá, com a tia.
de onde minha esposa entrou no mar, se afogou, e virou sereia.
de onde eu nunca saí.
vim pra cá pra tentar outra, outra sorte, o senhor entende?
mas não me acostumo, não me acostumo com esse barulho de obra, esse barulho de buzina, essa gente que fala tanto.
é um marulho danado, que grudou na minha orelha, e de lá não quer sair mais.
que eu explico,
deve de ser saudade.

domingo, enero 27, 2013

das pequenas acumulações.

aconteceu um dia desses. ele se apaixonou por um relógio. e comprou o relógio. e levou pra casa o relógio. e pendurou na parede o relógio.
e ela foi embora.
ela não aguentava mais, coitada, era coisa demais, tudo grande demais. ela foi embora.
e ele ficou sozinho. cercado de objetos.
sozinho.
aconteceu um dia desses.
tudo é grande demais.

jueves, octubre 11, 2012

marinheiro só.

enraizado sentado há três meses no mesmo sofá pernas de iroko apaoka akoko sem sexo empoeirado olhando pro nada.
saudade o tempo todo só sente saudade como se mais nada no mundo fosse além de saudade.
desespero também porque não porque se entre um gole e outro de café ou de bebida quem sabe até água um trago no cigarro lembra lembra lembra e chora.
choro que desce calmo arrastado quente como o último gole do último copo de uísque.
salgado como o mar as rosas que ele joga e pede pede yèyé omo ejá também sou peixe aceite por favor aceite.
sem vírgula sem tempo rápido rápido como o galope no cavalo de são jorge santo guerreiro. que vai além mar pra onde ela foi.
e de lá não volta mais.

martes, septiembre 27, 2011

nosso som

Cinzeiro cheio e copo vazio. Corpo inquieto. Mente inquieta. Mens sana in corpore, bláblá. Acho que nunca pensou que ouvir choro fosse tão, perturbador?

Olha, eu sei que tu tem um monte de coisas pra fazer, assim como todos sempre tem, e ninguém nunca, se permite o ócio, mas, mas, mas.

Fica só mais um pouco aqui comigo, deitado nesse sofá, com a cabeça apoiada nas minhas pernas, me conta da tua vida, diz que não deu nada certo, só pra variar um pouco, que não vê a hora de tudo voltar a ser como antes, e que nada, nunca vai voltar a ser como antes, porque só o que importa agora é o agora mesmo e sinceramente, só o que existe é o antes.

Aquela nostalgia que não acaba nunca e que de repente vem uma música e lembra, e vem um cheiro, e vem uma cor, e vem aquela sensação que vem junto com tudo isso, aquela sensação que já sabe de cor e já sabe que é bem inquietante. E perturbadora.

E agora troca a música, enche o copo, esvazia o cinzeiro.

E já pode ir embora novamente.

lunes, septiembre 05, 2011

e tudo que se repete

senti ciumes
da descrição do cotidiano
não queria estar aí
mas não queria que ninguém mais estivesse
por mais livre que seja
sejamos egoístas
por mais livre que seja
nunca deixarei de ser
nunca deixarei de ser

(ainda quero tudo ainda quero poder negar tudo
ainda quero não querer nada)

...


são paixões antigas
cigarros molhados
cafés sem gosto.
tudo que de alguma forma for ridículo
tudo que de alguma forma não se queira ter
tudo que de alguma forma
penetre incessantemente no inconsciente
e lá cresça
como planta carnívora,
parasita, erva daninha,
não como flor.

...

fumo
assistindo novela
na cratera
do desejo
te vejo
na fumaça cinza
cinza
sinta
sinta
o mesmo que eu

te quero
agora
e não
para sempre
(nesse instante
sempre)
me devora a sede
sede
sente
sente
meu corpo sobre o teu

teu braço sobre o meu
teu abraço,
o laço,
entre você
e eu.

...

e de madrugada fica inquieta
depois dorme o dia inteiro
revirando no travesseiro
vontades ocultas
talvez paixões escondidas
que ninguém mais pode saber
só a vergonha que lhe resta
agora nessa cama
encharcada de suor
apertando seu corpo
contra seu corpo
sua pele com sua pele
seu suor
nas paredes de concreto
que envolvem a madrugada
grita que não quer mais nada
e seu café não é o primeiro
seu desejo é sempre o mesmo
e sua angustia
e a vontade de sumir
tapa a cara com o travesseiro
fuma mais um cigarro
e a vodka talvez
caísse bem
e o que ela quer
não esta mais la fora
nem mais do seu lado
mas dentro dentro
e só dela
e com ele faz o que quer.

jueves, agosto 18, 2011

cigarros molhados

O mundo não é bonito e as pessoas não são boas.

Acho que era o que eu queria dizer à ela enquanto chovia e eu voltava a pé pra casa e cada gota de chuva doía como um tapa. O cigarro molhado quebrando nos dedos, esperando pelo que não vem, a efemeridade das coisas surpreende sempre, porque tudo passa, tudo que começa acaba, e mais rápido do que se imagina, ou: pra que insistir em algo que simplesmente faz mal?

Queria que alguém me dissesse que vai ficar tudo bem, queria que alguém pudesse me dizer que vai ficar tudo bem, mas nem sei se queria que ficasse tudo bem.

Sinceramente, só queria dormir pra sempre.

miércoles, agosto 10, 2011

a tempestade (ou o livro dos dias)

Dorme como quem nem queria. Agradece por pelo menos poder dormir o quanto quiser (alguma coisa boa tinha que acontecer hoje). Nem sabe mais o que deveria sentir, mas sabe que ninguém, ninguém, ninguém, vai lhe dizer. Sabe que sente saudade, que sente saudade pra caralho, que só o que sente é saudade. E medo também. Sempre. O companheiro mais antigo, e talvez, o único.
Medo que ela não venha.
Medo que ela não volte.
Medo que não exista mais nada, que de novo, seja tudo só ilusão.
Se sentir só já não é nenhuma novidade, esperar também não. A gente se acostuma com a dor, a gente se acostuma com a tristeza. Talvez um dia se acostume com a felicidade (e a mentira é salvação).
Bebe só mais um copo de cerveja, fuma só mais um cigarro, bebe só mais um copo de cerveja, fuma só mais um cigarro, bebe só mais um copo de cerveja, fuma só mais um cigarro, um ciclo, que se repete, eterno.
Ele sabia que ela não estaria, ele sempre soube que ela não estaria, ele sabia da última vez, ele sabia dessa, ele vai saber da próxima. O passado e o futuro são incrivelmente iguais.
Ele sabia que ela não tava muito bem por lá, que ela queria estar aqui, mas ela escolheu.
Ela finalmente leu o que já deveria ter lido quando ainda era tempo, e talvez ainda seja, seilá, talvez sempre seja.
Não teria a menor graça se ele não se contradissesse o tempo todo. Se ele não reclamasse o tempo todo.

Só pra ver ela sorrir, só pra ver ela sorrir.
E ele nem sabe porque se sente assim, nunca vai saber, mas sempre vai sentir, talvez e só talvez, seja o que lhe impulsione a querer acordar de novo.
Com a saudade, tecer uma prece, prum novo dia, que seja diferente de ontem.
Mas não vai ser.
Talvez, e só talvez, seja o que lhe impulsione. A continuar, suicida, esperançoso, incrivelmente sozinho.
Em uma madrugada que parece a mesma de sempre, em uma madrugada que parece, e sempre parece, que nunca vai acabar, em uma madrugada que parece que é tudo eterno.
Sabe, isso é o que pra ele dói mais (ninguém sabia e ninguém viu que eu estava ao teu lado então...).
Tão cínico, sempre.

não estava nada bem, mas a tempestade lhe distrai.


strawberry
fields
forever.