jueves, agosto 18, 2011

cigarros molhados

O mundo não é bonito e as pessoas não são boas.

Acho que era o que eu queria dizer à ela enquanto chovia e eu voltava a pé pra casa e cada gota de chuva doía como um tapa. O cigarro molhado quebrando nos dedos, esperando pelo que não vem, a efemeridade das coisas surpreende sempre, porque tudo passa, tudo que começa acaba, e mais rápido do que se imagina, ou: pra que insistir em algo que simplesmente faz mal?

Queria que alguém me dissesse que vai ficar tudo bem, queria que alguém pudesse me dizer que vai ficar tudo bem, mas nem sei se queria que ficasse tudo bem.

Sinceramente, só queria dormir pra sempre.

miércoles, agosto 10, 2011

a tempestade (ou o livro dos dias)

Dorme como quem nem queria. Agradece por pelo menos poder dormir o quanto quiser (alguma coisa boa tinha que acontecer hoje). Nem sabe mais o que deveria sentir, mas sabe que ninguém, ninguém, ninguém, vai lhe dizer. Sabe que sente saudade, que sente saudade pra caralho, que só o que sente é saudade. E medo também. Sempre. O companheiro mais antigo, e talvez, o único.
Medo que ela não venha.
Medo que ela não volte.
Medo que não exista mais nada, que de novo, seja tudo só ilusão.
Se sentir só já não é nenhuma novidade, esperar também não. A gente se acostuma com a dor, a gente se acostuma com a tristeza. Talvez um dia se acostume com a felicidade (e a mentira é salvação).
Bebe só mais um copo de cerveja, fuma só mais um cigarro, bebe só mais um copo de cerveja, fuma só mais um cigarro, bebe só mais um copo de cerveja, fuma só mais um cigarro, um ciclo, que se repete, eterno.
Ele sabia que ela não estaria, ele sempre soube que ela não estaria, ele sabia da última vez, ele sabia dessa, ele vai saber da próxima. O passado e o futuro são incrivelmente iguais.
Ele sabia que ela não tava muito bem por lá, que ela queria estar aqui, mas ela escolheu.
Ela finalmente leu o que já deveria ter lido quando ainda era tempo, e talvez ainda seja, seilá, talvez sempre seja.
Não teria a menor graça se ele não se contradissesse o tempo todo. Se ele não reclamasse o tempo todo.

Só pra ver ela sorrir, só pra ver ela sorrir.
E ele nem sabe porque se sente assim, nunca vai saber, mas sempre vai sentir, talvez e só talvez, seja o que lhe impulsione a querer acordar de novo.
Com a saudade, tecer uma prece, prum novo dia, que seja diferente de ontem.
Mas não vai ser.
Talvez, e só talvez, seja o que lhe impulsione. A continuar, suicida, esperançoso, incrivelmente sozinho.
Em uma madrugada que parece a mesma de sempre, em uma madrugada que parece, e sempre parece, que nunca vai acabar, em uma madrugada que parece que é tudo eterno.
Sabe, isso é o que pra ele dói mais (ninguém sabia e ninguém viu que eu estava ao teu lado então...).
Tão cínico, sempre.

não estava nada bem, mas a tempestade lhe distrai.


strawberry
fields
forever.

martes, agosto 02, 2011

pequenas observações

ele leu Cortázar a noite inteira e decidiu que deveria escrever alguma coisa, alguma coisa sobre um homem tomando um café ou trocando um pneu. alguma coisa sobre um sorriso, sobre um ônibus que sempre chega e sobre bicicletas cortando o trânsito, cortando o tempo, cortando o espaço, coração ardendo no peito, como deve ser, pra se sentir vivo, pra se sentir mais vivo. (fumar olhando a chuva pela janela, nessa madrugada que não deveria acabar).



acho que deveria ter um gato e eu que nunca gostei de animais, mas eu que nunca gostei de tanta coisa mesmo que agora gosto e nem sei mais. sei que não gosto do barulho da obra e não gosto do que vai virar aqui do lado. sei que gosto de reclamar e gosto desse barulho de pingos, desse cheiro, que grudou nas narinas, que espalhou em todo corpo.



sim, e tudo trava no meio do sonho, mas não importa. não importa que só seja real na minha mente, porque nada nunca foi tão real.
é tão real a lembrança quanto o que a gera.





e tudo já é passado.