jueves, julio 31, 2008

De cá pra lá.

Se vais embora, por favor, não te detenhas/ Sigas em frente e não olhes para trás/ Que assim não vais ver a lágrima insistente/ Que molha o rosto do teu velho, meu rapaz.

Era dezembro quando seu pai os puxou pela mão e os levou para verem o que chegara à cidade. Vestidos em bermuda e camisa curta de algodão, se espantaram ao ver na grande tela do cinema o primeiro ator que apareceu, achando que devia ser um homem de muita importância, pois saíam por aí mostrando a todos a sua história.
Escondido saía do colégio quase todas as tardes para ver o mesmo filme, até que no mês seguinte o trocaram e só então compreendeu que existiam vários homens importantes como aquele primeiro e muitas histórias para serem contadas. Contou a novidade ao irmão menor e o puxou pela mão como fez o pai na primeira vez para levá-lo até o segundo filme. E assim fez consecutivamente todos os meses que se seguiram antes de sua partida, primeiro via o filme sozinho e depois levava o irmão. Trancafiados dentro de seu quartinho, os irmãos imaginavam que também apareceriam em uma história contada no cinema, para que todos vissem, já sabiam o que significava ser um ator, pois notavam que o homem do primeiro filme aparecia em vários outros, com nomes e histórias diferentes, então perceberam que na verdade ele só fingia. Trancafiados dentro de seu quartinho, os irmãos também fingiam e passavam noites inteiras em claro fingindo baixinho, para que os pais não ouvissem.
Cinco anos depois, quando havia acabado seus estudos, ele deu a notícia:
- Vou para a capital. Ser ator.
O pai lhe deu um tapa. A mãe chorou, só entendendo mais tarde o porquê. O irmão sorria ao mesmo tempo um sorriso de satisfação e orgulho pelo irmão mais velho e um sorriso de decepção, pois queria ir junto. Ele abraçou o irmão e disse em seu ouvido: quando completares teus estudos, volto pra te buscar.
A mãe enxugou as lágrimas e o pai sentenciou: Não se fala nessa casa, o nome de quem partiu.

Chegando à capital encontrou a solidão de concreto onde tudo é cinza, inclusive a felicidade. Não voltou pra buscar o irmão, certo de que este estaria melhor na cidadezinha onde nasceram, longe da confusão e da desilusão que assola a cidade grande. Não encontrou emprego como ator e depois de inúmeras tentativas frustradas desistiu. Arrumou um emprego como caixa em um banco e disso vivia. Alugou um apartamento e lá ficou, entre lágrimas, remoendo a saudade durante quarenta anos.

Era dezembro quando voltou a sua cidade natal, foi direto a casa de sua infância, certo de que lá encontraria sua família. Encontrou a mesma casa de sempre, mas mais velha, mais triste, como se faltasse um pedaço. Encontrou a mãe sentada em uma cadeirinha de balanço na varanda, com os olhos cegos pela catarata e lhe abraçou. Ela reconheceu pelos sentidos que ainda tinha o filho que nunca mandara notícias, o filho já tido como falecido e falou: Seu pai morreu. Sem nunca pronunciar de novo o seu nome. E depois calou um silêncio mortal.
A notícia de que ele havia chego à cidade espalhou-se, então o irmão mais novo sabendo que ele estava na casa da família foi buscá-lo. O levou até sua casa, lhe apresentou sua esposa e seus dois filhos, sentaram-se na mesa da cozinha e almoçaram sem dizer uma palavra. Os sobrinhos perguntaram se o tio era famoso, ele disse que havia feito alguns filmes na capital, mas nada tão sério assim. Mentiu para impressionar o que ainda sobrava da família.

- Tu nunca veio me buscar.
- Tu não sabe o quanto padeci com a saudade naquela cidade.
- Tu tinha a saudade, eu só tinha o sonho.
- Quando o pai morreu?
- Poucos anos depois que tu te foi. A mãe passava as tardes chamando pelo teu nome pelos cantos, ainda que sob protestos do pai. Depois que ele se foi ela nunca mais falou mais nada, padecia em silêncio sua solidão.

Foi só o que se falou enquanto a esposa do irmão mais novo foi buscar o café. Depois acenderam cigarros respeitos e tragaram silenciosamente rancor e arrependimento.

lunes, julio 21, 2008

ao som de Ramilonga

Chove na tarde fria de Porto Alegre
Trago sozinho o verde do chimarrão
Olho o cotidiano, sei que vou embora
Nunca mais, nunca
mais
Ramilonga - Vitor Ramil

Começou a chover um pouco lá fora. Acho, na verdade que já faz tempo, pois as roupas no varal já estão bastante molhadas. Talvez a chuva tenha diminuído agora, e eu só notei porque fui à janela fumar. Acho que não notei antes porque estou sentado desde que acordei na mesma posição tentando compor alguma coisa, mas não consigo, não passa nada pela minha cabeça a não ser a imagem das folhas verdes murchando, ficando amareladas e os gravetos cada vez mais finos e quebradiços, o verde se misturando com o amarelo, um tom arroxeado também, meio sépia, e embaixo, perto da água morta e amarela, as folhas já meio cinzas, como a chuva ou aquele tchau mudo, aquele olhar calmo.

Já reparou como a grama fica bonita quando chove? Aquelas pequenas gotas, em cima das pequenas folhas, sabe?

- entre nós há uma distância tão grande. é esse seu afastamento, essa sua mania de não demonstrar sentimentos, essa carcaça dura que eu sei que é só fantasia porque aí dentro tem tanta coisa.

- nós dois sabemos que não. olha aquela criança correndo com o cachorro, com as roupas sujas de lama, os dois rolando pelo chão molhado, escorregando, caindo, sujando e mesmo assim sorrindo. é isso, escorregar, cair, sujar, ser frágil, não é ruim. o que importa é o sorriso.

- isso, as pequenas coisas. o carinho leve, o sorriso discreto.

- é porque você tem medo do que é extremo. é porque você tem medo de se expor. é porque você tem medo de lembrar de algo que ta aí guardado, há tanto tempo que nem você lembra mais.

Vou abrir um pouco mais a janela, desligar a televisão e ficar ouvindo os pingos baterem na vidraça. Tu destrói meu corpo pouco a pouco com compulsivas carteiras de cigarro, copos de hi-fi com suco industrial e sobra de vodka barata que tu deixou aqui do tempo em que morava comigo. Tu destrói meu cérebro com essas lembranças compulsivas que não me deixam dormir, nem ler, nem mesmo me afundar em bebida e ficar chorando, lamentando, relembrando de um tempo futuro que só existiu na minha mente. E talvez na tua. Porque o que mais tínhamos eram planos. Agora eu só tenho um plano: dormir pra não pensar. E é só o que faço também. Durmo.

E mesmo quando deito, o pensamento me consome e não passa nada pela minha cabeça a não ser a imagem das folhas verdes murchando, ficando amareladas e os gravetos cada vez mais finos e quebradiços, o verde se misturando com o amarelo, um tom arroxeado também, meio sépia, e embaixo, perto da água morta e amarela, as folhas já meio cinzas, como a chuva ou aquele tchau mudo, aquele olhar calmo.

Aquele tchau mudo. Aquele olhar calmo.