Estava todo doído – e isso lá era maneira de se dizer? – todo. Mas todo onde? Nas costas, nas pernas, na cabeça, nos braços? É a verdade que todo compreende todo oras, mas então não era todo, nem o nariz, nem a boca, nem os olhos doíam...não, espera, os olhos doíam sim. 4:08 AM e que horário louco seria esse? Ora, estava chovendo lá fora, uma chuva abafada, não acontece a essa hora, não assim, abafada, e tinha sol, ele estava vendo o sol, e estava vendo a sua mãe sentada assistindo a novela, não poderia ser 4:08 AM, a cafeteira estava mentindo para ele, pela primeira vez a cafeteira estava mentindo para ele. Logo ela que era tão nova – com relógio no painel - e que nesse pouco tempo de vida ainda não havia mentido, logo ela que era tão funcional, mas ele sabia, dentro de si sabia, que ela só não havia mentido ainda porque esperava que acostumassem com ela, e agora todos já estavam acostumados – era livre então, para mentir – com ela ali, naquele canto decadente em cima do tampo decadente que nem era ainda, era amostra. Na frente da cesta de frutas decadente, mais pelas frutas do que pela cesta, mais pelas duas coisas juntas, ali, em cima do microondas. Uma banana feia e duas maçãs, feias.
E é verdade que a decadência lhe fazia parar um pouco a dor, mas também o café novo e quente ajudava – o tédio, a obrigação – e lembrava daqueles cabelos crespos, daquela mecha loira, embaixo, das vozes, das expressões. E então, de súbito, como por obrigação, a camisa abria-se, o chapéu colocava-se na cabeça, como se tivessem vida própria, e tinham. Porque não? Porque não falavam? E isso agora é problema? Mudos não falam, plantas não falam. A verdade é que não tinham células, não tinham órgãos, não tinham biologia. Mas estava ali, tecido! Emaranhado bem feito de tecido formando o chapéu cinza com fita preta que caía, caía sempre que era posto de lado. E os botões da camisa? Pequenos, abriam-se sozinhos, é verdade que o peito fazia força para ajudá-los, mas as vezes, as vezes nem isso, abriam-se sozinhos mesmo, de gasto, de uso...de tanto serem postos de lado.
E ele – todo doído, e agora abafado, amedrontado – sorria e exclamava: Culpa da cafeteira mentirosa, culpa da cafeteira mentirosa!
E então: doído, abafado, amedrontado e sorrindo: sentava-se na janela para estudar o movimento da rua. Sentava-se para admirar o movimento cinza dos prédios, das paredes, das pedras, do pó.