martes, septiembre 18, 2007

Chocolate

Já tomou banho de arruda e sal grosso. Deixou rosa na encruzilhada. Pediu conselho pro Preto Velho. Já pendurou Santo Antônio de cabeça pra baixo. Implorou à Nossa Senhora. Rezou dez terços e até agora nada. Martha com trinta, formada, solteira e sem filho. Viciada em chocolate, cansada, porém, trabalhadora, esperançosa, gentil, simpática, amiga, conselheira.
E agora dançava como se não houvesse ninguém em volta, no corredor do ônibus cheio, poça de suor embaixo dos braços, passos de valsa sozinha e sorriso de criança. Claro, ninguém entendeu, mas ninguém falou nada. Como um berimbau, seu corpo que não é assim tão eclético, inclinou-se pra trás em um passo mais ousado e quase estrebuchou-se no chão, apoiou-se na moça ao lado que tentou desviar e depois suspirou arrogante.
Retomando a consciência então, Martha com trinta, formada, solteira e sem filho, tirou um chocolate do bolso e apertou a campainha do ônibus, mas antes de descer apertou com toda sua força o chocolate na palma do mão e jogou no primeiro rapaz que viu.