domingo, abril 22, 2007

Morte Mentolada

Alguma coisa entre: The Smiths, Oscar Wilde, Caio Fernando, Legião Urbana, café gelado e muitos cigarros.
A morte mentolada no cinzeiro de pedra verde musgo que atrai energias positivas, porque sobreviver por entre a noite era atrair o máximo de energias que podia, sugar como uma sanguessuga. Sugar até a última gota, o último gesto, o último âmago, o último gemido. Sugar da vida o grosso-áspero-leitoso.
Na janela o sopro do vento, no sopro do canto da boca, a fumaça assim: calma, em um suspiro reto e cinza.
Na janela a amargura e o choro quente, logo após o riso. Frutas geladas contrastam com o que quente tu me dás.
Se já passou agora metade da madrugada e a manhã fria vem em mais um cigarro e mais um suspiro, vem também a manhã em mais um sopro de vida.
Sugas tu a manhã agora.
Livra-te de culpa.
Morres e atinges assim a vida de verdade. Com cheiro acre e gosto de mentol.

martes, abril 17, 2007

palavra

A Toca me protege do frio
A Oca é oca;
E não tem telhado.
Toca por dentro a palavra
Toca por fora o tato;
Sente por dentro tocado
Sente por fora, encostado
A palavra é a ejaculação da boca.
A Toca protege e aquece
A Oca que é oca.
E o ouvinte por fora ouvidos
E por dentro, contaminado.
E o telhado por fora só telhas
O telhado de fora, estrelas.

jueves, abril 12, 2007

Recortes

Ele apagou o cigarro no cinzeiro de pedra-verde-musgo e a porta do quarto bateu. Abriu a janela e viu o dia. Quente úmido abafado. Abriu a janela e viu mais janelas. E viu telhados e estacionamentos. E viu uma casa bonita com um quintal grande e bonito e com crianças brincando no quintal. E fechou a janela. As crianças no quintal bonito davam um ar de esperança bonito praquele apartamento cinza gélido sem-graça e cheio de recortes na parede. Então ele sorriu. Abriu a porta do quarto e dessa vez lembrou de prendê-la pra que não batesse novamente. Abriu a janela da sala pra que entrasse um ar puro e novo na casa. Um cheiro de concreto molhado pela chuva que insiste em chover de madrugada pra que o ar da manhã seja úmido e o da tarde abafado. Abriu a janela pra que entrassem energias novas e saíssem as antigas. Renovar as energias, ele disse. Disse sete vezes e acendeu uma vela. Com a vela acendeu a chama do fogão. E com a chama esquentou a água pro café. Preciso molhar as samambaias. Pensou entre o cheiro de café novo as velhas pastilhas azul-piscina da parede da cozinha e a mesa de madeira. O jogo de xícaras coloridas. Escolheu a branca. Pra renovar as energias.
Ela chegou em casa atirou as pastas e folhas e sapatos no sofá cor creme. E se sentou com ele à mesa. Escolheu a xícara verde. Beijou-lhe a testa. Serviu um pouco de café e completou com leite. Ele sorriu.
- Você está bebendo café demais. E está muito magro. Aposto que mal almoçou hoje.
- Acordei agora.
- Você está desperdiçando sua vida.
- É o que me resta pra desperdiçar.
E então ele foi até o quarto buscar os cigarros e abrir novamente a janela. As crianças continuavam brincando no quintal grande. Voltou a cozinha e ela entrou no quarto. Pegou a toalha e foi pro banho. Sentado na sala ele fumava e esperava que ela saísse do banho pra que pudessem conversar. Não que quisesse conversar. Mas queria ouvi-la, porque ela falava bastante e falava coisas bonitas e falava sobre pessoas e falava como uma amiga deve falar. E ele a amava. Amava como se ama a alguém que fala coisas bonitas e lhe passa a mão nos cabelos despreocupadamente. Amava como se ama alguém que se preocupa porque você está magro demais. E tomando café demais. E fumando demais. E aproveitando a vida de menos. E escrevendo bem menos do que deveria. E saindo menos de casa. Ele a amava porque não esperava que a amasse. Mas foi uma coisa forte. Uma coisa que veio vindo com o tempo e aí não deu tempo de segurar. Que cresceu dentro dele e tomou conta. Que escolheu ele pra morar. Dentro dele. E na casa dele.
Ela saiu do banho e cheirando a sabonete sentou do lado dele no sofá creme. De dentro da pasta tirou uma revista que ela disse que tinha umas imagens incríveis. Pra que eles recortassem e colassem pela casa. E tirou um livro que ela disse que ele tinha que ler. E ele prometeu que leria assim que tivesse tempo. Ela riu, porque ele sempre tem tempo. E tirou também um buquê de rosas pra eles porem no vaso que fica na mesa de centro. Mas ela se desculpou por as rosas terem murchado por estarem guardadas dentro da pasta porque ela pegou uma chuvinha no caminho e aí foi obrigada a guardá-las. Mas ele disse que não tinha problema e que eram as rosas mais lindas que já tinha visto. E botou ali no vaso. Do lado da vela. E disse que agora sim a casa absorveria energias. Trouxe rosas vermelhas porque vermelho é a cor da paixão, e nós dois estamos precisando de paixões. Ele disse que a vela rosa não foi coincidência. Deitada nas pernas dele, ela falava, e falava bastante, e falava coisas bonitas.
E enquanto ela falava ele ia percebendo que talvez seu apartamento não fosse tão cinza gélido e sem-graça. Que os recortes as velas as flores deixavam o ambiente alegre. Que ele tinha ali dentro tudo o que queria e precisava. Que ele amava. Amava a ela. Amava a casa. Amava a ele. E quanto mais ela falava e mais ele ia percebendo, mais tinha certeza de que a única coisa que tinha pra desperdiçar estava ficando mais bonita. E indispensável.

lunes, abril 02, 2007

Eu entendo.

"Ai como eu queria tanto agora ter uma alma portuguesa para te aconchegar ao meu seio e te poupar essas futuras dores dilaceradas. Como queria tanto saber poder te avisar: vai pelo caminho da esquerda, boy, que pelo da direita tem lobo mau e solidão medonha."
Dama Da Noite - Caio F. Abreu


Eu entendo, garoto, eu entendo. Entendo que você não tenha mais preocupações do que se divertir e se tornar popular. Do que se divertir divertindo os outros. Do que experimentar de tudo e todos enquanto o tempo te permitir. Mas o tempo é cruel, garoto. Um dia as preocupações vão surgir. Porque o mundo não é feito só de fantasias e diversões. Com o tempo você vai percebendo, garoto, que a diversão pode estar em coisas e pessoas que você nunca sonhou. Eu entendo que você não queira perceber que ter um objetivo e um plano de futuro é importante. Porque até uma certa idade o nosso futuro é destinado. Mas chega uma hora que você é que decide, garoto. E aí vem o peso da responsabilidade. Como um prédio de quinze andares desabando nas suas costas com as pessoas todas a sua volta cobrando o porque do que você faz. Eu entendo que nem tudo o que você faz precise de um porque, e nem tudo o que eu faço tem um porque, até porque quase nada do que eu faço precisa de um porque. Mas não precisa porque eu já descobri o que eu quero fazer, garoto. Posso não ter descoberto o como fazer. Mas isso se descobre ao longo da vida. E eu entendo que você não queira pensar no que fazer e muito menos em como fazer o que fazer. Mas chega uma hora em que você é que decide, garoto, você. Só você. E essa hora dói.
Vem aqui mais perto, garoto. Me deixa aproveitar você. Porque eu não sei o que você vai fazer daqui a pouco e nem eu sei o que vou. Vem aqui mais perto e não fala nada. Me deixa te sentir, garoto. Uma hora você vai perceber que as pessoas não precisam de rótulos. Não precisam de títulos. Não precisam de alianças, garoto, as pessoas não precisam de alianças. Vem aqui mais perto e deita tua cabeça no meu ombro pra sermos as pessoas mais felizes do mundo por um segundo. Tudo bem, eu entendo que pra você o sempre dure pra sempre. Mas não dura, garoto.
Eu não tenho mais a sua idade, mas eu ainda tô viva. Eu tô tão viva que dói, garoto. Dói. Pode parecer que não e eu entendo que não pareça. Mas eu também sei viver. Você entende? Não, você não entende. Mas uma hora você cansa de experimentar as pessoas e ao mesmo tempo esperar que alguém lhe torne a pessoa mais feliz do mundo pra sempre. Eu acho até que tô vivendo mais do que você, sabe. Mais viva do que você. Eu me divirto tanto quanto. E experimento tanto quanto. Mas uma hora você percebe que existem outras coisas. Que sexo é tão importante quanto amor, garoto. Que sexo não é no fim-de-semana e amor durante ela. Que amor não é casar e ter filhinho. Que sexo não é pecado. Não foi feito pra ser feito escondido.
Eu entendo que você é tão moço e não quer se desiludir. Eu entendo que você é tão moço e não quer se envergonhar. Eu entendo que você é tão moço e não quer ficar triste. Eu entendo que você é tão moço e não quer que o mundo fique chato. Eu entendo que você é tão moço e quer que as coisas boas durem pra sempre. Mas não duram, garoto. Eu tô tão viva, garoto. Tão viva que dói. E vai doer pra sempre.