sábado, mayo 27, 2006

Como um Anjo.

Ela enlouqueceu, tinha certeza: ela havia enlouquecido. Falava falava falava e tornava a falar, as vezes parava e soluçava baixinho, passava a mão em seus cabelos e se encolhia.
- Maldito! Ela berrava como se alguém pudesse escutar, pintava as paredes do banheiro com seu batom vermelho, escrevia palavras e mais palavras, desenhava círculos triângulos quadrados e mais formas geométricas, jogava o batom longe e arrastava-se para buscá-lo, amassava a sua roupa e sentia-se feia, as vezes parava e soluçava baixinho, bagunçava seus cabelos e se esticava.
Sempre via tudo deitado na cama e as vezes berrava também, mandava parar, arrumar essa bagunça toda e vir dormir, ou sair se atirar em baixo de um carro, pular da nossa sacada, acabar logo com toda essa besteira, ou até, quem sabe, deitar-se em meu peito para que eu possa ajuda-la a chorar. Mas ela havia enlouquecido, dessa vez eu tinha certeza, nunca havia falado tanto assim na vida, a não ser quando contava-me algo desinteressante, mas falava normalmente, e não compulsivamente como agora. Pensei em quebrar algo ou em dormir e fingir que nada estava acontecendo, pensei em levantar e em beber um copo de leite quente.

Mas dessa vez, quando olhei, já havia atirado-se de nossa sacada, e antes que eu pudesse notar, voava graciosamente e zombava de mim, seus cabelos balançavam com o vento, nua e linda ela voava e antes que eu pudesse notar pairava berrando.
- Eu te amo.


viernes, mayo 19, 2006

Sempre.

Passeava pela rua na madrugada fria, caminhava sem saber nem para onde ia, mas caminhava, ou melhor, arrastava-se pela rua, pensava em parar em algum bar e beber algo, mas não bebia, hoje não bebia, não tinha vontade. Cantarolava baixo e sentia frio, seu terno cinza estava sujo de alguma coisa, sua cabeça suja, seus pensamentos imundos, seu terno sujo... tinha medo de encontrar mais alguém caminhando pela rua que não fosse algum bêbado ou algum cachorro vira-latas, revirava latas mentalmente como se fosse um bêbado, cansava, caminhava, sem saber nem para onde ia.
Cansado procurou sentar na calçada antes de voltar para a sua casa, de Segunda-feira a Sexta-feira, saía as oito e chegava as seis, menos nas sextas, nas sextas saía as oito e chegava as nove, dez, onze... sempre o mesmo chope, no mesmo bar, com os mesmo amigos, amigos da repartição, amigos sem alma, sem vida e sem cor. E era sempre a mesma conversa, e como anda o clima, quem tá comendo quem, como andam os filhos no colégio, a barriga do chefe, o bigode do Tavares, a camisa rosa do Soares; sempre a mesma ladainha quando chegava em casa, era a mesma mulher, o mesmo futebol, o mesmo banho e o mesmo pijama, os mesmos filhos, o mesmo CD de samba, a mesma cerveja e o mesmo tédio.
Mas hoje seria diferente, nem era uma Sexta e estava atrasado, foda-se que estava atrasado, queria beber um copo de leite e conversar com o dono do bar, reclamar da vida e cantar no Jukebox sóbrio, queria fugir da rotina, extravasar. Não amava sua esposa, não aturava seus filhos, detestava com todas as suas forças seus colegas de repartição, detestava a sua pasta e pensou em jogá-la no meio da rua, sua pasta marrom não combinava com o terno cinza, nem um pouco...pensava em voltar para casa e para os braços da Maria, amava sua Maria é verdade, amava a Maria que havia conhecido não sua esposa, amava a Maria que lhe dava forças e acreditava nos seus sonhos, e tudo isso na época em que ele também acreditava nos seus sonhos. É sempre a mesma ladainha, o mesmo cansaço e o mesmo tédio, maldito tédio.
E em uma fração de segundos sua pasta já estava no meio da rua, sua gravata já estava solta, sua camisa desabotoada e seu paletó sujo no lixo, em uma fração de segundos estava saciado e decidido, era hora de voltar para casa, para os braços, cabelos, boca, dentes, pernas, coxas e ventre da Maria.

viernes, mayo 12, 2006

Vento

Brilha o sorriso
E a expressão escondida
Foges, em tempo
Do que lhe confundes.
Procuras perder, o que nasceu
E consolidou.
Cansada, procuras perturbar
E perturbada, descansa.
Põe a máscara, e então
...Revelas
Revelas a expressão
E a impressão que causa o sorriso
Revelas onde escondeu-se
Do que lhe confundiu.
Achas o que nunca perdeu
E finalmente, entendes.
Descansada, procuras ser
E apenas, ser.

lunes, mayo 08, 2006

Lábios

Ela passa horas dissertando sobre algo que ele fingia entender perfeitamente sem ouvir uma só palavra, é algo interessante, ele sabe, mas não está prestando a mínima atenção; por mais importante que seja o assunto, não é mais belo do que a sua boca entreaberta.


Ela queixava-se sobre seu marido, eram casados desde os seus vinte e cinco anos, e eu não ousava pensar sobre sua idade, mas sabia que, embora bela, a velhice já batia à sua porta. Ela agarrava a xícara de café com mãos macias e um certo desespero, tremia levemente suas mãos e suas pernas inquietas chutavam compassadamente a mesinha de centro em sua frente, seu vestido preto um pouco acima das coxas e sobriamente decotado lhe dava um ar sensual e respeitável, suas coxas à mostra revelavam que, apesar da idade, ainda cuidava-se muito bem; seu perfume era doce e atrativo, misterioso.
Levanto-me para pedir à minha secretária mais um pouco de café, aproveito e arrumo dois quadros que estavam tortos na parede e irritavam-me, arrumo também uma escultura de mármore que sem querer esbarrei empurrando-a para o lado; fingindo interesse no que ela falava murmuro um “uhum” e volto a caminhar pela sala esperando impaciente pelo café, lembro-me de ouvi-la falar algo como “Ele sempre esquece...” o que será que ele sempre esquece? A toalha em cima da cama? O aniversário de casamento? Ou o dela? Ou quem sabe sempre esqueça que camisa de manga curta com gravata é péssimo? Não, não deve ser isso...com certeza não é.

- Você está ouvindo?
- Claro que estou, é interessantíssimo, você tem, apenas, que dar mais valor aos seus próprios interesses...
- Tens razão.

Eu sempre tenho, ela apenas não sabia disso ainda. O café finalmente chega, agradeço cinicamente, sento-me e cruzo ligeiramente as pernas fingindo um ar de interesse, ela já não agarrava mais xícara nenhuma com as mãos, suas pernas estavam agora para trás de sua poltrona, mas continuavam inquietas, ainda não havia reparado em seus cabelos, estavam presos, ela acabara de soltá-los...eram negros, sedosos, bonitos, não belos, apenas bonitos. As suas mãos trêmulas buscavam algo em sua bolsa, ela estava retocando o batom e mesmo assim continuava dissertando.
Mas por mais interessante que seja o assunto, não era mais belo do que sua boca entreaberta.

martes, mayo 02, 2006

Meu Ídolo é Personagem de um Romance Imoral

O egoísmo é o mais belo dos sentimentos imorais, e a imoralidade, o mais belo grau de consciência que se pode alcançar. Consta no dicionário, egoísmo: Excessivo amor aos próprios interesses, sem atender aos dos outros...equívoco, não se diz egoísta o que não atende aos interesses dos outros, e sim aquele que dá mais valor aos próprios trabalhando para que com eles seja feliz consigo mesmo, e assim, podendo atender aos interesses alheios...O Altruísta é um hipócrita! Quem consegue fazer bem ao próximo sem fazer a si mesmo? Se o altruísta usa como argumento sentir-se bem ajudando o próximo é esse um egoísta tão valoroso quanto os próprios egoístas, e se foge do conceito do seu próprio rótulo, pode esse ser levado a sério então? Ou o altruísta é um mentiroso, ou um egoísta de estimada estirpe.
Quem se diz coletivista sem ser individualista? Coletivista é aquele que entende a si mesmo, ajuda a si mesmo sem tentar atender ou julgar os outros; no momento em que oferece algum tipo de ajuda, não está sendo coletivista e sim, esperando algo em troca, nem que seja paz de espírito. Ninguém sente-se mal fazendo alguém sorrir, como ninguém sente-se mal sorrindo.
Onde o politicamente correto se torna tão egocêntrico? Exatamente onde o cultivam.

“As pessoas que não são egoístas são absolutamente desinteressantes."