lunes, enero 30, 2006

O Poeta sobre tudo fala, e ao mesmo tempo, cala.

Ele era velho e maltrapilho, embora eu não tivesse certeza de que realmente fosse velho, tinha uma aparência desagradável, sujo, completamente sujo, e com um mau cheiro inconfundível; as pessoas que estavam esperando o ônibus (Pois o velho habitava uma parada) zombavam dele ou se afastavam olhando com nojo, fugindo do mau cheiro, e o velho exclamava, exclamava a plenos pulmões: O mundo é um palco, a vida é a Arte, é tudo, Poesia.
Fitava a todos com olhos perdidos, fugindo da realidade, ninguém sabe quantos anos ele tem, do que se alimenta, onde faz suas higienes -embora o mais provável fosse de que fazia em suas próprias calças- e muito menos o seu nome. Era o velho louco e maltrapilho da parada de ônibus, mas era, na verdade, o louco-poeta que via o mundo com olhos coloridos, e não olhos sem cor como os dos que zombavam dele. Eu pensava enquanto esperava o ônibus em como teria sido a vida do velho antes de parar naquela parada e ficar gritando verdades por aí (Ora, e quem quer ouvir verdades?) será que ele teve família? será que é um ex fuzileiro naval com uma biblioteca inteira, formado em filosofia, que largou tudo para beber por ai? ou um ex ator que largou os palcos porque se desiludiu com sua Julieta que resolveu amar outro Romeu? Com certeza nunca soube que não era normal gritar suas verdades por ai.
Zombavam do velho sem saber que o velho é que na verdade zombava dos olhos sem cor deles, zombavam do louco-poeta sem saber que ele estava apenas perdido em sua sanidade, sim, sanidade, e quando notava, sentia medo.

E o velho exclamava, exclamava a plenos pulmões: O mundo é um palco, a vida é a Arte, é tudo, Poesia.