A pior parte é das 3h
Eu queria dançar um tango. De vestido longo, rosa na boca. Que nem nos filmes. Queria um jantar à luz de velas, vinho e fondue. Queria que ele me chamasse de meu amor e me fizesse carinho na nuca e fosse me beijando calmamente e me despindo com classe, que nem ele fazia nos primeiros meses. Antes de ele começar a bater na minha cara e me chamar de cadela no cio. Mas como eu gostava. De tudo eu gostava. Eu só não gosto é de ficar sozinha. Esperando o dia amanhecer.
Tem algum puto chorando no prédio. Eu só ouço os soluços. Algumas vozes, uma discussão. Um fim de namoro. Uma briga qualquer. Foda-se. Pelo menos tem alguém pra brigar, porque até quando ele me batia com força, com raiva no lugar de tesão, eu gostava. Me deixando roxa, com a cara inchada, tendo que mentir no trabalho que caí da escada. Enquanto ele me batia pelo menos eu sabia que ele sentia algo. Mesmo que fosse raiva.
Mas ele foi embora. Foi embora com uma vadia vinte anos mais nova. Mais magra. Mais independente. Com uma vadia muito mais vadia do que eu. E agora só o que eu sinto é saudade. Solidão. Uma espécie qualquer de vazio. Foda-se. Amanhã eu não vou trabalhar. Eu vou deitar na porra da minha cama e de lá só vou levantar quando tiver setenta anos. Solteira, mas com ar de viúva. Vou deitar na minha cama e procurar por alguma lembrança dele. Qualquer mancha. Ou qualquer cheiro. Qualquer lembrança. Dele.
Ou de qualquer outro.
