sábado, junio 20, 2009

Mulher de Quase Trinta

Ele lhe prometeu um poema. Ela sempre quis ganhar um poema. Junto com uma rosa vermelha, bem brega, recitado ao luar, acompanhado de um violão, ela na janela de vestido rodado e tranças longas. Bem Rapunzel, bem Romeu e Julieta, mas com um final feliz.
Ela suspirou, fechou o romance que estava lendo, desligou o rádio e foi fazer uma panela de brigadeiro. Nada melhor do que uma panela de brigadeiro nesse friozinho, hein? Ela disse isso em voz alta. Pra ninguém. Depois se sentiu meio triste, meio acanhada, meio decepcionada de não ter ninguém pra dividir uma panela de brigadeiro. Dividir um filme. Dividir uma tarde. Dividir uma vida. Dividir.
É uma mulher de quase trinta, que trabalha o dia inteiro em uma empresa pública, tem um bom cargo, acha que ano que vem vai ser até supervisora, quem sabe, chefe de departamento, tem toda a chance, chega no horário, sai no horário, não faz nada que não possa ser útil à empresa. Tem um carro do ano, se veste bem, é vaidosa. Tem dinheiro na conta, só compra o necessário, é econômica. Tem curso superior, um bom papo, é inteligente. Tem amor pra dar e vender. Tem tesão acumulado.
Não tem mais esperança.