domingo, marzo 29, 2009

Primeiro dia.

- Num momento se pode transpor imensas distâncias, rei, quando esse momento vem preparado... Também eu te garanto que também tu não tens muito tempo diante de ti. Mas numa hora, num minuto, num segundo, podes andar mais que em toda a vida. Até esse instante, a minha obra está no começo: Tudo pode ser deitado a perder... O teu sofrimento é de barro... não presta! O que em ti sofre é o teu orgulho, a tua vaidade, a tua dignidade, a tua futilidade, a tua humanidade mesquinha. O que te dilacera é a opinião do mundo. Respeitas a sua vileza e temes os seus juízos.
Ora isto quando a Glória te chama, rei dos cegos! Como queres que eu esteja satisfeito?

JACOB E O ANJO – JOSÉ RÉGIO




Fiquei tonto quando o conto acabou e o piano ainda tocava, acendi um cigarro e mais um e mais um e mais um atrás do outro até que a tontura passasse e eu pudesse começar a escrever.

Passei dois dias inteiros deitado, imóvel em posição fetal esperando uma ligação uma batida na porta um contato qualquer. Não acontece nada. Levanto, com fome, me sirvo de duas colheres do mais doce que acho, como o mínimo possível, até passar a necessidade. Não tenho desejo nenhum, tudo me parece igual e de fato o é.

Não tenho mais a paciência que tinha antes. Antes, quando ela recém entrava aqui, quando tudo era lindo e eterno, depois foi apodrecendo aos poucos, até ela sentir nojo, e se tornar só meu, minha posse, o que não quero nem posso jogar fora.

Acreditei em tudo, acreditei que podia ter uma espécie de felicidade, uma espécie de sentimento qualquer, uma espécie de desaparecimento dessa angústia tão forte, que é só. É só o que existe. É só no que existo. Esse nó na garganta.

Depois ela foi embora, foi tudo embora, perdi essa esperança que havia adquirido e perdi minha maneira de encarar o mundo: imperfeita, cruel, cheia de mágoas, mas confortante. Foi aprendendo a fazer coisas que desaprendi por completo a gritar, e sinto essa falta.

Se tivesse álcool beberia quantas garrafas agüentasse, até vomitar toda essa angústia, embora saiba que vomitarei tudo ao que ela circunda, e ela permanecerá lá, intacta.

Foi numa noite de sexta que tudo chegou ao fim. Embora teimes em não aceitar e com frases subjetivas tentes explicar que na verdade não é bem assim que eu só vejo as coisas retas e românticas. É assim que acontece. O fim é o fim, o início não existe mais e o meio é só o que quero lembrar. O que não entendes é que não consigo e que tudo que faço ainda permanece lá. Tudo que penso ainda permanece lá. Eu ainda permaneço lá. E só me sinto inteiro assim. É uma falta intensa, imensa, que sempre senti. E que tinha, tinha passado por um momento, me sentia maior, me sentia melhor. Não me sentia mais indefeso. E agora é tudo isso, mas sete vezes pior.

Meio artístico, como uma névoa de tinta cinza manchando o chão.

Ainda não consigo começar a escrever com clareza.

Fumo um cigarro atípico apático à vida que em volta passa passo junto com ela e nada passará.

Fumo um cigarro atípico apático à vida que em volta passa passo junto com ela e nada passará.

Fumo um cigarro atípico apático à vida que em volta passa passo junto com ela e nada passará.


2 comentarios:

jubs dijo...

ainda quero aprender a escrever bonito assim, mesmo quando o assunto é deveras desagradável.
beijo guri :*

Cláudia Linck dijo...

eu não poderia ter escrito tão bem, mas eu deveria ter lido pra enxergar um pouco do que acontece comigo. ainda bem que eu li!