lunes, julio 21, 2008

ao som de Ramilonga

Chove na tarde fria de Porto Alegre
Trago sozinho o verde do chimarrão
Olho o cotidiano, sei que vou embora
Nunca mais, nunca
mais
Ramilonga - Vitor Ramil

Começou a chover um pouco lá fora. Acho, na verdade que já faz tempo, pois as roupas no varal já estão bastante molhadas. Talvez a chuva tenha diminuído agora, e eu só notei porque fui à janela fumar. Acho que não notei antes porque estou sentado desde que acordei na mesma posição tentando compor alguma coisa, mas não consigo, não passa nada pela minha cabeça a não ser a imagem das folhas verdes murchando, ficando amareladas e os gravetos cada vez mais finos e quebradiços, o verde se misturando com o amarelo, um tom arroxeado também, meio sépia, e embaixo, perto da água morta e amarela, as folhas já meio cinzas, como a chuva ou aquele tchau mudo, aquele olhar calmo.

Já reparou como a grama fica bonita quando chove? Aquelas pequenas gotas, em cima das pequenas folhas, sabe?

- entre nós há uma distância tão grande. é esse seu afastamento, essa sua mania de não demonstrar sentimentos, essa carcaça dura que eu sei que é só fantasia porque aí dentro tem tanta coisa.

- nós dois sabemos que não. olha aquela criança correndo com o cachorro, com as roupas sujas de lama, os dois rolando pelo chão molhado, escorregando, caindo, sujando e mesmo assim sorrindo. é isso, escorregar, cair, sujar, ser frágil, não é ruim. o que importa é o sorriso.

- isso, as pequenas coisas. o carinho leve, o sorriso discreto.

- é porque você tem medo do que é extremo. é porque você tem medo de se expor. é porque você tem medo de lembrar de algo que ta aí guardado, há tanto tempo que nem você lembra mais.

Vou abrir um pouco mais a janela, desligar a televisão e ficar ouvindo os pingos baterem na vidraça. Tu destrói meu corpo pouco a pouco com compulsivas carteiras de cigarro, copos de hi-fi com suco industrial e sobra de vodka barata que tu deixou aqui do tempo em que morava comigo. Tu destrói meu cérebro com essas lembranças compulsivas que não me deixam dormir, nem ler, nem mesmo me afundar em bebida e ficar chorando, lamentando, relembrando de um tempo futuro que só existiu na minha mente. E talvez na tua. Porque o que mais tínhamos eram planos. Agora eu só tenho um plano: dormir pra não pensar. E é só o que faço também. Durmo.

E mesmo quando deito, o pensamento me consome e não passa nada pela minha cabeça a não ser a imagem das folhas verdes murchando, ficando amareladas e os gravetos cada vez mais finos e quebradiços, o verde se misturando com o amarelo, um tom arroxeado também, meio sépia, e embaixo, perto da água morta e amarela, as folhas já meio cinzas, como a chuva ou aquele tchau mudo, aquele olhar calmo.

Aquele tchau mudo. Aquele olhar calmo.

3 comentarios:

giz dijo...

não ia comentar, até porque é cansativo mas... porra. que foda.





mesmo.

Qorpo Santo dijo...

ei muchacho, muito bom seu blog! nunca largue a literatura..

muita força no subtrópico!
não se deixe entumecer pelo minuanos da vida!

abraços

Priscilla Zanini dijo...

clicando, clicando. parei por aqui.
do todo superficial que li, me aprofundei no texto de como atravessar uma manhã de sábado.
gostei muito.
mais que do cheiros, das memórias. e daquilo que a gente não pode controlar.
abçs e incentivos.