miércoles, octubre 17, 2007

Talvez

Deixou tocar duas, três vezes, abaixou o volume, acendeu um cigarro e atendeu.
- Alô? Oi, tudo bem? Que tá fazendo?
- Nada.
- Nada mesmo?
- Assistindo uns Dvds, fumando um cigarro, bebendo alguma coisa, falando ao telefone. É, nada.
- Eu posso passar aí? Não vou atrapalhar?
- Não sei.
- Posso?
- Se fizer questão.
- Então tá, tô passando aí, levo algo? Quer algo?
- Não.
- Tô indo, um beijo, até daqui a pouco, tchau...
- ...
Desligou o telefone, aumentou o volume, apagou o cigarro no cinzeiro, amassou e juntou com o mar de cinzas que fazem um contraste tão bonito com o verde musgo. Ela ia demorar um pouco ainda, se morasse no mesmo lugar que morava antigamente, tirou a camisa, a calça, a cueca e as meias, fez sete abdominais, acendeu um cigarro pra recuperar o fôlego, oscilou entre mais um copo de vodka com refrigerante ou uma cerveja, abriu uma cerveja e entrou no banheiro. Jogou o cigarro pela janelinha de vidro pintada de verde e entrou no banho.

Deixou tocar duas, três vezes, abaixou o volume, acendeu um cigarro e atendeu.
Ela entrou apressada, largou a bolsa correndo no sofá, sentou, serviu um copo de vodka, desprezou o refrigerante, aumentou o volume da televisão e finalmente olhou pra ele.
- Oi?
- Oi.
- É isso que tu faz todo Sábado?
- É Terça-feira.
- Terça, Sábado, Domingo, tanto faz, tu não trabalha.
- Eu sou artista.
- Ou seja, não trabalha.
- Tu veio até aqui pra isso?
- Não, não, eu vim porque sinto saudade. Tava me sentindo tão sozinha, tão sozinha, aí lembrei de ti.
- Tava te sentindo ou tava sozinha? Ou tava sozinha e te sentindo ao mesmo tempo? As vezes me sinto sozinho mesmo com pessoas no meu apartamento. É bom ficar sozinho as vezes, sabia?
- Tava e me sentia ao mesmo tempo. Eu não gosto de ficar sozinha.
- Não gosta de ficar ou não gosta de se sentir? Eu gosto de me sentir e gosto de ficar. Tava me sentindo sozinho antes de tu chegar, sabe, e tava muito bem.
- Antigamente tu era mais simpático (ela sorriu) me dá um cigarro?
- Não. Eu tô parando de fumar, e tu também deveria.
- Mas tu tava fumando quando eu cheguei...e é, eu tô parando, então não compro mais cigarros, mas...eu tô bebendo e contigo, e quero um cigarro, por favor?
- Tem ali no maço, do teu lado, embaixo da segunda poltrona à esquerda da mancha de café mais escura.
- Sério?
- É claro que não, tá no meu bolso. Mas o isqueiro eu sei lá onde tá, joguei por aí, algum lugar.
- Senta aqui, me dá um abraço...
- Não. Vou pegar mais uma cerveja, quer? Tu tá bêbada mesmo, bêbada desde que chegou, não costumava ficar assim, mas não vai fazer mais mal misturar mesmo.
- Não, não quero. Quero que tu sente aqui e me abrace.
Ele foi até a cozinha, pegou mais uma cerveja e sentou no sofá. Com o dedo brincava nas cinzas e pensava em como é bonito o contraste que elas fazem com o verde musgo do cinzeiro. Não olhava pra ela.
Ela o abraçou.
- Então é isso? Assim? passam anos e anos e então de repente tu fica bêbada, te sente sozinha, lembra que eu existo e decide me ver? Não te sentiu sozinha outras vezes esses anos todos? E o que fez, ligou pros outros que vieram antes de mim? Aí agora chegou minha vez, é isso?
- Nem tudo tem uma ordem cronológica, meu bem.
- Foda-se.
- Tu quer saber? É, é assim, de repente depois de todo esse tempo eu fiquei bêbada, me senti sozinha e decidi te ver. Mas não, eu nunca me esqueci de ti, porque esqueceria? Tudo pra ti é um escarcéu.
- Tudo pra mim é fácil, muito fácil. Eu tava esse tempo todo na tua estante, aí resolveu vir tirar o pó. Acha que eu passei a vida toda te esperando?
- Não vim tirar o pó, vim ver como tu tava, te abraçar, porra, tu nunca sentiu saudade?
- Não.
- A diferença é que eu não finjo.
- Nem orgasmo? Nem compaixão? Nem sono ou febre ou cansaço? Nem simpatia? Todos fingimos, o tempo todo. Olha...se tu quer me beijar, tirar a roupa, fazer sexo casual, encher a cara e me usar a noite toda, foda-se. Só faz isso rápido que eu quero terminar essa vodka e esse maço de cigarros antes das três, superstição, sabe.
- Tu sempre gostou de ser usado, e reclama de “ficar na minha estante” e blá-blá-blá, como se tudo isso fosse verdade. Não, não quero sexo nem porra nenhuma. Só queria te ver, mas quer saber? Eu não perdi nada esses anos todos como achava, tu continua igual. Um beijo viu, boa noite, te cuida.
Abaixou o volume da televisão, acendeu mais um cigarro e abriu a porta: Talvez eu tenha passado.
- O que?
- Nada, vai lá.
E ela saiu sem olhar pra trás. Sem dar tempo de ouvir que talvez, talvez ele tenha passado a vida inteira esperando por ela. Talvez.

7 comentarios:

PUNKSSAURO dijo...

Não sei se ele é artista. Não pela ranzinzice, não sei.
O que tenho certeza é que ele tá mais perdido que ela. Não pela solidão ou a opção da solitude.
Esse cara é um chato, pronto.

(espero que não seja autobiográfico!)

I n L a k ' E c h dijo...

Coisas que "Talvez" nunca ninguém saberá... E por ser tão simples, é tão complexo - paradoxal e... É!

Sinfonia de Desilusão dijo...

gustavo, espero que vc não seja assim!
que cara chato! sabe quando a gnt faz de tudo por aquilo, e espera por aquilo durante um tempão, mas no final estragamos a oportunidade!? ai que aflição.

mas ficou bom! pq se revolta seu leitor, ficou bom! ;)
beeijos, querido!
tainara

- JuH - dijo...

Imaginei ele pintando uma maçã com o fundo verde. [?]

Que isso, gente? Ele não é tão chato assim, vai. No mínimo, interessante... por não parecer interessante. Entende?

Dois beijos.

Sinfonia de Desilusão dijo...

ahhh eu sei que é chato fazer propaganda, mas queria muito q vc lesse meu texto novo, foi o último que eu postei ^^
sua opinião é mto importante ;)
beeijos

Clarita dijo...

três beijos e não se fala mais nisso.



sempre bom passar por aqui. acho que tenho bom gosto (apesar da esquisitisse) e por isso creio que escreves bem, logo volto sempre.

Louise Devam dijo...

Ele se assemelha ao meu ex!!!

enfim...

gostei!