jueves, agosto 23, 2007

além de.

ao som de "Bananeira" versão da Caixa Preta. (ou a da Bebel Gilberto)



Há muito sangue espalhado. Copos quebrados, cigarros molhados, cabeças cheias, salas vazias. Tudo dilacera e espatifa e corta como lâmina gelada entrando na pele também gelada, porque nada mais é quente a não ser o sangue, seja ele qual for.
E acabou. Limpa isso tudo, toma um banho bem quente, seca com a toalha mais felpuda, joga água quente pelo chão. Exige de todos essa compaixão, essa pena, se é que se pode chamar de compaixão, ou pena, esse desejo de ser sempre o que merece conforto: egoísmo: imaturidade.
...
Seja qual for teu santo, tua cor favorita, teu orixá. Seja qual for a marca de chá que tu usa, o tipo de roupa que tu veste, tua escola filosófica favorita. Seja qual for teu pensamento mais íntimo, eu te quero assim, cada dia descobrindo mais e mais de ti, cada dia descobrindo que não, eu não sei nada de ti.
...
Escuta, já tá tarde e tu precisa dormir. Eu botei Keith Jarret pra tocar enquanto olho a chuva cair pela vidraça, eu vou fazer um chá bem quente e vou tomar pensando em ti. Eu prometo. Escuta, eu não tenho muito a te oferecer, além de tudo o que me é mais sôfrego e pulsa aqui dentro, além desse “entregar-se por inteiro”, além desse tatear de cego. Nada. Nada além desse chá quente. Desse olhar pela vidraça.

4 comentarios:

I n L a k ' E c h dijo...

Eu não sei quem é Keith Jarret, mas ficou muito lindo.

Punkssauro dijo...

Bananeira, na primeira, a rubenfonsecada, rolou. Na segunda não.
Aí você botou o Jarret. Se for o Standarts #1 com o Jack Dejohnette e Gary Peacock, cai a chuva, a casa, o mundo e o disco TEm que estar tocando.
Tinha um mano que tocava piano jazzeiro e desistiu. Vez por outra falo nele mesmo sabendo que ele não tá me lendo. Falo pra ver se ele volta a tocar.
Ele tinha uns temas meio Jarret e um deles eu disse que era bom pra tomar um banho. Ele não gostou.
A ação não faz a música. A música não faz nada, preenche sem preencher. A ação, pouco importa, ver a chuva, fazer a barba, andar de bike.
Ele não entendeu nada.

Sinfonia de Desilusão dijo...

seus textos mexem comigo, gustavo, impressionante.
parece que entendo melhor as coisas quando eu os leio...
eu amo chuva, e como diria o renato russo "eu aproveito os dias de chuva"... era quando ele melhor escrevia as músicas ^^
beijos :*
tata

Vento. dijo...

bonito. lindo eu diria, mas daí tiraria a beleza sutil, sabe? lindo é exuberante, e isso foi bonito. foi suave e bonito. assim, simples, suave e bonito. como as coisas cotidianas bonitas e sutis que a gente ignora e só lembra quando lê coisas assim. enfim.