lunes, junio 11, 2007

Sobre uma tarde chuvosa.

“amoras silvestres no passeio público
amores secretos debaixo dos guarda-chuvas”
Minha Casa: Zeca Baleiro


Dentro da loja de conveniências, fumando, distraidamente, ele lia Maiakóviski. A chuva caía fininha lá fora, cortante. Pessoas passavam apressadas, umas completamente molhadas, umas com seus guarda-chuvas imensos. O vendedor de jornal na sua capa amarela congelava. Lá dentro ele se sentia confortável, e como a chuva aumentava gradativamente, gradativamente se sentia mais confortável. E não via o porque sair lá de dentro.
O ônibus freiou molhando todos os que estavam na parada. Ela desceu do ônibus e uma gota caiu em seu cabelo, ela secou com a mão, mas sabia que logo que saísse da parada ficaria totalmente molhada. Botou o capuz do seu casaco, dobrou a calça jeans, suspirou três vezes e atravessou a rua.
Deu a última tragada em seu cigarro e olhou para fora, a viu tentando atravessar a rua, mas tinham muitos carros, e muitas poças.
Ela cruzou os braços na altura do peito, depois tirou o capuz, balançou o cabelo molhado e botou novamente o capuz, cruzou os braços o mais rápido que pode. E então atravessou.
Ele saiu da loja de conveniência e abriu o guarda-chuva. Ela passou do lado dele e sorriu. Cabelos molhados são bonitos, ele disse. Ela fingiu que não ouviu. Quer uma carona? Ele perguntou. E porque não? Ela pensou, e disse também.

- Não tá com frio?
- Eu tô indo na casa do meu namorado, é naquele prédio azul.
- Meu vizinho.

...

- Não nos conhecemos ainda, é estranho, porque, praticamente moro aqui, então, teoricamente somos vizinhos...
- Prazer, Vitor
- Prazer Vitor.

...

- Tem um terreno baldio ali, vamos desviar. Tem lama.
- E uma amoreira. Não quer?
- Amoras não combinam com chuva.
- As silvestres combinam.

...

- Me beija.
- Não é preciso.


Eles não se viam mais. Não em realidade. Encontravam-se às vezes em sonhos. Quando se viam por aí, passeando com o namorado ou o cachorro, cumprimentavam-se de longe, só por educação.
O que será que ele está pensando sobre...? Pensavam os dois.

3 comentarios:

Punkssauro dijo...

Lembrei que nos anos 80 eles vendiam nas bancas de jornal um troço feio de pendurar na parede, tinha o Quixote do Picasso com uma frase do Maiacovski em espanhol (!).
Era aquela do "hay hombres que lucham...".
Pura propaganda dos anos Lênin.
Mas fica o registro de que não me distanciei de Maiaco por isso não, foi que emprestei e não devolveram. Era uma bela antologia, velhíssima, edição anterior à ditadura. Imagina se eles iam publicar isso naqueles anos.
Me veio essa imagem de Maiaco na banca de jornal porque Maiaco numa loja de conveniências também é surreal.
Mas chovia. Na chuva tudo é permitido.

Tainara dijo...

eu gosto de chuva. gosto do modo como você descreve o conforto que ele sente protegido da chuva, eu também sinto isso em dias de chuva.
muito bom. abraços.

Edison Rodrigues dijo...

corações encharcados