lunes, octubre 30, 2006

A Última Tragada

Estou com saudade dela. Não falo com ela há dois dias. Mentira, um. Falei com ela ontem, mas falei muito pouco. Não sei como ela está, não sei onde ela está. Não sei o que ela sente ou pensa, embora mesmo quando fale com ela não saiba o que ela pensa ou sente. Sei apenas o que ela quer que eu saiba sobre o que ela pensa ou sente. E ela sente-se bem assim: mentindo. E eu sinto-me bem assim. Mentindo também, pois a mentira em determinado ponto é saudável, faz-me feliz com o que penso e sinto sobre ela. Faz-me feliz com o que penso sobre o que ela sente, e pensa, de mim.
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Suava embaixo de cobertas e espirrava constantemente. Revirava-se na cama procurando dormir, mas não conseguia. Odiava estar gripado, na verdade, adorava estar gripado. É, adorava. Mas forçava-se a odiar, porque ninguém gostava, ou dizia que gostava. Mas achava bom, achava bom estar doente. Febre calafrios suor excessivo tosse seca dores musculares e articulares fadiga mal-estar dor de cabeça nariz obstruído irritação na garganta. O suficiente para os outros terem pena, o suficiente para deitar e descansar por horas e horas e horas. O suficiente para ele mesmo sentir pena de si. Mas uma boa pena.
A dor na garganta o irritava, porque o chá, quando descia pela garganta, causava um estranho mal-estar. Esquentava muito mais água do que precisava para o chá, quente, vermelho. Descia pela garganta, fazia mal e fazia bem. Ao mesmo tempo. Como ela. Bem e Mal. Duas-mesma coisa, duas faces da mesma moeda. Doença e saúde, preto e branco, amor e ódio, doença e saúde. Ensopava a camisa com suor e não sabia o que era sonho e o que era realidade.
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Um parque, grama verde e vasta. O céu estava azul. Algumas poucas pessoas conversavam e algumas poucas crianças brincavam ao redor.
Ela, estatura média, morena, pele clara, sorriso lindo, olhos negros, olhar calmo, meigo, indirecto. Ele, alto, magro, moreno, pele clara, sorriso tímido, olhos negros, olhar perdido.
Encontram-se. Beijam-se calmamente, mas ao mesmo tempo, voluptuosamente. O céu adquire um tom alaranjado.
Deitam-se na grama.
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Fumava desesperado entre as paredes de seu quarto em um gesto violento abriu as janelas e arrancou os primeiros botões da camisa. Entre as ruínas de sua vida sentia-se acuado, como um prisioneiro. Sem saída do seu cárcere particular de imaginação, de projeção, de sentimentos dotados de uma impossível realização futura, mas que ao mesmo tempo, eram dotados de um prazer atemporal enquanto condição de apenas-sentimentos.
Deitado em sua cama dava a última tragada em seu cigarro. O prazer agora inundava-o e enchia-o de vida.

6 comentarios:

Cíntia dijo...

aah...
não sei oq fala só q
"eu quero um cigarro."

:*

Anónimo dijo...

Ai Gustavooooooooooo
Faz um livro
Aí eu te agencio e ganho 80%
Aí tu e a tua alemoa ganham 20% e vão pro Caribe

Laís dijo...

" Sei apenas o que ela quer que eu saiba sobre o que ela pensa ou sente. E ela sente-se bem assim. Mentindo."

Talvez ela não esteja mentindo.
Talvez ela goste mesmo dele :)

O Gafa dijo...

Do Primeiro e do Último trecho gostei bastante. O Terceiro, não formei opinião. Mas do Segundo, deu vontade me mandar pro Inferno um cara que gosta de ficar doente. Mas vá entender, tem quem goste de cada coisa...
Mas o primeiro e o último passam por cima desse...

Helen.. dijo...

Gostei..
=]

Bárbara dijo...

Sinceramentente?
você escreve realmente muito bem, muito mesmo :*
sentir o que ele sente.