sábado, julio 15, 2006

Vestido Azul

Ela passa as madrugadas em claro assistindo televisão, não levanta para comer, nem para beber, levanta, raramente, para ir ao banheiro. Ela passa as madrugadas pensando: podia ter feito isso, podia ter feito aquilo, ele podia ter feito isso, ele podia não ter feito aquilo... entende? Ela passa as madrugadas apenas pensando.
Ele passava as madrugas inquieto, assustado, suando e tentando dormir. Mas não dormia, nem ao menos cochilava, suava, levantava e ia ao banheiro, levantava e ia à cozinha. Bebia um copo de uísque, sem gelo, bebia meia garrafa de uísque, sem gelo.

Passou a mão nas suas pernas e a olhou, sorriu, olhou para o lado, disfarçou, aí depois pediu uma bebida e decidiu ir ao banheiro. Ela conversava, enquanto ele estava no banheiro, ela falava gesticulava gargalhava ou ficava estática. Ele não sabia, pois estava no banheiro, mas imaginava, era uma grande mania a sua de imaginar.
Voltando do banheiro ele sorriu mais uma vez e disse: Vamos. Aquela voz grave porém doce e abobada, entende? Uma voz com medo. Ela levantou, pagaram a conta e foram, caminhando.
Passou a mão entre seus cabelos e a olhou, sorriu, foi em direção a ela e virou o rosto, com medo. Ela entrou em casa e ele ficou ali, sem movimento que lhe fosse plausível de execução, sem palavra que lhe soasse compreensível para ser dita, ali, parado. Com aquela expressão rude, porém decepcionada. E foi aí que ele voltou, tocou no interfone e ela não quis abrir. Ligou, mas ela já estava dormindo. Decidiu então, deixar um recado, mas ela recebe muitos recados, infinitos recados diários de gente que nem ele, ou pelo menos com a mesma intenção. Ela talvez não tenha ouvido o recado, mas está gravado ainda.
O que ele não soube, é que ela estava no corredor, olhando e pensando: podia ter feito isso, podia ter feito aquilo, ele podia ter feito. E não fez. Entende? Ela ficou no corredor apenas pensando, sabe...

O Sr. Teria um cigarro? Tem água aqui, não tem? Vou beber água, estou parando de fumar, o meu tio morreu disso.
Sempre um tio que morre disso, ou daquilo.


Mas como eu ia falando... ele caminhou até a sua casa cantarolando e pulando pelas ruas, passou em um bar para comprar uísque antes de chegar, repentinamente, voltou correndo até a casa dela, deu um sorrisinho e voltou, entrou na sua. Bebeu a garrafa inteira no gargalo, suou, estava nervoso. Onde estavam os malditos gelos? Eu sei que ele perguntava isso para si mesmo, os malditos gelos. E aí, eu consegui ouvir da minha casa, o barulho foi alto.... deu mesmo para ouvir. Ele atirou a garrafa de uísque no chão que se espatifou em mil pedacinhos e bateu alguma porta, trancou-se no banheiro. Foi um puta estrondo Sr. posso falar puta? Assim, como grande, enorme, estrondoso estrondo é redundante, entende? Um puta estrondo.

E essa noite, essa noite ela também passou em claro, mas passou mais do que nunca pensando no que deveria ou não deveria ter dito, passou chorando e ouvindo os seus recados: ‘...Oi, chegou bem? Tava pensando em passar aí de novo, mas tá tarde né? Amanhã a gente se vê? Claro, nos vemos quase todos os dias... então tá né, boa noite, com os anjinhos, desculpa ligar essa hora hein, acabamos de nos despedir, tá, dorme bem...’

Mas ela acordou mais cedo do que estava acostumada, tomou um copo de leite morno com aveia, chorou no banho, mas já estava mais calma. E essa manhã ela pensava: Será que vestido azul não é claro demais para se ir a um enterro?

6 comentarios:

PUNKSSAURO dijo...

Não gosto de comparar com clássicos e consagrados. Mas é inevitável. O começo, até o estrondoso estrondo tá 'Rubem Fonseca', depois fica 'Nelson Rodrigues', acho.
Azul claro, enterro. Sórdido. Quem não é sórdido, por dentro, nu?

O Gafa dijo...

Acho que perdi uma parte do meio, ou sofro de insensibilidade, mas não entendi o fim!



Mas o desenrolar me soa familiar como deveria ser... acho. Sempre tem um Tio que morre, bem como sempre tem alguém a conhecer uma semelhante história...

lizi dijo...

gustavo, receio dizer q tu não escreves bem...

tu escreves lindamente.

=]

adorei!

não clique denovo, por favor dijo...

=0

Chando, Lucas dijo...

Ah meu, queria ter escrito isso.
gostei.
pacas.


Ah sim, adoro julho em francês: Juillet. É bonito.

Vento. dijo...

Putz! Agora faz sentido pra mim!

É por coisas assim que eu escolhi ser sempre sincera - comigo inclusive. Falar as coisas... as pessoas perdem tanto quando pensam que "ah, ele podia Ter feito algo". Porque é que elas mesmas não fazem?