lunes, mayo 08, 2006

Lábios

Ela passa horas dissertando sobre algo que ele fingia entender perfeitamente sem ouvir uma só palavra, é algo interessante, ele sabe, mas não está prestando a mínima atenção; por mais importante que seja o assunto, não é mais belo do que a sua boca entreaberta.


Ela queixava-se sobre seu marido, eram casados desde os seus vinte e cinco anos, e eu não ousava pensar sobre sua idade, mas sabia que, embora bela, já era um pouco velha. Ela agarrava a xícara de café com mãos macias e um certo desespero, tremia levemente, suas mãos e suas pernas inquietas chutavam compassadamente a mesinha de centro em sua frente, seu vestido preto um pouco acima das coxas e sobriamente decotado lhe dava um ar sensual e respeitável, suas coxas à mostra revelavam que, apesar da idade, ainda cuidava-se muito bem. Seu perfume era doce e atrativo, misterioso.
Levanto-me para pedir à minha secretária mais um pouco de café, aproveito e arrumo dois quadros que estavam tortos na parede e irritavam-me, arrumo também uma escultura de mármore que sem querer esbarrei empurrando-a para o lado. Fingindo interesse no que ela falava murmuro um “uhum” e volto a caminhar pela sala esperando impaciente pelo café, lembro-me de ouvi-la falar algo como “Ele sempre esquece...” o que será que ele sempre esquece? A toalha em cima da cama? O aniversário de casamento? Ou o dela? Ou quem sabe sempre esqueça que camisa de manga curta com gravata é péssimo? Não, não deve ser isso... com certeza não é.

- Você está ouvindo?
- Claro que estou, é interessantíssimo, você tem, apenas, que dar mais valor aos seus próprios interesses...
- Tens razão.

Eu sempre tenho, ela apenas não sabia disso ainda. O café finalmente chega, agradeço cinicamente, sento-me e cruzo ligeiramente as pernas fingindo um ar de interesse, ela já não agarrava mais xícara nenhuma com as mãos, suas pernas estavam agora para trás de sua poltrona, mas continuavam inquietas, ainda não havia reparado em seus cabelos: eram negros, sedosos, bonitos, não belos, apenas bonitos. As suas mãos trêmulas buscavam algo em sua bolsa, ela estava retocando o batom e mesmo assim continuava dissertando.
Mas por mais interessante que seja o assunto, não era mais belo do que sua boca entreaberta.

7 comentarios:

Vento. dijo...

curiosa essa mania de repetir as frases nos textos. sempre nos finais, sempre as mesmas palavras. dá enfase, será?

mudando de assunto, bocas me causam atração. assim como olhos. mas as bocas são mais complicadas, os olhos são mais perceptiveis.


enfim.

O Gafa dijo...

É impressionante como se pode ter um diálogo inteiro sem prestar atenção! E quando disserem que não estás ouvindo, basta ter a frase certa!

Mas ter sempre razão é quase um problema...

Na verdade não!

Não reparo muito em bocas, sim em sorrisos. Agora os olhos... ah, os olhos...

Chando, Lucas dijo...

"Ou quem sabe sempre esqueça que camisa de manga curta com gravata é péssimo?"
hehe.
-
isso tudo tem um ar tão teu que se eu lesse em outro lugar diria que te plagiaram.
-
bocas são magníficas.

Luana e/ou Lana e/ou Laura dijo...

Bah, eu sou dona de ficar viajando enquanto os outros falam. E isso é ruim, bem ruim. Mas a verdade é que às vezes as pessoas falam por falar, e eu só seria mais uma a perder tempo ouvindo... vai saber.

Mas enfim, acabaste de me lembrar que hoje é aniversário de casamento dos meus pais. Muito legais os teus textos, vou começar a freqüentar. :)

Windmill dijo...

Divertido tu e a Juh postarem coisas valorizando os menores gestos. =)
Presto muita atenção em sorrisos tambem. Bocas, nunca reparo, até pq as pessoas parecem mais jovens sorrindo do que com os lábios selados.
Olhos olho bastante idem. pés, ibidem. Estes, mais o modo de se cruzarem, mexerem, pisarem do q forma, tamanho mesmo. :}

M.C.A.

Vento. dijo...

x@

Vento. dijo...

acho que tu devias postar um tal poema aqui, chamado 'o vento' se não me engano, ou algo assim...

tu me mostrou uma vez, achei-o tão expressivo...

x}
x@